Análise — por que parte da liderança evangélica brasileira apostou tanto na aliança com Jair Bolsonaro e o que está em jogo nessa relação
O fenômeno
Nas últimas duas eleições, boa parte da liderança de igrejas neopentecostais e pentecostais — Assembleia de Deus, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, entre outras — declarou apoio explícito a Jair Bolsonaro e à agenda política identificada como extrema direita. Pesquisas de intenção de voto mostraram, eleição após eleição, que o eleitorado evangélico votou no ex-presidente em proporção bem maior que a média nacional. O fenômeno não é novo nem exclusivamente brasileiro — mas no Brasil ele ganhou contornos particulares, que ajudam a explicar por que tantos púlpitos viraram, na prática, palanques.
Não existe uma única resposta para essa pergunta. Cientistas políticos, sociólogos da religião e os próprios líderes evangélicos dissidentes apontam para uma combinação de fatores: interesses institucionais e econômicos concretos, uma leitura teológica específica da política como “guerra espiritual”, o uso deliberado de desinformação como ferramenta de mobilização e uma real divergência de valores sobre costumes e família. Este texto tenta mapear cada uma dessas camadas — e também dar voz ao que a própria liderança evangélica diz em sua defesa.
Uma aliança construída ao longo de décadas
A entrada maciça de pastores na política brasileira começou na Assembleia Nacional Constituinte de 1986-88, quando 33 candidatos evangélicos, sob o slogan “irmão vota em irmão”, foram eleitos para escrever a nova Constituição. Segundo pesquisa acadêmica sobre o tema, a justificativa era defender “interesses institucionais” das igrejas contra adversários identificados como católicos, movimentos LGBT e religiões afro-brasileiras, e ao mesmo tempo lutar contra a descriminalização do aborto e das drogas. Desde então, a chamada bancada evangélica cresceu de forma constante: hoje soma cerca de 38% dos deputados federais, segundo levantamentos do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), tornando-se um dos maiores blocos suprapartidários do Congresso.
Esse bloco não nasceu com Bolsonaro nem se resume a ele: apoiou candidatos de diferentes partidos ao longo de décadas, inclusive petistas em governos anteriores. O que mudou, a partir de 2018, foi a intensidade da adesão e a disposição de boa parte da liderança religiosa em transformar o púlpito em ferramenta de campanha de um único campo político.
O componente econômico e institucional
Um dos interesses mais bem documentados pela ciência política é o controle de concessões de rádio e televisão. A Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara — que aprecia outorgas e renovações de emissoras — tem historicamente número expressivo de parlamentares ligados a igrejas evangélicas, muitos deles donos de rádios e TVs, como é o caso de dirigentes da Igreja Universal. Pesquisadores como Paulino Motter descreveram esse mecanismo, desde a Constituinte, como uma verdadeira “moeda de troca”: apoio político a governos de plantão em troca de concessões de radiodifusão.
A isso somam-se a imunidade tributária de templos religiosos, emendas legislativas para dispensar igrejas de impostos sobre remessas e repasses, e o acesso a cargos e verbas públicas por meio de indicações políticas — como a nomeação de ministros do Supremo Tribunal Federal e de outros postos com perfil “terrivelmente evangélico”, nas palavras do próprio Bolsonaro ao indicar André Mendonça. Um artigo de análise sobre a bancada evangélica resume o argumento de forma direta: o projeto político do grupo buscaria “não apenas a legislação de valores morais, mas também a obtenção de vantagens econômicas”, o que os críticos internos ao próprio movimento evangélico apontam como uma contradição com os ensinamentos bíblicos sobre poder e riqueza.
Alinhar-se ao governo de plantão — seja ele qual for — para preservar esses ativos é, portanto, parte da explicação. Governos de direita, no caso de Bolsonaro, ofereceram esse alinhamento de forma particularmente aberta, com ministérios, cargos na Funai, na Fundação Palmares e em outros órgãos entregues a indicações da bancada evangélica.
Teologia da prosperidade, “guerra espiritual” e pânico moral
Além do interesse material, há uma camada teológica real. Setores neopentecostais leem a política como extensão de uma “guerra espiritual” entre o bem e o mal, na qual pautas de costumes — aborto, união homoafetiva, currículo escolar sobre gênero e sexualidade — são tratadas como ameaças existenciais à família e à fé, e não como temas de política pública sujeitos a debate e nuance. Nesse quadro, um candidato que se apresenta como defensor da “família tradicional” é enquadrado quase como instrumento de uma causa religiosa, o que blinda emocionalmente seus eleitores contra críticas de ordem moral ou factual ao próprio candidato.
É nesse terreno que floresceram, de fato, boatos sem base como o do suposto “kit gay” nas escolas — checagens de agências como Aos Fatos, Lupa e Comprova mostraram repetidamente que o material didático que circulou como prova do boato não correspondia a nenhuma política pública real de distribuição em sala de aula. O mesmo vale para a peça infantil da “mamadeira de piroca”, posteriormente desmentida por checadores como distorção de uma obra de arte de uma mostra restrita a adultos. Esses boatos foram amplamente replicados em grupos de WhatsApp de igrejas e, em alguns casos, mencionados por lideranças religiosas em cultos e programas de rádio evangélicos — o que ajuda a explicar por que uma parcela do eleitorado evangélico segue convencida de pautas que checadores de fatos consideram infundadas ou fortemente distorcidas.
Quando o boato vira arma política
Um caso emblemático de desinformação eleitoral evangélica foi espalhado pelo deputado e pastor Marco Feliciano em 2022: a alegação de que Lula, se eleito, fecharia igrejas evangélicas. Agências de checagem e o próprio Feliciano, em falas anteriores, reconheceram que a afirmação não tinha fundamento. Na verdade, foi Lula quem sancionou, em dezembro de 2003, a Lei 10.825 — que reconheceu organizações religiosas como pessoas jurídicas de direito privado e facilitou a formalização de igrejas — ainda que, como apontou checagem da CNN Brasil, o projeto original tenha sido proposto por um deputado do PL, e não escrito pelo próprio Lula, uma nuance que discursos de campanha por vezes omitem dos dois lados. Governos petistas também sancionaram o Dia Nacional da Marcha para Jesus, o Dia do Evangélico e, mais recentemente, em 2024, o Dia Nacional da Música Gospel.
Esse contraste entre o histórico legislativo e o discurso de perseguição — a ideia recorrente de que a esquerda “vai fechar as igrejas” ou “perseguir os cristãos” — é citado por pesquisadores e por pastores dissidentes como um dos exemplos mais claros de uso deliberado do medo como estratégia de mobilização eleitoral dentro das igrejas.
A tensão teológica: Romanos 13 e a obediência seletiva
Parte da liderança evangélica bolsonarista recorre a Romanos 13 — o texto em que Paulo escreve que “toda autoridade constituída provém de Deus” — para pregar submissão a governantes. Críticos dentro do próprio campo evangélico, como o pastor Ariovaldo Ramos, fundador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, e organizações como a Frente Nacional Evangélica pelo Estado de Direito e o movimento Evangélicas pela Igualdade de Gênero, apontam uma inconsistência: esse mesmo texto raramente é invocado para pedir respeito a autoridades eleitas de esquerda, tratadas por parte do mesmo púlpito como ilegítimas, ameaças à fé ou instrumentos do “mal”. Para esses dissidentes, a leitura bíblica é aplicada de forma seletiva, conforme o alinhamento político do governante, e não como princípio universal.
Esses críticos internos também citam a distância entre a retórica de ódio e ameaças a adversários — presente em falas do próprio Bolsonaro ao longo de sua carreira, incluindo comentários misóginos dirigidos a colegas parlamentares, elogios públicos a torturadores da ditadura militar e discursos de campanha com ameaças a opositores políticos, fartamente documentados pela imprensa e por decisões judiciais — e ensinamentos centrais do Novo Testamento sobre amar o inimigo, não retribuir mal com mal e cuidar dos mais pobres. Pastores como Ariovaldo Ramos e teólogos ligados a setores progressistas do protestantismo brasileiro argumentam que o apoio de parte da liderança evangélica a políticas de corte social mais restritivo — críticas a programas como Bolsa Família e Pé-de-Meia, ou ao Sistema Único de Saúde — contradiz a ênfase bíblica no cuidado com órfãos, viúvas e pobres.
O outro lado: o que dizem os líderes evangélicos bolsonaristas
Para dar um quadro equilibrado, é preciso registrar também os argumentos de quem apoia essa aliança. Lideranças alinhadas a Bolsonaro costumam justificar o apoio por razões que consideram legítimas, entre elas:
- Rejeição a pautas de costumes que entendem como ataque à fé — como a legalização do aborto ou currículos escolares sobre identidade de gênero — mesmo quando não há proposta legislativa concreta em tramitação nesse sentido;
- Desconfiança histórica em relação ao PT, alimentada por escândalos de corrupção como o Mensalão e a Lava Jato, que marcaram profundamente parte do eleitorado conservador, independentemente de fé religiosa;
- A percepção — real para parte do eleitorado evangélico, ainda que contestada por outros setores da própria comunidade cristã — de que restrições à liberdade de culto durante a pandemia de Covid-19, como o fechamento temporário de templos, representaram um precedente perigoso de intervenção estatal sobre a fé;
- Uma leitura de que valores como “família”, “liberdade econômica” e “ordem” estariam mais alinhados ao campo conservador do que ao de esquerda.
Esses argumentos são debatidos, e não consensuais, inclusive dentro das próprias igrejas — há um número crescente de pastores, teólogos e fiéis evangélicos que discordam publicamente da aliança com a extrema direita e denunciam o que consideram instrumentalização política da fé. O tema segue sendo um dos mais polarizados do debate público brasileiro, e merece ser lido com essa divergência interna em mente, e não como um bloco monolítico.
Um interesse, não apenas um
A pergunta sobre por que tanta liderança evangélica apostou na extrema direita brasileira não tem uma resposta única. Há interesse econômico e institucional concreto — concessões de mídia, isenções fiscais, cargos e verbas. Há uma leitura teológica que transforma disputa política em guerra espiritual, o que torna o eleitor menos permeável a fatos que contradigam o candidato escolhido. Há um uso comprovado de desinformação — sobre “kit gay”, sobre suposto fechamento de igrejas, sobre perseguição religiosa — que circula com força em redes de WhatsApp e púlpitos, mesmo depois de repetidamente desmentida por agências de checagem. E há uma genuína divergência de valores sobre costumes, família e papel do Estado, que não pode ser reduzida a má-fé.
O que fica evidente, tanto para pesquisadores quanto para pastores dissidentes dentro do próprio movimento evangélico, é que essa equação combina fé, poder e dinheiro de um jeito que uma parte crescente da própria comunidade cristã considera incompatível com os textos bíblicos que ela diz defender — enquanto outra parte segue convencida de que está exatamente cumprindo esse chamado. É um debate que continua em aberto, e que a sociedade brasileira — evangélica ou não — segue tendo, eleição após eleição.
Fontes consultadas: reportagens e checagens de Agência Brasil, CNN Brasil, Revista Fórum, Carta Capital, ICL Notícias e agências de checagem (Aos Fatos, Lupa, Comprova); levantamentos do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap); estudos acadêmicos sobre a Frente Parlamentar Evangélica (Pierucci, Freston, Motter, Mariano, Machado) publicados em periódicos como Opinião Pública (Scielo).
Por Samuka Câmara
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