Apache na casa de Kid Rock
Tripulações de helicópteros Apache (UH-64) deixaram sua base em Fort Campbell e sobrevoaram a mansão do cantor Kid Rock, em Nashville (TN). Crédito: Kid Rock / @KidRock / X
Duas tripulações de helicópteros Apache (UH-64) deixaram sua base em Fort Campbell e sobrevoaram a mansão do cantor Kid Rock, em Nashville, no Tennesee, conhecido por apoiar o presidente Donald Trump. O astro filmou a cena dos militares ao lado de sua piscina e de uma réplica da estátua da liberdade. O rapper aplaude os militares, presta-lhes continência e acena aos visitantes antes de postar o filme com um texto criticando o governador da Califórnia, o democrata Gavin Newson.

O secretário Pete Hegseth publicou em rede social o anúncio de que as tripulações dos Apaches que saudaram Kid Rock não seriam punidas Foto: Reprodução / Kid Rock / X
Newson é o possível candidato democrata à eleição presidencial de 2028. A postura dos militares da Aviação de Combate fez o chefe do Estado-Maior do Exército dos EUA, general Randy George, determinar a abertura de um procedimento disciplinar para punir as tripulações envolvidas não só no uso indevido de seus aparelhos, bem como em uma manifestação de cunho político-partidário.
O mesmo princípio levou o Exército brasileiro a abrir a investigação contra o general Eduardo Pazuello, por ter comparecido a um comício de Jair Bolsonaro no Rio, subido no palanque e discursado, enquanto ainda era general da ativa, em maio de 2021.
No Brasil, o comandante do Exército, Paulo Sérgio de Oliveira, arquivou o caso Pazuello sem punir o general. Temia uma nova crise na Força terrestre, como aquela que levou o presidente Bolsonaro a demitir, meses antes, o general Edson Pujol. É possível que Paulo Sérgio tivesse sido demitido por Bolsonaro se ele tivesse punido Pazuello com base no regulamento disciplinar do Exército. Demitido, Paulo Sérgio não teria sido envolvido na trama golpista e hoje estaria fora do cárcere ao qual o Supremo Tribunal Federal (STF) o condenou.
Nos EUA, George decidiu punir as duas tripulações que desfilaram com seus helicópteros diante da casa de Kid Rock no dia 28 de março. Três dias depois, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, foi à rede social X publicar que “não haveria punição”, “nem investigação”. “Continuem assim, patriotas”, escreveu o Dumb McNamara, como o trumpista Hegseth, defensor da guerra contra o Irã, é chamado por seus auxiliares no Pentágono, em referência ao secretário de Defesa, Robert McNamara, que levou os EUA à Guerra do Vietnã.

Em maio de 2021, Pazuello participou de ato com Bolsonaro no Rio. Foto: Wilton Junior/Estadão
A coluna ouviu oficiais superiores e generais das três Forças após o anúncio feito por Hegseth de que demitiria o general Randy George. A reação não podia ser pior entre os brasileiros. Preocupados com as ameaças à soberania do Brasil que partiram de Hegseth e de seus auxiliares, como Stephen Miller, e, em menor grau, Francis L. Donovan, novo chefe do U.S. Southern Command, o Comando Sul dos EUA, eles veem com cada vez mais preocupação o estado das relações entre civis e militares em Washington.
Em tempo de paz, segundo um dos oficiais ouvidos, ainda “dá para engolir os absurdos” da atual gestão dos EUA. Mas, se o cenário de uma intervenção terrestre no Irã para a reabertura do Estreito de Ormuz ou para a neutralização da reserva de urânio enriquecido do País se confirmar, o problema para os militares americanos seria como receber ordens desse tipo de político. Hegseth está sendo acusado pela oposição democrata de tentar fazer investimentos milionários em fundos de defesa antes de propor o aumento do orçamento militar dos EUA.
Para um oficial general ouvido pela coluna, o secretário da Guerra parece alguém que, sem medir as consequências políticas-estratégicas, leva os EUA a uma guerra cada dia mais imprevisível, apenas para reafirmar o “quem manda sou eu”. Pior, toda vez que se atenta contra a hierarquia e disciplina, em Forças Armadas, o que se pretende é “destruir os pilares da democracia e implantar tiranias”. E isso vale tanto à esquerda quanto à direita.
Foi o que julgava ser o compromisso com a legalidade que explicou as posições de um general como Pery Bevilaqua. Em 1955, ele participou da dezembrada com o marechal Teixeira Lott. Em 1961, estava com Machado Lopes na defesa da legalidade. Assim como em 1964, após o levante dos sargentos e a rebelião dos marujos, como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas ele apoiou a deposição de João Goulart, para, em 1968, ser cassado, como ministro do Superior Tribunal Militar (STM) pelo AI-5.

O ministro da Guerra, Costa e Silva, comparece ao STM sorrindo, e cumprimenta o general Pery Bevilaqua, que seria cassado após o AI-5 Foto: Estadão / Arquivo pessoal Pery Bevilaqua
Legalidade, hierarquia e disciplina. Além desses princípios, os militares ouvidos analisam ser possível que Randy George tenha sido defenestrado por Hegseth porque se oporia a uma ação terrestre no Irã. Os militares olham para as eleições de meio do mandato como um fator importante para controlar Trump e seu secretário, antes que consigam a adesão de oportunistas e outros personagens em busca de verbas ou interessados apenas em conservar seus cargos e privilégios, como a ditadora chavista Delcy Rodríguez.
O sucesso do resgate dos pilotos do F-15 abatido sobre o Irã não muda em nada o diagnóstico feito pelos militares brasileiros. Em nenhum momento, eles questionaram a capacidade operacional e o poderio bélico das forças americanas. Nunca se tratou disso. Pelo contrário. Mas ninguém quer ser tratado como caseiro dos EUA ou mero zelador de “seu quintal”. Muito menos admitir ações militares americanas em nosso território ou que possam determinar as relações exteriores do Brasil. Dito de outra forma: se vamos comprar caças da Lockheed ou construí-los com a parceria entre a Saab e a Embraer.
É por isso que as Forças apresentaram a Luiz Inácio Lula da Silva um plano de R$ 800 bilhões para investimentos na Defesa do País até 2040. Já se disse que é preciso ampliar os gastos da Defesa, ao mesmo tempo que isso não signifique apenas desperdício. A verdade é que sem um reequipamento urgente, os americanos poderão fazer o que e quando quiserem no Brasil e em Brasília. E não será nem mesmo preciso uma força como a que ataca o Irã. Eles entrarão de qualquer jeito. Até de Uber. O que pode mudar é o preço a ser pago. E isso fará toda diferença.
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