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Uso militar de IA transforma big techs em alvo de guerra

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
05/04/2026
no Tecnologia
Tempo de leitura:10 minutos de leitura
16
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Em retaliação contra a guerra em curso com os EUA e Israel, o Irã respondeu com uma nova forma de contra-ataque. Pela primeira vez na história militar, data centers do setor privado foram alvo de ataques deliberados.

Na era em que empresas conhecidas pelo e-commerce, pelas redes sociais e pelos mecanismos de busca também passaram a agir em estreita colaboração com os militares, é jogo limpo bombardear seus servidores?

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Três dias depois que os EUA e Israel começaram o bombardeio conjunto, a Guarda Revolucionária Islâmica lançou ataques de drones kamikazes contra os data centers da Amazon nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein, que fornecem uma série de serviços de computação em nuvem para clientes de todo o Oriente Médio. Os impactos e incêndios subsequentes “causaram danos estruturais, interromperam o fornecimento de energia à nossa infraestrutura, e em alguns casos exigiram atividades de combate a incêndios que resultaram em danos adicionais causados pela água”, segundo a Amazon, o que resultou em interrupções do serviço em toda a região.


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O motivo por trás do ataque, segundo a emissora de televisão estatal iraniana, não era impedir que as pessoas fizessem compras ou postassem nas redes sociais, e sim, destacar “o papel desses data centers no apoio às atividades militares e de inteligência dos inimigos”. Embora apenas os data centers da Amazon tenham sido atacados, até onde se sabe, um tweet de 11 de março da Agência de Notícias Tasnim, semioficial, listava dezenas de unidades regionais, incluindo data centers de propriedade da Microsoft, do Google e de outras empresas, consideradas “Infraestrutura Tecnológica Inimiga”, passível de ataques.

Não está claro se os data centers da Amazon atingidos por drones são usados para fins militares, civis, ou ambos. Também não se sabe se os ataques impediram de alguma forma os militares dos EUA, de Israel ou de seus aliados no Golfo de usarem IA ou outros serviços de nuvem em seus esforços de guerra. Mas considerando que Amazon, Google, e até a empresa controladora do Facebook, a Meta, são todos parceiros entusiasmados do Pentágono, que aumentam o poder destrutivo dos EUA não apenas no Irã, as fazendas de servidores agora podem ter o mesmo status que as fábricas que constroem bombas e aviões de guerra.

Estudiosos do direito internacional e das leis do conflito armado dizem que, quando as operações militares acontecem na nuvem, a nuvem se torna um alvo militar legítimo. A nuvem, porém, é uma abstração, não um local físico: uma rede internacional de milhões de chips em servidores espalhados por centenas de prédios enormes em todo o planeta, atendendo tanto aos aplicativos civis quanto às ferramentas estatais usadas para vigiar e matar. Separar uma função da outra é extremamente difícil.

“A legalidade gira em torno de saber se um local específico, em um momento determinado, está realmente atendendo às operações militares de uma das partes do conflito, de uma forma que represente vantagem concreta e definitiva para o agressor”, explica León Castellanos-Jankiewicz, advogado do Instituto Asser de Direito Internacional e Europeu, em Haia.

Às vezes, a separação entre usos civis e militares é objetiva. A Microsoft, por exemplo, ajuda a administrar os Recursos Bélicos Integrados de Nuvem, que, segundo o Pentágono, oferecem “maior letalidade”. Essa atividade envolve o processamento de dados sigilosos, que o governo não quer misturar com tecnologia civil. Os serviços de computação em nuvem geralmente são oferecidos em “regiões” geograficamente distintas, constituídas por vários data centers físicos. Os clientes normalmente escolhem a região mais próxima para reduzir o tempo de latência. As regiões “US DoD Central” e “US DoD Leste” da Microsoft são “reservadas para uso exclusivo [do Departamento de Defesa, DoD]”, segundo a empresa, e são atendidas por data centers na cidade de Des Moines, Iowa e na região Norte do estado da Virgínia.

A Amazon oferece regiões de nuvem semelhantes, exclusivas para uso do Pentágono, embora a localização desses data centers não seja divulgada. A Oracle, outra fornecedora dos mesmos serviços, opera instalações específicas do Pentágono nas cidades de Chicago, Phoenix, e no estado da Virgínia. As empresas, compreensivelmente, mantêm silêncio sobre a exata localização dessas instalações no mapa, em grande parte porque o Irã, ou qualquer país em guerra com os EUA, teria motivos para atacá-las.

“Um data center usado exclusiva ou principalmente para fins militares pode ser alvo”, explica Ioannis Kalpouzos, estudioso de direito internacional e professor visitante na faculdade de direito de Harvard, “e um data center que apoia o programa de recursos bélicos em nuvem do Pentágono se enquadra nessa categoria”.

A onda de construção de data centers se tornou motivo de discórdia nos Estados Unidos e no mundo, e as comunidades frequentemente – e algumas vezes, com sucesso – se unem para tentar impedir o que consideram monstruosidades consumidoras de recursos. Mas para aqueles que vivem à sombra cada vez mais extensa dos data centers, planejados ou construídos, seu status como alvos militares pode ser preocupante, para além das questões de consumo de água e energia.

E à medida que o secretário de Defesa, Pete Hegseth, impõe agressivamente o uso militar das ferramentas de IA em todos os lugares possíveis, a rápida expansão dos data centers representa uma potencial proliferação de alvos militares legítimos em todo o território dos Estados Unidos.

As comparações entre o poder destrutivo da guerra ampliada por IA e das armas nucleares estão se tornando cada vez mais comuns, e com isso, a rede cada vez mais extensa de data centers estadunidenses pode recriar a ansiedade da Guerra Fria em torno da instalação de silos de mísseis balísticos intercontinentais. Os recursos de lançamento militar do país estavam notoriamente agrupados na região relativamente pouco povoada do Centro-Oeste dos EUA, formando a chamada “esponja nuclear“, que atrairia os ataques nucleares soviéticos para longe dos centros populacionais, mais perto de regiões rurais e terras agrícolas.

Mas o cálculo jurídico em relação à maioria dos data centers não será tão claro. o Google, por exemplo, diz que o Pentágono usa tanto sua nuvem pública de uso geral, quanto redes menores especializadas, com intervalos de ar, que não passam pela internet pública, a depender do sigilo dos dados envolvidos. Até mesmo atividades em nuvem que envolvem dados militares super secretos “podem operar no interior dos data centers confiáveis, seguros e gerenciados pelo Google”. A empresa também vende data centers modulares em miniatura, para serem usados mais perto de campos de batalha ou bases militares.

Esses arranjos, envoltos em sigilo militar e comercial, dificultam avaliar se um servidor está hospedando o dever de casa de um estudante, ou a pesquisa e desenvolvimento da Força Aérea, o que complica a análise da legalidade de atacar data centers que podem hospedar as duas coisas. O Google talvez tenha pouco controle sobre a forma como os governos usam suas ferramentas de nuvem; o Intercept já havia mostrado que os executivos da empresa receavam, internamente, não conseguirem determinar como os militares israelenses estariam implantando seus serviços de nuvem.

“O desafio prático é que a infraestrutura de nuvem costuma ser tecnicamente opaca, até mesmo para os próprios provedores”, explica Castellanos-Jankiewicz. “Os serviços que um determinado data center suporta podem não ser imediatamente determináveis de fora, ou até de dentro, o que complica consideravelmente as obrigações jurídicas do agressor.”

O Projeto Nimbus, da Amazon e do Google, também fornece serviços de computação em nuvem para o governo de Israel, incluindo órgãos civis e o Ministério da Defesa, além de empresas estatais de produção de armas.

“O quadro se torna mais complexo juridicamente quando um data center funciona como um objeto chamado de ‘duplo uso’”, hospedando simultaneamente dados ou recursos militares e serviços civis”, disse Castellanos-Jankiewicz ao Intercept. “Quando se descobre que uma unidade contribui efetivamente para as operações militares, o objeto físico inteiro pode, pela perspectiva jurídica predominante, ser qualificado como objetivo militar.”

A adoção da computação em nuvem comercial pelos EUA e outros países confundiu ainda mais um quadro jurídico já complicado, explica Castellanos-Jankiewicz. “A decisão militar de armazenar dados sigilosos ou executar sistemas militares com uso de IA em infraestrutura comercial de nuvem, compartilhada com serviços civis, poderia, por si só, despertar preocupações jurídicas – especialmente se a confusão entre usos civis e militares pode tornar mais provável um ataque, ou aumentar a possibilidade de dano aos civis quando algo acontecer.”

Determinar se um data center específico pode ser atacado de forma legítima de acordo com o direito internacional humanitário – constituído por vários tratados de que nem todos os países são signatários – depende de uma complexa lista de critérios que raramente oferece respostas concretas. Para começar, presume-se de forma geral, nesse enquadramento jurídico, que todos os objetos e pessoas sejam civis, e por isso, estejam protegidos de ataques. Antes de lançar um ataque, um país deve ter motivos passíveis de comprovação para acreditar que um data center contribui para o esforço de guerra inimigo, e motivos para acreditar que um ataque pode prejudicar sensivelmente esse esforço. Obviamente, definir o que “efetivamente contribui para a ação militar” será motivo de discórdia.

O grande modelo de linguagem (LLM) Claude, da Anthropic, teria sido usado para acelerar os ataques aéreos dos EUA contra o Irã; o Claude, por sua vez, foi criado em parte com uso de 500 mil chips alojados em um data center da Amazon, de 11 bilhões de dólares (56 bilhões de reais), no estado de Indiana. Se o Claude agora é supostamente uma arma, seria esse local em Indiana o equivalente em dados a uma fábrica de bombas? Kalpouzos, o professor visitante de Harvard, disse ao Intercept que isso depende dos fatos no momento em que a bomba atinge o local, não dos usos passados. “Se as instalações estão sendo usadas atualmente para treinar o LLM usado na realização de operações militares – por exemplo, aprimorando a classificação de objetos ou recursos de interação do usuário – isso pode transformá-lo em alvo”, explica.

Em um artigo recente publicado na revista Just Security, Klaudia Klonowska e Michael Schmitt afirmam que o direito exige proporcionalidade e cautela mesmo contra alvos militares. Um ataque contra um data center que fornece computação civil e militar precisa ter precisão suficiente para destruir este e minimizar os danos àquele, defendem os autores. Mas o direito internacional pode exigir um grau de cuidado que interessa pouco aos militares. “Se fosse possível atacar apenas a área do data center onde estão localizados os servidores que hospedam dados militares, sem destruir o data center inteiro, o agressor precisaria fazê-lo”, escrevem.

Esses requisitos podem ser difíceis de cumprir na prática. Tanto os EUA quanto Israel se vangloriam da extrema precisão de seus ataques aéreos que frequentemente massacram civis. E, para começo de conversa, nenhum dos dois países, nem o Irã, é signatário de alguns dos marcos legais relevantes que compõe as chamadas “leis do conflito armado”.

A prática indiscriminada de guerra pelos EUA e por Israel também tem sido usada, ironicamente, para repensar a forma como essas normas são interpretadas, e, na prática, suavizadas. Ao longo do genocídio israelense em Gaza, os militares de Israel e o Pentágono deixaram claro que é aceitável destruir um prédio de apartamentos ou um hospital caso se alegue antes de que no interior está um verdadeiro alvo militar.

O segundo governo Trump, em especial, tem se empenhado em aprofundar a integração do Vale do Silício ao aparato de matança dos EUA em todo o mundo, um plano ao qual o setor se mostrou amplamente receptivo. Mesmo tendo sido intensamente difamado pelo governo após o colapso de seu contrato com o Pentágono em razão de supostas divergências sobre controles de segurança, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, emitiu um comunicado público esclarecendo que ainda tem interesse em participar do orçamento militar: “a Anthropic tem muito mais em comum com o Departamento da Guerra do que temos divergências. Ambora estamos comprometidos com a promoção da segurança nacional dos EUA e a defesa do povo estadunidense, e concordamos com a urgência de aplicar a IA em todo o governo.” Essa postura, que se tornou comum no setor de tecnologia, permitirá ainda mais confusão entre as tecnologias de consumo e de guerra, tanto em abstrato, quanto sob o enorme teto dos data centers espalhados pelo mundo.

“Esses [data centers] estão fundindo ainda mais a infraestrutura militar e civil”, diz Kalpouzos, “e em conjunto com as regras de engajamento cada vez mais permissivas adotadas pelos EUA e por Israel, podem fazer com que setores cada vez maiores da economia e da sociedade sejam atacados e destruídos.”

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