No último dia 13 de outubro, Donald Trump pediu a renúncia de Kimberly Guilfoyle do cargo de embaixadora dos EUA na Grécia. Parece uma notícia pequena, insignificante, mas ela diz muito sobre o atual estado da política externa dos EUA sob o governo Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio. Mais do que isso, também pode fornecer uma janela sobre o futuro da política externa brasileira em uma presidência de Flávio Bolsonaro.
Reportagens do Wall Street Journal e de outros veículos revelaram que Kimberly Guilfoyle teria solicitado cem mil dólares a um doador político em troca de acesso a membros do governo, além dela ter promovido interesses comerciais privados. Ou seja, um possível caso de tráfico de influência. O que talvez não devesse surpreender, considerando as credenciais da agora ex-embaixadora.
Nos EUA, é historicamente comum que pessoas sejam nomeadas embaixadoras como um agradecimento por doações de campanha. Muitas vezes aquela pessoa ocupa o cargo apenas de forma cerimonial, com diplomatas capacitados fazendo o trabalho de verdade. Ainda assim, é uma prática não muito republicana e, também historicamente, os EUA não possuem um quadro de diplomatas técnicos de carreira muito vasto.
O que credenciou Kimberly Guilfoyle ao cargo, então? Ela foi apresentadora da emissora trumpista Fox News, conduziu arrecadação de doações eleitorais para Trump e teve um relacionamento com Donald Trump Jr., filho mais velho do presidente. Curiosamente, décadas atrás, foi casada com Gavin Newsom, governador da Califórnia e hoje uma das principais figuras da oposição a Trump.
Ou seja, suas únicas credenciais eram a lealdade ideológica e a proximidade ao poder de uma família que é cercada de uma profusão de possíveis casos de tráfico de influência. E essas credenciais, lealdade ideológica e proximidade da família, têm sido as mais importantes sob Trump e Rubio. Por exemplo, olhemos o caso de Daniel Perez, embaixador designado ao Brasil, a décima maior economia do mundo.
Trata-se de um deputado estadual da Flórida de 39 anos de idade, sem experiência internacional, que entrou no radar da família Trump por ficar do lado deles contra o governador Ron DeSantis e ter participado da alteração do mapa eleitoral do estado, com enorme potencial de beneficiar os republicanos. Poucos méritos, pouquíssimo currículo, mas lealdade ideológica e proximidade familiar em dia. O que move a reforma de Marco Rubio.
O secretário de Estado demitiu cerca de mil e quatrocentos funcionários, incluindo cerca de 275 diplomatas, dentre os quais trinta embaixadores de carreira destituídos ou convidados à se aposentar. Hoje, 106 dos 195 postos de embaixador dos Estados Unidos no mundo estão vagos, mais da metade. E essa reforma, o “Marco Rubio overhaul”, inspira Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato e possível chanceler em um novo governo.
Flávio Bolsonaro negou que vá indicar o irmão ao cargo, como se não fosse possível que Eduardo Bolsonaro se torne um chanceler de fato, mesmo que com um diplomata de carreira oficialmente no cargo. O interesse do ex-deputado no cargo é tamanho que, em ensaio publicado no dia primeiro de setembro, Eduardo Bolsonaro basicamente se impulsiona ao cargo e delineia as bases ideológicas da sua visão de política externa.
Eduardo Bolsonaro disse abertamente que “vai ficar na cola” de diplomatas que ele enxergue como que tenham prejudicado o governo anterior da família. Segundo reportagem de Mariana Sanches, ele conta com um núcleo de trinta a quarenta diplomatas alinhados ideologicamente. Claro que esse possível desmonte seria feito sob a guisa de uma reforma administrativa, de melhorias ou de eliminar a influência de governos anteriores do Itamaraty.
O que se vê nos EUA é justamente o contrário, trata-se da priorização de lealdade ou alinhamento ideológico sobre o mérito. E Eduardo Bolsonaro é fiel defensor da ideia de “O que acontece nos EUA, acontece no Brasil”. A diferença é que os EUA, pelo seu tamanho e importância, pode evitar parte dos custos do desmonte do aparato diplomático de Estado. O Brasil, não. Nossos custos seriam enormes. O ex-chanceler de Bolsonaro, Ernesto Araújo, que nunca havia chefiado uma embaixada e justificou o Brasil como “um pária”, que o diga.
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