O Alto Comando do Exército (ACE) se reuniu na semana passada para definir a promoção de oficiais generais. Entre os votos dos quatro estrelas, apenas uma surpresa: o general de brigada Mário Eduardo de Moura Sassone, originário da Artilharia, ficou pelo caminho, depois de comandar a Escola de Comando e Estado-Maior (Eceme). “Torcia por ele, mas havia vagas de menos”, lamentou um integrante do ACE.
Além das promoções, havia um tema que não podia deixar de estar presente nas conversas entre os generais: o resultado do primeiro turno das eleições. Existe um consenso entre os generais sustentado pelas pesquisas eleitorais: Flávio Bolsonaro é o favorito para ser eleito presidente da República em 25 de outubro. Mas o que isso significa para os generais? Quais as expectativas deles para o futuro governo?
Os ataques ao Alto Comando em 2022 praticados por oficiais que executaram uma operação psicológica para desestabilizar os generais, bypassá-los e, assim, impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, ficaram no passado, depois da barafunda na qual o Supremo Tribunal Federal se meteu. Para os generais, Flávio não é Jair. O filho aceitaria assessoramento, o pai não. O filho conversava no Senado com seus pares; o pai se isolava na Câmara dos Deputados.
Ninguém entre os generais acredita que o filho se dedicará a uma vingança contra Força Terrestre porque o comando se recusou a aderir ao golpe pretendido por Jair, por Braga Netto e por Mário Fernandes. Primeiro, porque não tem coragem; depois, porque os militares brasileiros “para o bem e para o mal” – como disse um general – são diferentes dos americanos, submetidos a testes de testosterona pela administração Trump e seu secretário da Guerra, Pete Hegseth. Flávio teria muitas outras coisas urgentes a cuidar no País, em vez de querer criar uma crise na área militar.
Mas, e se Eduardo Bolsonaro estiver certo ao dizer que todas as escolhas de ministros de Flávio passarão por seu pai? E a Turma de Miami? Paulo Figueiredo será ouvido sobre quem será o novo titular da Defesa? Gérson Gomes, o coronel que espalhou a história infame da perfídia contra o general Gustavo Henrique Dutra, o homem que evitou um banho de sangue no dia 8 de janeiro de 2023, vai participar da escolha do futuro comandante do Exército? Ou a escolha recairá sobre os três generais mais antigos da Força?
A turma de Miami queria se vingar daqueles a quem chama de os “melancias”, termo que revela mais o caráter de quem o usa do que o do alvo para qual é dirigido. Figueiredo espalhou a ideia de que o Departamento do Estado dos EUA ia sancionar o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, comandante do Exército. A ideia não vingou. Ao mesmo tempo, o ativismo nas redes sociais envolvendo as Forças Armadas se arrefeceu. A gestão do general Tomás conseguiu deixar a política fora dos quartéis e se concentrar nos desafios gigantescos que a nova geopolítica mundial impôs à Defesa das nações.
Durante o primeiro turno da campanha, apenas um episódio causou ruído: quando Flávio Bolsonaro, em uma de suas sabatinas, afirmou que o brigadeiro Carlos Baptista Junior, o ex-comandante da Força Aérea que disse não ao golpe, ia votar em Lula. Era uma mentira. Baptista Junior, o BJ, nunca foi petista. Pelo contrário: votou em Bolsonaro, mas se recusou a romper com a legalidade em 2022.
Em recente artigo na Folha de S. Paulo, BJ defendeu que a escolha do futuro ministro recaia sobre um civil: “O País precisa de um ministro civil com autoridade política, visão estratégica, conhecimento das instituições militares e capacidade de liderança”, escreveu o ex-comandante da FAB. No Exército, há quem lembre o risco de que a escolha de um civil favoreça um candidato a Hegseth brasileiro, ainda que os generais considerem essa possibilidade improvável.
De concreto, os generais acreditam que os nomes citados por jornalistas, como o de Marcos Degault, ex-secretário de Produtos de Defesa (Seprod) de Jair Bolsonaro, ou mesmo de um político como o senador Carlos Portinho (PL-RJ) poderiam ocupar o cargo em caso de vitória de Flávio ou alguém com o perfil de José Múcio, se Lula for reeleito.
Portinho é o autor da PEC que destinava o equivalente a 2% do PIB para o orçamento da Defesa. Atualmente, a área tem R$ 5 bilhões ao ano fora do arcabouço fiscal para investimentos. Mas, mesmo assim, sofre com o congelamento de despesas discricionárias a fim de se conter o déficit fiscal. Ou seja, o novo governo – seja Lula ou Flávio – começaria com os militares outra vez tentando mostrar a importância da previsibilidade das verbas para projetos, como a defesa antiaérea e o submarino nuclear.
Criminalidade e escudos das Américas
De todo modo, o cenário de uma vitória de Flávio traz a perspectiva do fim das restrições do Itamaraty às compras e às vendas de material de Defesa, como as que envolveram os blindados Guarani, para a Ucrânia, e à compra dos obuseiros autopropulsados Atmos, de Israel, cujo bloqueio só teria sido afastado, após a Avibrás se associar aos israelenses para produzir o equipamento no Brasil.
Em outra área, a possível mudança de governo pode significar, segundo os militares, a possibilidade de um emprego maior das Forças no combate ao crime organizado. Mas há quem lembre que uma “gigantesca GLO (Operação de Garantia da Lei e da Ordem)” custaria uma fortuna e, provavelmente, teria como resultado o mesmo de sempre: uma asfixia do crime enquanto vigora a GLO e um retorno ao status quo anterior ao seu término, visto que esse instrumento não se mostra adequado para o enfrentamento do fenômeno criminal.
Também se prevê a possível adesão do País ao Escudo das Américas. Mas os militares lembram que, se todo cooperação nessa área é bem-vinda, até porque o Exército está acostumado a trabalhar em operações interagências, o mesmo não acontece com a possibilidade de se instalar bases americanas no País, consideradas desnecessárias, diante da capacidade da Força de cuidar das missões que lhe são confiadas. “A instalação de uma base militar dos EUA — ou de qualquer país estrangeiro — no Brasil enfrentaria enorme resistência por parte das Forças Armadas”, disse à coluna um dos entrevistados.
Sobre a possível anistia aos envolvidos na tentativa de golpe de 2022, os generais consideram que, desde que o tema passou para a alçada do Supremo, ele deixou de ser de responsabilidade da Força, inclusive no caso dos oficiais envolvidos na trama. Assim, se o STF anular o processo ou se uma anistia for concedida, os oficiais que foram condenados que, eventualmente, ainda estiverem na ativa deverão voltar à tropa. Mas a mancha dos delitos continuará em suas carreiras. Vira-se a página, mas não será desconsiderado internamente o que aconteceu e a conduta de cada um.
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