Enquanto o mundo avança em tecnologia e inovação, milhões de meninas e mulheres ainda enfrentam dificuldades para acessar itens básicos de higiene durante a menstruação. Essa realidade, conhecida como pobreza menstrual, vai muito além da falta de absorventes: trata-se de um problema de saúde pública que compromete a dignidade, amplia desigualdades e afeta a qualidade de vida de quem menstrua.
De acordo com relatórios do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a pobreza menstrual está relacionada a diversos obstáculos enfrentados por meninas, mulheres, homens trans e pessoas não binárias que menstruam. Esses desafios incluem a dificuldade de acesso a produtos adequados para a higiene menstrual, a ausência de saneamento básico e de instalações apropriadas para o cuidado durante o período menstrual, além da desinformação e dos tabus que ainda cercam a saúde menstrual e reprodutiva.
O aspecto econômico é um dos principais fatores que perpetuam essa realidade. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2025, do IBGE, o Brasil ainda possui 50,7 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, o equivalente a 23,1% da população. Destas, 7,7 milhões vivem em situação de extrema pobreza (3,5%), conforme os critérios internacionais mais recentes do Banco Mundial. Embora esses indicadores tenham apresentado melhora nos últimos anos, o número de brasileiros em situação de vulnerabilidade ainda é expressivo.
Em muitos lares, a renda disponível é insuficiente para atender a todas as necessidades básicas, e produtos de higiene menstrual acabam sendo preteridos diante de despesas consideradas mais urgentes. Como consequência, muitas pessoas recorrem a alternativas improvisadas, como pedaços de tecido, roupas velhas, papel ou outros materiais inadequados, aumentando o risco de irritações, alergias, infecções urogenitais, como candidíase e cistite, além de outras complicações decorrentes da higiene inadequada. Em situações específicas relacionadas ao uso incorreto de determinados produtos menstruais, também pode ocorrer a Síndrome do Choque Tóxico, uma condição rara, porém potencialmente grave.
Os impactos, no entanto, não se restringem à saúde física. O medo de vazamentos, o constrangimento, a vergonha e a ansiedade podem provocar isolamento social, afetar a autoestima e comprometer o desempenho escolar e profissional. Não por acaso, a pobreza menstrual também é reconhecida como um fator que contribui para a evasão escolar e para o aumento das desigualdades sociais, especialmente entre adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Em função disso, o acesso à informação e ao acompanhamento médico também desempenham papel fundamental. A orientação adequada permite esclarecer dúvidas sobre o ciclo menstrual, identificar alterações que merecem investigação e orientar sobre os cuidados necessários para preservar a saúde íntima. Da mesma forma, promover o diálogo aberto sobre a menstruação ajuda a romper estigmas históricos que ainda fazem com que muitas pessoas enfrentem esse período em silêncio e com vergonha.
Já é possível ver avanços em políticas públicas. Entre elas, está o Programa Dignidade Menstrual, do Ministério da Saúde, que representa avanços importantes para enfrentar esse cenário. A iniciativa garante a distribuição gratuita de absorventes para pessoas em situação de vulnerabilidade por meio do Programa Farmácia Popular, além de promover ações de educação em saúde menstrual e conscientização sobre o tema.
Ainda assim, a superação da pobreza menstrual exige um esforço coletivo. Poder público, profissionais de saúde, instituições de ensino, organizações da sociedade civil e setor produtivo têm papéis complementares na promoção da saúde, na disseminação de informações confiáveis e na ampliação do acesso a produtos de higiene menstrual. Garantir dignidade menstrual não significa apenas disponibilizar um item essencial de higiene, mas assegurar que milhões de pessoas possam estudar, trabalhar e viver plenamente, exercendo seus direitos com saúde, respeito e dignidade.
Denise Pires, Gerente de Marketing da Mili.
Discover more from FATONEWS :
Subscribe to get the latest posts sent to your email.


























