O último capítulo da novela Flávio Bolsonaro começou a ser escrito no “esbarrão” do chanceler Mauro Vieira com o secretário de Estado Marco Rubio, na sexta-feira, 30, quando eles abriram o caminho para boas relações entre Brasil e Estados Unidos no quarto mandato de Lula, como impõem a realidade, a diplomacia e o bom senso.
Flávio se deu uma importância que não tinha, passou vergonha para o mundo e logo será apenas um imigrante a mais nos EUA, enquanto o pragmatismo de Lula e Donald Trump entra em ação e os reais interesses dos dois países serão postos na mesa da diplomacia, e não dos negócios, como seria entre Flávio e Trump.
O caminho entre Brasil e o país, aliás, nunca esteve de fato interditado, apesar de Trump sonhar em ser o líder da extrema direita mundial, ouvir Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro daqui e dali e confrontar o Brasil com tarifaços e a classificação do PCC e do CV como terroristas – o que, em tese, pode ter graves consequências.
Os dois presidentes se falam, Lula até critica mais Trump do que o contrário e o vice Geraldo Alckmin, o Itamaraty, o governo em geral e os variados setores privados nunca perderam contato com Washington. O trânsito continuou fluindo, mesmo com as trombadas políticas.
Agora não vai ser diferente, mas com Lula revigorado pela vitória, as manifestações e o reconhecimento internacional, e Trump amargando seus piores índices de popularidade e a real possibilidade de derrota nas eleições legislativas de meio de mandato, na próxima terça-feira. Os EUA são a grande potência, mas Brasil e Lula estão em alta, e EUA e Trump, em baixa.
Prestem atenção. Donald Trump bancou o visto e o avião desde a Argentina para Flávio, mulher e filhas e colocou em dúvida as eleições brasileiras, mas, assim como quem não quer nada, colocou ressalvas bem claras a favor de Lula. Não precisa ser um gênio da diplomacia para captar o recado.
Quando disse que a eleição “parecia fraudulenta”, ele emendou: “Gosto muito do Lula, me dou bem com ele”. Depois, quando falou que o pleito foi “uma vergonha”, explicou que não tomara partido porque Lula lhe pedira e que iria falar com ele. Não são manifestações de inimigo, nem de quem está efetivamente indignado e caraminholando retaliações.
Outros detalhes são que nem Trump nem Milei reconheceram o resultado, mas a Embaixada Americana admitiu que a vitória de Lula é “definitiva e impressionante”, e a reação do Brasil foi muito diferente diante da Argentina, que ajudou Flávio a fugir, e dos EUA, que, além disso, o acolheram.
Enquanto Vieira e Rubio combinavam os próximos passos, ao largo da reunião de chanceleres do G-20, em Atlanta, Georgia, o Itamaraty chamava a representante da Argentina em Brasília para “conversas”, o que caracteriza protesto diplomático.
A explicação oficial é cândida: o chamado não foi protesto dessa vez, tem apenas o intuito de “apurar os fatos” e nem era para vazar. Ok. Mas não seria bom também convidar representantes dos EUA para apurar os mesmos fatos?
A conclusão é que o governo brasileiro dá de ombros para Milei, afundado em crise política, econômica e social, mas com os EUA não se brinca, esteja lá Trump ou quem quer que seja. No palco, a conversa é uma; nos bastidores, a realidade se impõe. Não interessa aos EUA e Brasil, a Trump e Lula colidir pelo imigrante Flávio, nem pelos Bolsonaros.
Ninguém ganha nada com isso e, como bem disse Tarcísio de Freitas ao Estadão, “a eleição acabou, agora é olhar para a frente”.
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