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‘O mundo vai acabar’: eis a síndrome do pânico, quando o pavor vem de repente e some sem explicação

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
05/07/2026
no Saúde
Tempo de leitura:9 minutos de leitura
15
A A
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O jornalista Nando Gross, de 64 anos, lembra como se fosse hoje de sua primeira crise. Estava em casa, no começo dos anos 1990, quando resolveu ir ao banheiro. Quando se olhou no espelho, sentiu uma tontura intensa. Faltou-lhe o ar e seu coração disparou. Sem saber o que fazer, entrou no carro e dirigiu a esmo por Porto Alegre. Quando voltou para casa, sentou-se na calçada, sem saber o que era aquilo. A crise tinha passado; o desamparo, não.

“Sabe o que mais me impressiona? Não havia razão nenhuma para eu ter crise de pânico. Vivia uma fase boa da vida. Morava sozinho e, numa noite de sábado, estava em casa com dois amigos, assistindo à MTV”, relembra o autor do recém-lançado Crônicas de Um Radialista em Fuga: Memórias entre o Microfone, o Palco e o Pânico (Sulina). “O pior momento foi o início de tudo, quando você não sabe o que está acontecendo, não sabe para onde correr.”

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Gross passou a ter de três a quatro crises por dia, com dor no peito, falta de ar e coceira nas mãos. Cada uma delas durava, em média, cerca de 20 minutos. À época, procurou diferentes médicos. Nenhum deles soube explicar o que ele estava sentindo. Até uma emergência, por acreditar que estava sofrendo um infarto, Gross procurou. De nada adiantou. “A sensação é de que o mundo vai acabar de uma hora para outra”, descreve.

Grito de alerta

Se o transtorno de ansiedade fosse um semáforo, a síndrome do pânico seria o sinal vermelho. A metáfora é da psicóloga americana Nicole Cain, autora do livro Sem Pânico (Best Seller). Enquanto o sinal verde representa uma sensação de equilíbrio e o amarelo, um estado de alerta, o vermelho quer dizer crise de pânico. “Antes do vermelho, vem sempre o amarelo. Os sussurros do corpo não foram ouvidos. Então, se transformaram em gritos”, avisa Nicole.

Medo, fobia e pânico não são a mesma coisa. Medo é uma resposta imediata a um perigo real. Exemplo: assalto. “Sem medo, não haveria vida”, garante a psicóloga. Já a fobia é um medo desproporcional a uma ameaça específica. Exemplo: avião. Ela própria, por quase uma década, teve pavor de voar. Embora soubesse que é uma das maneiras mais seguras de viajar, sentia um calafrio lhe percorrer a espinha toda vez que precisava embarcar. “É o medo de ter medo”, diz. No ranking das fobias, o medo de voar ocupa o segundo lugar, perdendo apenas para o pavor de falar em público.

Mas, e o pânico, o que é? É o medo de morrer, ficar louco ou perder o controle elevado à enésima potência. “As crises são intensas, agudas e devastadoras”, define o psiquiatra Mário Eduardo Costa Pereira, autor de Pânico e Desamparo e Psicopatologia dos Ataques de Pânico (Escuta). “Em geral, surgem do nada, duram pouco tempo e desaparecem sem explicação. Por essa razão, muitas pessoas evitam sair de casa.” O pico, porém, não se transforma em platô.

Horas de desespero

Só quem já sentiu sabe o que é. Gross não foi o primeiro a transformar suas angústias em memórias. Em 2017, o jornalista Hiltor Mombach, de 73 anos, publicou o livro Quando o Corpo Grita (Sulina). A primeira crise aconteceu em 1991 e a pior delas, cujo ano não recorda, foi em Garibaldi, cidade da serra gaúcha a 110 quilômetros de Porto Alegre, durante uma visita aos pais. O episódio começou às 13h e só terminou às 19h.

“Quando tenho crise, costumo sair de casa do jeito que estou. Às vezes, de calção e descalço. Outras, no meio da chuva. Até permito que alguém me acompanhe desde que não me pergunte como estou. A pergunta só aumenta o desespero”, explica Mombach. “Certa vez, eu disse para o meu psiquiatra que queria tomar uma atitude definitiva. ‘Você não quer morrer’, ele explicou. ‘Só quer acabar com o sofrimento’. A crise pode durar minutos ou horas.”

No auge dos episódios, ele sente falta de ar. Se pensa em água, tem a nítida sensação de que está se afogando.

Quando tenho crise, costumo sair de casa do jeito que estou. Às vezes, de calção e descalço. Outras, no meio da chuva

Hiltor Mombach, jornalista

Mombach foi a dezenas de médicos. Exame do coração? Nem se lembra mais de quantos fez. Até que numa tarde, no mais completo desespero, confessou à mulher, Judith, que não queria continuar vivendo daquele jeito. “Acho que eu sei o que você tem”, ela disse. “Um psiquiatra precisou de um minuto para fazer o diagnóstico: síndrome do pânico.”

José Facundo de Oliveira é o nome do médico que atendeu Mombach. “O pânico é uma sensação de desamparo, uma angústia de morte, que nasce conosco”, explica. “O primeiro momento de pânico é o nascimento, quando somos separados de nossa mãe”. Para Facundo, o pânico se trata com terapia, exercício e medicação. “Ansiolíticos são como extintores de incêndio”, compara o psiquiatra. “Apagam as labaredas durante um ataque de pânico.”

A terapia mais indicada é a cognitivo-comportamental (TCC). “Enquanto os remédios reduzem a frequência e a intensidade das crises, a terapia simula situações que desencadeiam os ataques”, explica o psiquiatra Tito Paes de Barros Neto, autor do livro Sem Medo de Ter Medo (Objetiva). “Não se fala em cura da síndrome do pânico, e sim na melhora ou até mesmo na extinção dos sintomas. Esse transtorno tem uma evolução crônica.”

Luz no fim do túnel

Se há algo pior do que a crise de pânico é a falta de informação. E, na década de 1990, quando Gross e Mombach tiveram suas primeiras crises, ninguém falava de síndrome do pânico. Daí a demora até o diagnóstico. “Existem pessoas que conseguem minimizar os sintomas com técnicas de autocontrole. Nunca consegui”, admite Gross. “Só voltei a ter uma vida normal quando comecei o tratamento medicamentoso.”

São muitas as técnicas de autocontrole: de respiração abdominal a relaxamento muscular. “O paciente deve inspirar pelo nariz e soltar o ar pela boca”, aconselha Barros Neto. “A respiração abdominal pode reduzir a intensidade dos sintomas.”

“Água fria no rosto ou nos pulsos diminui a frequência cardíaca quase que imediatamente”, aconselha Nicole. “Uma expiração lenta, mais longa que a inspiração, sinaliza para o corpo que o perigo já passou.”

Por mais terrível que seja, toda crise tem começo, meio e fim. Quem explica é Mário Eduardo Costa Pereira. Em sua imensa maioria, elas são relativamente inofensivas. Não causam danos, nem deixam sequelas. “A não ser numa situação excepcional, ninguém morre de pânico”, tranquiliza o médico. “O paciente não deve entrar em luta contra o ataque. Ele vai desaparecer sozinho. Quanto mais a pessoa tenta impedir uma crise, mais ela se desespera.”

Convivência pacífica?

Mombach não acredita na cura do pânico. Mas garante que é possível conviver com a doença. Uma vez por semana, ele vai ao psiquiatra e, na hora da crise, recorre aos remédios. Aos poucos, seu médico identificou alguns gatilhos. Um deles: ficar longe da família. “Como jornalista, eu cobri várias Copas do Mundo e Jogos Olímpicos. Viajei por todos os continentes. Tive pânico apenas uma vez, em 1992, em Barcelona. Como se explica isso?”, indaga.

Não tem explicação. Como muitas coisas, aliás, na síndrome do pânico. Uma delas: de onde vêm as crises? Nascemos com elas ou aprendemos a tê-las? “Existe predisposição genética, mas ela não desempenha papel tão importante quanto imaginamos”, afirma o psicoterapeuta alemão Klaus Bernhardt, de Como Vencer o Pânico (Sextante). “Com mais frequência, aprendemos comportamentos ansiosos com nossos pais ou outros cuidadores”.

Quando você aprende a ter horror de algo de tanto que viu os outros falarem mal daquilo é ambiental. Por exemplo: uma pessoa tem medo de barata porque, na infância, via a mãe espernear toda vez que avistava uma. O pânico pode ser também traumático, quando a própria pessoa passa por uma experiência ruim, ou de origem genética, quando ela herda sua aversão dos pais ou avós. Segundo estudo inglês, 67% dos parentes próximos do fóbico têm a mesma aversão que ele.

Superada a fase mais aguda da doença, Gross também não descuida dos remédios. “Tomo até hoje, em doses menores”, enfatiza. Fora isso, procura evitar níveis excessivos de estresse, como bate-boca em casa ou arranca-rabo no trabalho. “A síndrome do pânico não é uma sentença. É uma doença que, a exemplo da hipertensão e do diabetes, pode ser tratada. E, com tratamento adequado, é perfeitamente possível voltar a viver, trabalhar e ser feliz.”

Glossário do arrepio

Medo e fobia não são sinônimos. Enquanto um é saudável, o outro requer tratamento:

  • Medo – Derivado do latim metus, é um sentimento que protege o ser humano de perigos. Pode ser dividido em racional, quando você sabe do que tem medo, e irracional, quando não faz ideia. Quando é irracional, chama-se fobia.
  • Fobia – Vem do grego phóbos e representa um medo desproporcional à ameaça. Há dois tipos: o específico, que agrupa fobias de animais, lugares ou situações, e o social, que impede o fóbico de fazer qualquer coisa em público.
  • Pânico – Relativo ao deus grego Pã. É a fobia elevada à enésima potência. O indivíduo sofre crises ou ataques repentinos e passageiros com sintomas físicos e mentais. Os mais comuns: coração acelerado, respiração ofegante e suor excessivo.
  • Ansiedade – De origem latina, a palavra anxietas pode ser traduzida como preocupação exagerada. Quem sofre de transtorno de ansiedade generalizada (TAG) vive a angústia de que algo ruim vai acontecer a qualquer momento.

Medo irracional

Há vários tipos. De bichos, lugares, situações. Falar em público também causa desconforto:

  • Animais – Os bichos mais temidos são: cães, cobras, aranhas, baratas e sapos. Mas há também pavor de gatos, cavalos e borboletas. Muitas vezes, a origem é traumática. O sujeito tem medo de cachorro porque já foi atacado por um.
  • Ambientais – Há pessoas que só passam mal em determinados lugares. Ou porque o local é muito alto (acrofobia), ou porque é muito aberto (agorafobia), ou porque é muito fechado (claustrofobia). Nesses casos, a esquiva não é solução.
  • Situacionais – Stephen King tem horror ao número 13 (triscaidecafobia), Johnny Depp, a palhaços (coulrofobia) e Hans Christian Andersen tinha medo de ser enterrado vivo (tafefobia). À noite, escrevia: “Não estou morto. Estou dormindo”.
  • Social – O transtorno de ansiedade social (TAS) pode ser descrito como o medo de falar em público. Mas há variações, como ir a festas, sair com amigos e paquerar alguém. Tímidos patológicos, em geral, são fóbicos sociais.

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