Hamad al Marar é o diretor geral e CEO do Grupo Edge, um gigante da indústria de armamentos com sede em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Criado em 2019, está presente em três dezenas de países onde adquiriu empresas como a estoniana Milrem Robotics, fabricante de drones terrestres presentes no teatro de operações da Ucrânia, e as brasileiras Siatt e Condor, com seus mísseis e munições.
Na semana passada, ele esteve novamente no Brasil, onde assinou memorando de cooperação com a Marinha para defesa cibernética, com o Exército para testar o fuzil Caracal, fabricado pelo grupo, e com o grupo Indra para a produção de radares na América Latina. Em entrevista ao Estadão, Al Marar contou como os Emirados Árabes enfrentaram os ataques do Irã durante o conflito no Golfo Pérsico e anunciou que o grupo passará a produzir, ainda neste ano, drones no Brasil.
De que forma o atual conflito no Oriente Médio está afetando o Grupo Edge e como sistemas desenvolvidos pelo grupo foram usados nesse conflito?
Para começar, penso que cada país tem o direito de estabelecer capacidades de Defesa. A Defesa começa por fronteiras protegidas por meio de sistemas inteligentes e de elevada otimização. O direito à Defesa em termos gerais significa ter inteligência para ter a capacidade de golpear forte se necessário. O Edge foi criado para consolidar velhas tecnologias de defesa e de comunicação, de guerra eletrônica e espacial e reuni-las em um único lugar, que nos dê olhos no céu e vigilância, bem como capacidades eficazes na guerra na terra, no céu e no mar. As Forças Armadas dos Emirados Árabes Unidos procuram a paz e, para tanto, mantêm-se fortes. De forma geopolítica, os Emirados Árabes nunca escolheram entre Leste ou Oeste. Trabalhamos com ambos. Isso nos deu conhecimento suficiente para desenvolver o que é adequado à nossa região: ter uma força multiplicadora e controle de nossas tecnologias críticas. Em termos de nossa prontidão, nós sempre estivemos preparados para o conflito. Sempre levamos à sério essa possibilidade para nós protegermos nossas casas, nossos cidadãos e nossos recursos. Nós sempre tivemos uma ideia de sermos uma fortaleza e isso nos deu a inspiração de criar a melhor defesa antiaérea em camadas no mundo. E, quando eu falo no mais avançado, quero dizer que ele combina o TAAD (Terminal High Altitude Area Defense, sistema americano de defesa antimísseis), o Sistema Patriot (para média e grandes alturas) e os sistemas locais, como o Pantsir-S1, russo (baixas alturas), para a defesa de estruturas críticas. Nós trabalhamos com uma redundância de equipamentos muito rigorosa.
De que forma o sistema antimíssil skynight, fabricado pelo Grupo Edge, participa desse sistema?
Skyknight é parte da defesa local, defesa de uma área, assim como o skyshield, que é uma solução escudo ou sistema de jamming (técnica de interferência em sinais de radiofrequência usados contra drones para abatê-los) antidrone e também canhões e spoofing (técnica cibernética para desviar drones de seus alvos). E todas são tecnologias do Emirados Árabes. Nós confiamos nas tecnologias dos outros países, mas nunca de um único país. A última camada de defesa são os Emirados. E assim conseguimos fazer mais de 2 mil interceptações de drones em 40 dias (de conflito no Golfo Pérsico entre Irã, EUA e Israel). E até onde sabemos, foi o maior número de interceptações nesse período e com o maior índice de sucesso.
Quando você tem um uma indústria testada no conflito, isso favorece negócios futuros com outros países. Dentro desse cenário, o Grupo Edge está sendo procurado por outros países para participar da modernização de sistemas antiaéreos e antidrones?
Nós não providenciamos só a segurança dos Emirados, mas também fomos capazes de defender o Qatar, o Bahrein e o Kuwait durante o conflito. Isso mostra a nossa capacidade de fornecer suprimentos e a grande capacidade e dedicação de nossos 19 mil funcionários.
O que dessa tecnologia pode ser trazido para as Forças Armadas da América do Sul e, especificamente, do Brasil?
Quando nós falamos em tecnologia, é muito importante compreender que a gente fornece soluções e não produtos. Como sabemos, não há uma solução única para diferentes países. A geografia e as diferentes ameaças têm um papel muito importante para encontrar soluções. Pelo que eu sei, o Brasil tem mais ameaças da imigração e pesca ilegais e do tráfico de drogas, a luta contra o crime e a luta contra o terrorismo e, não tanto em relação aos armamentos, mas também a Marinha precisa aumentar a sua força. Nos Emirados nós não temos um oceano, mas um golfo, nós não temos Amazônia, mas um deserto. Em relação ao Brasil, será um desafio aumentar a nossa capacidade de proteger para as sua enorme fronteira e a Amazônia. Queremos fazer isso com o Brasil. Somos fortemente favoráveis a parcerias e isso é evidente aqui com a Siatt e com a Condor. E mais está para vir.
Seria possível uma parceria com a Avibrás?
Não. Nós tentamos, mas o casamento não deu certo. Nós namoramos, mas não deu certo. Eu queria falar mais um pouco sobre a Siatt. Ela tem um programa, o Mansup, um míssil antinavio que estava sendo desenvolvido pela Marinha do Brasil, que estava dois, três anos mais avançado do que nós. E nós queríamos uma modelo de míssil antinavio e, em vez de competir, nós decidimos unir esforços. E, assim, dois usuários vão operá-lo: a Marinha do Brasil e a marinha dos Emirados. Isso fez esses pedidos aumentaram e, obviamente, é mais vantajoso economicamente produzir para dois países em vez de um. O Grupo Edge também constrói navios, o que torna mais fácil integrar e fornecer o Mansup a diferentes tipos de navios. Essa parceria veio bem a calhar.
Além do Brasil e dos Emirados e do Mansup embarcado também existe a possibilidade de o míssil ser empregado como artilharia de costa. Já existem clientes potenciais para essa modalidade?
Mansup faz parte de todas as operações da Marinha e, claro, nós podemos colocá-lo em veículos lançadores blindados. E também estamos fazendo isso com o míssil Max 1.2 AC (míssil anticarro desenvolvido pela Siatt).
Em relação ao Max, há pedidos feitos fora do Brasil?
Vamos começar a divulgar o Max. Estamos trabalhando nisso.
O Grupo Edge também trabalha com drones terrestres por meio da Milrem, na Estônia. Queria saber se há algum contato de vocês com as Forças brasileiras sobre o fornecimento desse tipo de sistema, importante e decisivo na Ucrânia?
Sim, nós temos. Do meu ponto de vista, as geografias são diferentes. É claro que todas as plataformas produzidas pelo Edge estão disponíveis e podem ser usadas pelas Forças Armadas brasileiras. Mas o ideal seria customizá-las para o território brasileiro. Vocês tem montanhas, vocês têm florestas, o que criam desafios para a comunicação e para o comando. Seria preciso um conceito específico para operar no Brasil. Eu tenho visto alguns locais, algumas cidades em que algumas das aplicações que temos são viáveis, mas precisaríamos nos dedicar para desenvolver soluções melhores. Como nós temos nos Emirados um exército pequeno, usamos a tecnologia como um multiplicador da força por meio de veículos não tripulados.
No caso do Brasil, além das fronteiras terrestres, o País tem 5,7 milhões de km² de águas jurisdicionais. A Edge fechou um MoU com a Marinha nesta semana para defesa cibernética. O que se pode esperar dessa cooperação?
Nós temos UAVs (sigla de Unmanned Aircraft System ou sistema de aeronave não tripulada), nós temos drones terrestres e drones marítimos. Em relação à Marinha, podemos ter barcos de patrulha tripulados e não tripulados. Temos tecnologia para tornar qualquer barco em não tripulado, obedecendo as lei e as regulações do mar. Esses drones são ideais para a segurança aquática. Temos uma grande variedade de drones para reconhecimento e drones armados. Nós estamos nos preparando para produzir esse drones no Brasil tanto com contrato assinado, sob encomenda, bem como sem contrato. Nós acreditamos fortemente que as Forças Armadas brasileiras têm interesse em nossos drones e também sabemos que não é necessário um grande investimento para produzi-los no Brasil. A indústria brasileira está pronta para dar um salto e confiar em si em relação a drones e seus componentes eletrônicos, como sensores, câmeras e radares. E, para essa produção, o Brasil não precisa de nenhuma permissão em relação a licenças internacionais, dos Estados Unidos ou de qualquer outro país. Todo mundo tem o direito de se proteger incondicionalmente. Esse foi o argumento que levou à criação do Edge. O Brasil é um aliado estratégico para nós, especialmente na área industrial, na engenharia e na produção em série. Daqui queremos fornecer para a América Latina e exportar. E o Brasil precisa de muitos drones. E, claro, nós queremos melhorá-los e modernizá-los.
Quando a produção começa no Brasil?
Antes do final deste ano. Até setembro nós esperamos já estar produzindo no Brasil. Não há razão para a gente não fazer isso.
Qual é o tamanho do investimento para se começar a produzir no Brasil?
Vou responder de um outro ponto de visto. Nós vamos investir em lacunas. Mas eu duvido que um país como Brasil, que produz aviões de passageiros, não tenha capacidade para fazer isso. Nós já investimos na Siatt. Eu prefiro pensar em investidores privados, em empresas produzindo para a gente em parceria. A montagem seria feita pela Siatt, algumas partes podem ser feitas pela indústria brasileira. Acreditamos que seria mais saudável que a indústria brasileira se beneficiasse, que as empresas brasileiras já estabelecidas sejam parte da cadeia de suprimentos para o Brasil e para os Emirados. O que eu gostaria de dizer é que os Emirados tem em seu DNA a ideia de não vir aqui apenas para ganhar, explorar. Queremos avançar juntos e não à custa dos outros. Nós estamos compromissados com a indústria brasileira e, acima de tudo, acreditamos fortemente nos talentos de engenharia que vocês têm e gostaríamos de tirar proveito dos brilhantes cérebros brasileiros, fornecendo oportunidades a eles de servir internacionalmente. No Brasil não falta nada. Escolhemos o parceiro certo.
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