Fim de ciclo é o que sugerem as cenas explícitas no plenário do Supremo Tribunal Federal, na última terça, 15. Foram quase cinco horas de orgia de insultos ao vivo, na televisão, em tumulto premeditado para impedir a abertura de investigação sobre o juiz Alexandre de Moraes, suspeito de relações impróprias com o antigo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que está preso por trapaças em série no mercado financeiro.
Foi, enfim, uma sessão “histórica” sobre o buraco “histórico” em que o Supremo se meteu — e que continua cavando. A manobra resultou num impasse favorável aos interesses imediatos de Moraes e aliados, os juízes Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin. O custo do “triunfo”, porém, ultrapassou expectativas. Não resolveu, só adiou o problema da investigação. E reduziu muito as chances de uma ofensiva por nulidades processuais, do tipo que fez a felicidade, principalmente monetária, de protagonistas de histórias de corrupção como as desveladas na Operação Lava-Jato.
O Supremo perdeu o controle da crise de confiança criada pelos próprios juízes no rastro das descobertas sobre a rede de contatos, alianças e estratégias de apoio em Brasília, nas capitais e principais colégios eleitorais de dezoito estados, que durante meia década protegeu a maquiagem no caixa das empresas do grupo Master.
O caso parecia bem mais simples quando começou, no ano passado. Flagrado em fraude bilionária, o banco privado parecia estar vinculado a uma rotina de estranhas transações de lavagem de dinheiro para máfias, tanto as do mundo político quanto as do universo do crime organizado. Não havia novidade nas investigações, até a perícia dos arquivos apreendidos.
Num único telefone do ex-banqueiro, por exemplo, encontrou-se acervo de mensagens (texto, áudio, fotografias e vídeos) sobre personalidades do governo, do Congresso e do Judiciário, numa resenha sobre dinheiro e sexo na República — “surubas com políticos e juízes”, nas palavras de Lula, que, agora, se diz preocupado com a repercussão da crise na reta final da campanha eleitoral.
“O Supremo perdeu o controle da crise na República rachada por dinheiro e sexo”
O sistema judicial vive “o momento mais corrupto da história”, disse Flávio Dino, autor do requerimento que obstruiu a decisão do STF sobre Alexandre de Moraes, o juiz dos inquéritos sobre a frustrada tentativa de golpe de Estado depois da eleição presidencial de 2022.
Ele está sob suspeita porque o antigo dono do Master contratou por 131 milhões de reais, o equivalente a 25,1 milhões de dólares, o escritório de advocacia da família Moraes. Segundo a polícia, antes de ser preso o ex-banqueiro Vorcaro pagou à banca dos Moraes ao menos cerca de 80 milhões de reais, ou 15,3 milhões de dólares.
É valor pouco superior ao que Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da República, confessou ter pedido ao ex-banqueiro Vorcaro, supostamente para a cinebiografia do seu pai. Em reuniões e mensagens reivindicou pagamento de 124 milhões de reais, equivalentes a 23,8 milhões de dólares. Recebeu 61 milhões de reais, ou 11,7 milhões de dólares.
São contratos com valores classificados como disparatados, anormais, raros, inusuais, insólitos, e toda a lista de qualificativos dicionarizados, nos mercados nacionais de serviços de advocacia e de produção cinematográfica.
É notável como a República rachou com dinheiro, charutos, bebidas e sexo patrocinado pelo ex-banqueiro Vorcaro e empresários associados. O desabamento da pirâmide financeira do Master provocou grande confusão institucional, envolvendo, entre outros, Coaf, Banco Central, Receita, Tribunal de Contas da União, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República, Congresso, STF e Palácio do Planalto.
Delegados federais se rebelaram contra o “Supremo Futebol Clube” — definição de Flávio Dino na reunião secreta do STF, em fevereiro, quando ficou acertada a concessão de imunidade ao juiz José Antonio Dias Toffoli, sócio num hotel da sua família vendido a um agente de negócios do Master por cerca de 35 milhões de reais, ou 6,7 milhões de dólares. Na época, Toffoli aceitou renunciar à relatoria da ação penal sobre o banco de Vorcaro. Seis meses depois, Gilmar Mendes foi ao gabinete de Lula no Planalto protestar contra a “espionagem” policial.
Tendo perdido o controle da crise que inflamaram, juízes do STF devem atravessar 2027 sob uma bruma de desconfiança e assistindo ao novo Congresso embalar uma reforma do Poder Judiciário. Será projetada para desidratar o Supremo e pode limitá-lo ao papel de tribunal constitucional.
Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA
Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013
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