A Caixa Econômica Federal localizou em seus arquivos pelo menos 158 cadernetas de poupança abertas por escravizados no século XIX. As contas foram identificadas em um levantamento feito pelo banco após o início de investigação por parte do Ministério Público Federal (MPF), que cobra uma resposta da instituição sobre o destino do dinheiro depositado. A ação abre caminho para indenizações de herdeiros dos correntistas e mira na preservação do acervo. São 14 mil documentos sobre as movimentações financeiras, que podem esclarecer o que foi feito com as quantias. A papelada, com mais de 150 anos, não recebeu tratamento arquivístico até hoje, como denuncia o MPF.
A investigação foi instaurada após representação apresentada pela entidade Quilombo Raça e Classe, que reivindica o direito à memória durante o período escravista. As poupanças foram abertas oficialmente a partir de 1871, quando a Lei do Ventre Livre reconheceu o direito dos escravizados de formarem pecúlios para a liberdade.
Também há registros de poupanças criadas antes da data por terceiros para escravizados. O dinheiro guardado tinha como destino a compra de cartas de alforria. As contas tinham que ser abertas na Caixa, instituída pelo Império em 1861 para atender clientes de baixa renda.
Em 1877, segundo o Arquivo Nacional, a Caixa já mantinha agências nas províncias de Rio de Janeiro, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, São Paulo, São Pedro (atual Rio Grande Sul) e Santa Catarina. Acredita-se que parte das 158 contas é originária desses locais, hoje estados. A informação compõe o quebra-cabeças do destino das contas. No Rio, além da sede na capital, funcionavam unidades em Angra dos Reis, Barra Mansa, Macaé, Paraíba do Sul, Petrópolis, Resende, São Fidélis, Valença e Vassouras.
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