Para Leandro Karnal, historiador e colunista do Estadão, a inteligência artificial (IA) irá causar uma mudança profunda no mercado de trabalho, transformando algumas profissões e extinguindo outras. Apesar das suas capacidades, ele acredita que a tecnologia não deve ser vista como um ser todo-poderoso.
“A IA não é uma entidade autônoma nem única. Ela ainda tem dono e ainda gera lucro para algumas pessoas”, afirma, em entrevista concedida durante o evento QInsights, da plataforma de soluções de gestão de pessoas Qulture Rocks.
O historiador diz que a IA é hoje uma espécie de biblioteca mundial e que, em um futuro breve, pode adquirir capacidades criativas. Mas ele reforça: acredita que toda inteligência que exista hoje seja humana, usada para abastecer sistemas como ChatGPT, Gemini ou Claude.
Segundo Karnal, o efeito mais recente da tecnologia na sociedade não é só o aumento da produtividade das empresas, mas sim o impacto do grande volume de informações na saúde mental das pessoas. “A primeira questão com a qual a empresa deve lidar é que a IA piorou a saúde mental das pessoas”, afirma, ressaltando o desafio de lidar com um grande volume de informações.
Na era da IA, Karnal lembra ainda que o aprendizado e a adaptação no mercado de trabalho se tornam ainda mais importantes e diz que ter apenas um diploma universitário não vai mais garantir estabilidade profissional.
Leia os principais trechos da entrevista a seguir.
Como as empresas devem lidar com a IA se infiltrando em todas as áreas e mudando o trabalho assim, do dia para a noite?
Para evitar uma coisa que a IA já está provocando, que é a expressão inglesa “brain rot” (podridão cerebral, em tradução livre) — quando você passa a receber muitos aportes de informações de organização e que, curiosamente, não estão significando mais tranquilidade e mais paz —, nós temos que lembrar que a aceleração de processos com revisões, reuniões de dados ou até pesquisa não significa uma melhoria no trabalho. Então, a primeira questão com a qual a empresa deve lidar é que a IA piorou a saúde mental das pessoas.
Essa saúde mental já entrou em bastante choque durante a pandemia, quando nós nos submetemos ao home office. Juntamos em casa instituições modeladoras, que são escola, família e trabalho. E a junção das três é muito difícil. O trabalho é para você desestressar da família, e a família é para desestressar do trabalho. Quando você reúne tudo num só lugar, você piora as coisas.
A IA fez com que seu trabalho fosse contínuo, enquanto você passou a ser abastecido com dados em velocidade desumana. Nenhuma máquina de escrever poderia suplantar o ser humano. O teclado QWERTY coloca a letra A no dedo mais fraco, porque ele tranca as teclas se você digitar muito rápido. Nenhum computador tranca se eu digitar na velocidade da luz. Ou seja, a máquina excedeu o padrão humano. A máquina quebrou o padrão laboral humano e a IA aumentou isso. Ainda estamos lidando com uma ruptura neste padrão laboral, e essa ruptura tem que ser entendida seriamente pelas empresas.
Para sintetizar: a primeira coisa que a empresa tem que cuidar é da saúde mental das pessoas, que está sendo uma das maiores causas de afastamento do trabalho.
Na visão do sr., quais são as profissões que devem sobreviver à inteligência artificial? São as que envolvem trabalhos manuais?
Todas as profissões, mesmo as manuais, estão em risco. Só não estão em risco tão imediato. Na Índia, por exemplo, uma vez eu encontrei num motel uma mulher cuja função era bater um cabo de vassoura num pano para espantar pombas. Por que era possível contratar um ser humano para fazer um trabalho que poderia ser feito por um gavião? Porque a mão de obra era mais barata do que o gavião ou do que um ultrassom, ou qualquer outro elemento para isso.
Onde a mão de obra for barata, como é, por exemplo, na Índia, haverá ainda uma sobrevivência maior (das profissões manuais). Mas, onde ela é cara, já se significa muito essa diminuição, até mesmo da mão de obra física. Estive no Vale do Silício em 2017 e lá eles disseram: “Precisamos muito de filósofos com linguagem de computação avançada. E isso é difícil porque o filósofo raramente é muito tecnológico e o tecnólogo raramente é muito filosófico”. Para definir inteligência, as habilidades que estavam sendo definidas, as empresas precisavam de filósofos com habilidade em computação.
Então, o futuro indica combinação de setores, pessoas capazes de trabalhar em equipe e, ao mesmo tempo, de trabalhar de forma remota, pessoas disciplinadas para o aprendizado e saber que o que eu estudei possibilitou eu subir um degrau, não ficar nele. Quem acha que, por causa de uma qualificação, ficará estável, está com um padrão laboral equivocado.
Um jovem pode não saber que houve uma profissão chamada ascensor. Essa pessoa dentro do elevador ainda existe nos ministérios em Brasília. Quando essas pessoas morrerem, provavelmente o cargo estará extinto.
Mas é claro, há uma expansão muito grande em outros setores, e temos profissões em crise, inclusive as não-mecânicas. Uma profissão que está em crise é a dos professores. É uma profissão que perdeu a atratividade e perdeu também o respeito social. Agora surgiram milhares de campos para um professor atuar, por exemplo, na internet. Essa adaptação permanente é necessária.
A educação contínua é um tema recorrente, especialmente entre profissionais de RH. Com a IA, isso se torna mais importante ou a IA pode suprir essa lacuna educacional?
Seja com a IA elaborando treinamento, seja a IA sendo dirigida por pessoas para ajudar nesse treinamento, a palavra do século 21 é curadoria. Sou um homem com mais de 60 anos. Quando eu era jovem, o professor mandava pesquisar algo; eu ia para casa e abria a Enciclopédia Barsa. Eu a abria e copiava. O meu problema era de onde tirar a informação. Qual é o problema agora? O excesso de informações. Nos processos de validação da informação, temos a epistemologia, aquela forma de pensamento filosófico em que eu digo: “O que é verdade? Como chego à verdade?” Hoje, o grande problema é a curadoria. Ou seja, como eu sei que aquilo não é fake news? Como eu sei que aquilo é confiável e como eu obtenho o contraditório? Quem não souber fazer isso vai ser sufocado pela picaretagem explícita — notável em época de eleição, inclusive falsos vídeos de IA, com candidatos falando coisas falsas feitas por inteligência artificial.
Eu preciso saber distinguir para ser um cidadão consciente, poder conviver em grupo e saber que todos erramos. Mas é muito mais importante que eu confie numa instituição sólida que tenha o nome dos jornalistas ali presentes e que eu possa verificar de quais fontes eles tiraram as informações. Eles podem errar, mas eu posso saber onde eles erraram e a partir de quais pontos eles erraram, diferentemente de um anônimo que posta um dado que vem do nada. Por isso que a qualificação, por exemplo, do jornalismo, a qualificação de quem fornece e organiza informações, é ainda mais importante.
Os médicos erram, mas, se eu sofrer uma cirurgia cardíaca, eu prefiro um médico do que um jovem interessado em vídeos do YouTube sobre coração. Eu sempre prefiro alguém com formação, que estudou, vai errar menos e vai dar a cara a tapa.
Existe uma corrida global para criar uma superinteligência, uma inteligência que supere as capacidades humanas em basicamente todas as áreas do conhecimento. Nesse contexto, o sr. vê hoje a inteligência artificial como um sistema inteligente ou um sistema probabilístico que conecta palavras?
Na minha percepção, nós não temos inteligência, nós temos uma capacidade crescente, que possivelmente em breve venha a ser uma capacidade criativa. Mas ela ainda é uma capacidade organizativa. Hoje, ela é uma espécie de vasta biblioteca mundial. Ela vai ignorar o que não está publicado e vai incorporar o que está publicado. Não há ainda inteligência que não seja orgânica no planeta. Outro detalhe importante: a IA não é uma entidade, ela tem dono, tem imensos data centers que consomem muita energia, (e as empresas) destroem livros para incorporar ao seu acervo.
Como nas duas metáforas que o Yuval Noah Harari usa no livro Nexus, Faetonte e o conto do aprendiz de feiticeiro, você desperta forças superiores a você. Por enquanto, a IA é coordenada por megabilionários que empregam o melhor da inteligência humana para produzir imensos data centers e vendendo produtos selecionados, como previu o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, para que as pessoas também tenham acesso a IAs diferenciadas.
É como se, no futuro, eu dissesse que os novos servos são aqueles que só podem pagar uma IA geral e os novos senhores são aqueles que podem pagar uma IA geradora de ideias criativas e soluções. Estamos sempre à beira do abismo e a síndrome de Frankenstein nos ronda. Mas a IA não é uma entidade autônoma e nem única. Ela ainda tem dono e ainda gera lucro para algumas pessoas.
Como as pessoas podem conviver com os agentes de IA no ambiente de trabalho?
Só tem duas formas que já estão ocorrendo: ativo ou passivo. Se você ignorar a IA, você está sendo vivido por ela. Seu celular está sendo direcionado de forma inequívoca à sedução dos consumos. Se eu pronunciar aqui a palavra Faetonte, o mito grego do filho do sol, duas ou três vezes, daqui a pouquinho eu vou receber um perfil do Instagram com um Faetonte, um quadro do (Peter Paul) Rubens com a queda de Faetonte, ou a indicação do livro do Yuval.
Quando eu estudo a IA e seus mecanismos, eu deixo essa forma passiva de ser alvo da IA e adquiro uma forma ativa. Eu sou também agente da IA. Sempre precisamos dessa interferência humana. Eu sou cronicamente otimista, assino minhas crônicas no Estadão com a palavra “esperança”. Lido com jovens e eu ainda acho que a IA pode nos beneficiar muito. Mas, é claro, toda transformação gera insegurança, que gera o questionamento sobre se nós seremos suplantados pela IA.
Com a IA, podemos esvaziar a autoridade absoluta que antes imperava. É bom que eu pergunte para a IA sobre os meus exames e que eu vá ao médico e discuta com um pouco mais de qualidade sobre eles, porque eu vou diminuir o erro médico, dando voz a quem sofre o problema, que sou eu, e ajudando a IA. Mas lembrando: nada que seja humano ou derivado do humano é absoluto, 100% confiável e isento de subjetividade, que é a marca do humano.
Se a inteligência artificial tornar o raciocínio barato e abundante, o que será da inteligência humana?
A IA é abastecida pela inteligência humana. Teoricamente, num mundo utópico, você deixaria tempo aos seres humanos para as atividades que já foram sonhadas por utopistas de Thomas More a Marx. A humanidade se dedicaria à criação, ao deleite estético, livre do imperativo do trabalho ou livre do imperativo de obter a vida. Não acredito nisso. Acredito que nós deveríamos desenvolver habilidades mais densas, criativas, éticas, interpessoais e assim por diante.
O historiador bom sabe um pouco sobre o passado e nada sobre o minuto seguinte. O minuto seguinte, em filosofia, é contingência: pode acontecer ou pode não acontecer. No início de 2019, se eu mostrasse uma foto do mês de 2020 com pessoas com máscara na rua, mas o que aconteceu? Ninguém imaginaria isso. Todo mundo passando álcool gel nas mãos com máscaras. Tudo que nós vivemos na pandemia não podia ser previsto, não porque a última memória de gente com máscara na rua tivesse sido na época da epidemia de gripe espanhola.
O que vai acontecer no futuro: não sei. Precisaremos de pessoas em formação mais críticas, estudando sempre, desenvolvendo conhecimento e sempre perguntando a pergunta latina que eu gosto muito: cui bono. Isso que significa “a quem interessa isso”, “quem que ganha com isso”.
Por exemplo, eu vi uma notícia muito feliz sobre um determinado país da África, Burkina Faso, que mostrava que o crescimento de cereais naquele país, que já foi atingido pela fome, era de 127%. Isso me encheu de alegria. No final, li a fonte: departamento de agricultura do governo de Burkina Faso. Ou seja, no momento em que eu sei que aquele departamento tem interesse em divulgar dados positivos, como no Brasil no milagre econômico, na China de Mao Tsé-Tung durante a revolução cultural, eu sei que aqueles dados têm que ser agora conferidos com o contraditório.
O que dizem os observadores da ONU sobre o crescimento agrícola do país? Eu não sei dizer se é verdadeiro ou falso, porque eu não tenho esse dado. Eu apenas estou dizendo: cui bono, eu tenho que desconfiar. Ceticismo metódico, aquilo que (René) Descartes propunha como método científico, é o que vai extinguir um ser humano importante no futuro de um irrelevante e manipulado por seres humanos ou pela IA.
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