Sintomas como nariz entupido, espirros, tosse e garganta arranhando podem se tornar mais frequentes quando as temperaturas caem. Por isso, é comum surgir a sensação de que as pessoas adoecem mais por causa do frio.
Os números mostram que há, de fato, maior circulação de vírus respiratórios nos meses mais gelados do ano. No Boletim InfoGripe divulgado pela Fiocruz na semana anterior ao início do inverno, os casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) voltaram a crescer entre jovens, adultos e idosos. Dos quase 90 mil casos notificados em 2026 até então, quase metade teve resultado positivo para algum vírus respiratório.
Contudo, atribuir o aumento de gripes, resfriados e outras infecções respiratórias apenas à queda da temperatura simplifica um cenário mais complexo, já que o frio, de forma isolada, não causa essas condições.
Segundo a otorrinolaringologista Georgiana Hueb, do Hospital Sírio-Libanês, essa associação geralmente acontece porque essa época do ano reúne condições que favorecem a irritação e a inflamação das vias aéreas.
Dentre os fatores estão a redução da umidade do ar e a maior concentração de poluentes. “As pessoas tendem a passar mais tempo em ambientes fechados e menos ventilados, o que favorece a transmissão de vírus respiratórios”, acrescenta.
Essa combinação, seja dentro ou fora de casa, pode ajudar a explicar por que algumas pessoas sentem mais desconforto respiratório durante o inverno.
Efeito do ar seco na saúde
De acordo com dados do Qualar, sistema da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) que mede a qualidade do ar, a umidade diminuiu entre o inverno e a primavera de 2025 em diferentes regiões do Estado. O movimento apareceu tanto na capital quanto na Grande São Paulo e no interior, embora tenha sido mais intenso em cidades como Araraquara e São José do Rio Preto.
No mesmo período, diferentes estações que monitoram a qualidade do ar também registraram aumento das médias mensais de partículas inaláveis, que podem incluir poeira, fumaça, fuligem e outros materiais suspensos no ar. Por serem partículas pequenas, elas podem entrar pelas vias aéreas e irritar nariz, garganta e pulmões.
Georgiana explica que a mucosa nasal funciona como uma primeira barreira: ela ajuda a filtrar partículas, além de aquecer e umidificar o ar que entra no organismo. É por isso que, quando o ar está mais seco, podem surgir sintomas como ardor, obstrução nasal, formação de crostas e até pequenos sangramentos.
Além disso, a especialista destaca que o ressecamento pode prejudicar a eliminação de secreções, partículas e microrganismos. “Quando essa mucosa está ressecada ou inflamada, ela tende a reagir de forma mais intensa a estímulos que, em outras condições, talvez fossem melhor tolerados”, diz.
Já a pneumologista Aline Amouras, do Hospital Infantil Darcy Vargas, gerido pelo Einstein Hospital Israelita, explica que a combinação entre ar seco e poluentes pode causar a piora de sintomas em pessoas que já convivem com doenças respiratórias.
Quem tende a sentir mais?
Aline explica que esse cenário pode impactar sobretudo pessoas que têm asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Quem tem rinite alérgica também fica mais vulnerável. “É comum observar a intensificação de sintomas como congestão nasal, espirros e irritação das vias respiratórias”, diz a médica.
Esses sintomas também podem ser exacerbados por mudanças que ocorrem dentro de casa, já que em dias frios costumamos tirar do armário cobertores, tapetes, casacos e outras peças que tendem a concentrar poeira e ácaros. Além desses itens, Georgiana diz que mofo, fumaça e cheiros fortes são possíveis gatilhos.
Soma-se a isso o fato de que ambientes menos ventilados podem facilitar a transmissão de vírus respiratórios, como influenza e vírus sincicial respiratório (VSR). É por isso que o inverno pode coincidir tanto com crises alérgicas quanto com gripes e resfriados — problemas diferentes que, às vezes, começam com sintomas parecidos.
Os cuidados essenciais para evitar quadros respiratórios
Especialistas recomendam manter hidratação adequada, ventilar os ambientes sempre que possível, reduzir poeira e mofo dentro de casa e evitar fumaça e cheiros irritantes. A lavagem nasal com soro fisiológico também pode ajudar a aliviar o ressecamento e facilitar a eliminação de secreções em alguns casos.
Já para quem já tem rinite, asma ou outra doença respiratória, manter o tratamento prescrito é parte importante da prevenção. “A rinite mal controlada favorece a obstrução nasal persistente e pode aumentar a chance de piora dos sintomas ao longo do inverno”, destaca Georgiana.
Além disso, em dias de qualidade do ar moderada ou pior, crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas podem considerar reduzir atividades físicas intensas e prolongadas ao ar livre.
Agora, no caso de apresentar sintomas, como febre alta, falta de ar, chiado, dor facial intensa, inchaço ao redor dos olhos ou piora após uma melhora inicial, o recomendado é buscar uma avaliação profissional.
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