Após o candidato Flávio Bolsonaro ter vencido o primeiro turno das eleições presidenciais, muito se debate e se especula como seria seu eventual governo. Um dos parâmetros que pode ser adotado, ainda mais em uma coluna de política internacional, é o governo de Javier Milei na Argentina. Não apenas pensando em questões de preferências, simpatias ou antipatias, mas com um olhar meticuloso sobre os números e o desempenho do governo vizinho.
Adotar o governo Milei como parâmetro para Flávio Bolsonaro é razoável considerando todas as demonstrações públicas do candidato e de seu entorno. No dia 29 de junho de 2026, ele disse que “Milei é um exemplo para o mundo”, além de elogiar suas políticas econômicas e acolhido declarações de apoio do argentino. A principal assessora econômica do candidato, Daniella Marques, disse no dia 14 de setembro que também vê Milei como exemplo.
E como está o governo Milei? No último mês de agosto, a inflação acumulada nos doze meses anteriores foi de 33,5%. No Brasil, foi de 4,58%, sete vezes menor. É importante mencionar que, antes do governo Milei, a inflação argentina acumulada no ano de 2023 foi de chocantes 211,4%. Ou seja, Milei não cumpriu sua meta de praticamente zerar a inflação até o presente ano, mas conseguiu um ótimo resultado. Com dois aspectos importantes.
Primeiro, a menção ao cenário brasileiro se dá pelo fato de que Flávio Bolsonaro e seu “tesouraço” buscam emular a motosserra de Milei, embora sejam situações absurdamente distintas. A Argentina, sob alguns aspectos, nunca se recuperou da Crise de 1929. Milei foi um grito de desespero perante uma profunda crise econômica. Usou a inflação para beneficiar as contas públicas, o chamado Efeito Bacha, e pegou emprestado dezenas de bilhões de dólares com o Fundo Monetário Internacional e o governo Trump.
O Brasil está estável, tem uma economia muito maior e mais diversa e não possui dívida com o FMI desde o início do século XXI. Ver em Milei um exemplo é ou um grave erro técnico de diagnóstico comparando realidades distintas ou então mero discurso ideológico inadequado, embora Bolsonaro provavelmente ache que somente os outros usam discurso ideológico. O segundo aspecto importante da diminuição da inflação na Argentina é quem paga essa conta.
Segundo o Instituto Nacional de Estadística y Censos de la República Argentina, o INDEC, a pobreza argentina chegou a atingir 52,9% no primeiro semestre de 2024, número recorde da História moderna do país. Hoje, está em ainda alarmantes 33,5%, com mais 7,5% de pessoas na indigência. Indo além, segundo o think tank Fundar, 31.342 empresas fecharam na Argentina durante o governo Milei, especialmente na indústria e na construção.
A quebradeira afetou o desemprego, hoje em 7,9% e marcado pela queda de vagas formais de trabalho e aumento de postos de trabalho precarizados, o que afeta os mais jovens. Mais alarmante é a estatística repercutida pelo jornal conservador argentino Infobae de que a taxa de suicídios subiu de 9,7 por 100 mil habitantes em 2023 para 11,8 em 2025. O suicídio foi a principal causa de morte violenta no país, superando amplamente os homicídios
Segundo o mesmo veículo, houve um aumento de 44% em tentativas de suicídio na cidade de Buenos Aires, comparando os primeiros cinco meses de 2025 e de 2026. Segundo Fernán Quirós, ministro da Saúde da capital argentina, a vulnerabilidade socioeconômica, a precarização do trabalho e a insegurança habitacional estão entre os fatores associados ao agravamento dos problemas de saúde mental na cidade.
Milei argumenta que sua política busca atrair investimentos estrangeiros. Salvo o setor da mineração, os dados do Banco Mundial mostram que a realidade é de queda das entradas líquidas de investimento estrangeiro direto comparando 2024 e 2025. Novamente, a crise econômica argentina não é unicamente responsabilidade de Milei, mas é da responsabilidade de seu governo o fato de que a maior parte da população ficou mais vulnerável.
Os supostos benefícios em investimentos dessa política de Milei não se comprovaram até o momento e a Argentina hoje é refém da dívida externa, com projeção de recessão pelo JP Morgan. Mesmo com tudo isso, Flávio Bolsonaro, cujas possíveis relações com milícias foi tema de editorial desse jornal em 23 de setembro e cujo golpismo foi tema de outro editorial em 18 de junho de 2025, ainda cita Milei como exemplo. Realidades totalmente distintas que não servem em nada de “exemplo” para o Brasil, só se for do que não é para ser feito, da importância de um olhar bastante atento ao noticiário internacional e de quem paga a conta.
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