O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou na terça-feira que o Papa Leão XIV deveria “ser cuidadoso” ao falar sobre teologia, ao rebater críticas do Pontífice à política externa americana e à guerra com o Irã. Católico e convertido à fé na vida adulta, Vance disse que o líder da Igreja errou ao afirmar que discípulos de Cristo “nunca estão do lado daqueles que antes empunhavam a espada e hoje lançam bombas”, argumentando que essa visão ignora conflitos como a Segunda Guerra Mundial.
— Deus estava do lado dos americanos que libertaram a França dos nazistas? Deus estava do lado dos americanos que libertaram campos do Holocausto e aquelas pessoas inocentes que sobreviveram? Eu certamente acho que a resposta é sim — afirmou, acrescentando que a história mostra que a força militar pode ser utilizada em defesa de princípios morais, a despeito do que foi dito pelo Pontífice.
Vance declarou que aprecia quando o Papa se manifesta sobre temas como aborto, imigração e “questões de guerra e paz”, mas disse que nem sempre concorda com a aplicação dos princípios religiosos nesses debates. O vice-presidente acrescentou que divergências sobre a legitimidade de conflitos são possíveis, mas exigem cautela:
— Da mesma forma que é importante para o vice-presidente dos Estados Unidos ser cuidadoso quando falo sobre política pública, acho muito importante que o Papa seja cuidadoso quando fala sobre questões de teologia — disse, sugerindo equivalência entre a responsabilidade institucional de líderes religiosos e governamentais.
Ele também disse que comentários sobre religião precisam estar “ancorados na verdade” e afirmou esperar esse padrão do clero, “sejam católicos ou protestantes”. Apesar da crítica, o vice-presidente adotou um tom conciliador em parte da fala, dizendo ter respeito pelo Pontífice e não se incomodar com manifestações sobre temas atuais, mesmo quando discorda “de como ele aplica um princípio específico”.
A declaração ocorre em meio a uma escalada de tensões entre o Vaticano e o governo do presidente Donald Trump nos últimos dias. Leão XIV tem criticado de forma direta a guerra envolvendo EUA, Israel e Irã e reiterado apelos por paz. Em entrevista recente, o Pontífice afirmou não ter “nenhum medo do governo Trump” e prometeu continuar a se manifestar com base na mensagem do Evangelho. Ele também disse que ataques à infraestrutura civil violam o direito internacional e pediu que líderes políticos atuem para encerrar o conflito.
Trump reagiu com críticas públicas ao líder da Igreja Católica. Em declarações a jornalistas e em publicações nas redes sociais, o presidente chamou Leão de “fraco” contra o crime e “terrível para a política externa”. O republicano disse ainda que não é “um grande fã” do Papa e afirmou que sua eleição foi uma surpresa. Em outra declaração, sugeriu que o Pontífice deveria ser “grato”, argumentando que sua escolha teria relação com o fato de ser americano.
“Ele não estava em nenhuma lista para ser Papa e só foi colocado lá pela Igreja porque era americano, e acharam que essa seria a melhor forma de lidar com o presidente Donald J. Trump. Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano”, escreveu Trump nas redes.
O Pontífice respondeu às críticas durante viagem à Argélia, afirmando que a Igreja não atua com a mesma lógica da política externa e reiterou que sua posição está fundamentada no Evangelho. Ao chegar ao país africano, Leão voltou a condenar a multiplicação de conflitos e afirmou que o mundo não pode acrescentar “ressentimento sobre ressentimento”.
Em meio às críticas, Trump publicou, na segunda-feira, uma imagem gerada por inteligência artificial que o retratava como uma figura semelhante a Cristo, vestindo túnica e impondo as mãos sobre um homem acamado. A publicação provocou reação negativa de apoiadores cristãos, incluindo evangélicos conservadores que acusaram o presidente de blasfêmia. Alguns aliados chegaram a pedir que a imagem fosse retirada e classificaram a postagem como inadequada.
Diante da controvérsia, Trump removeu a publicação e afirmou que pretendia retratar-se como um médico “melhorando as pessoas”.
O Papa Leão XIV na Turquia
As críticas de Trump ao Papa, no entanto, também provocaram reações dentro da comunidade católica americana. Líderes religiosos defenderam Leão e classificaram os ataques como inapropriados, ao mesmo tempo em que analistas apontaram que o confronto cria um dilema para integrantes católicos do governo, como o próprio Vance, que tem buscado apoio da base religiosa conservadora e representou os Estados Unidos na missa inaugural do Pontífice.
Enquanto isso, o Papa seguiu sua agenda internacional. Leão XIV chegou nesta quarta-feira ao Camarões para uma visita de três dias, segunda escala de sua viagem pela África. O Pontífice aterrissou em Yaoundé vindo da Argélia, onde sua passagem foi marcada tanto por um duplo atentado suicida ocorrido nas proximidades de Argel quanto pelas críticas públicas do presidente americano.
Na capital camaronesa, o Papa tem previsto encontro com o presidente Paul Biya, de 93 anos, além de um discurso para autoridades e representantes do corpo diplomático. Milhares de fiéis se reuniram sob forte calor para recebê-lo no aeroporto, com cantos e instrumentos de percussão. Alguns participantes expressaram a esperança de que a visita contribua para o fim da violência no país.
Na quinta-feira, Leão deve viajar para Bamenda, no noroeste do Camarões, epicentro de uma insurgência separatista na região anglófona. O Pontífice pretende rezar pela paz diante de milhares de fiéis. O conflito, que opõe forças governamentais a grupos que proclamaram a chamada “República da Ambazônia”, deixou milhares de mortos e centenas de milhares de deslocados desde 2017.
Separatistas anunciaram uma trégua de três dias para coincidir com a visita papal à região. Líderes religiosos locais afirmaram esperar que a presença do Pontífice contribua para reduzir a violência e incentivar negociações. A Igreja Católica desempenha papel de mediação no país e mantém rede de hospitais, escolas e obras beneficentes.
Durante a visita, o Papa também deve se reunir com bispos locais, visitar um orfanato católico e celebrar uma missa em Bamenda. O encerramento da passagem pelo Camarões está previsto para sexta-feira, em Duala, onde será celebrada outra missa em um estádio com capacidade para milhares de pessoas. A viagem pela África inclui ainda etapas em Angola e Guiné Equatorial. (Com AFP e New York Times)
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