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O surpreendente desenvolvimento econômico da África, que depende cada vez menos de ajuda estrangeira

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
22/03/2026
no Economia
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O surpreendente desenvolvimento econômico da África, que depende cada vez menos de ajuda estrangeira
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A decisão do presdiente Donald Trump de fechar, no ano passado, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) representou um golpe duro para muitos países.

A medida praticamente encerrou a ajuda externa e nos programas cooperação internacional mantidos por Washington.

Com mais de US$ 80 bilhões (R$ 425 bilhões, na cotação atual) destinados em 2024, os Estados Unidos eram principal financiador de projetos voltados ao combate à fome, à pobreza e doenças em todo o mundo.

Ativistas e organizações internacionais previram que a mudança seria catastrófica, especialmente para a África.

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Em um relatório publicado em 2025 na revista científica The Lancet, um grupo de 15 especialistas alertou que os cortes poderiam levar a 14 milhões de mortes prematuras no continente até 2030.

E embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) e outros grupos humanitários tenham confirmado que, no último ano, alguns países registraram aumento no número de mortes em decorrência do fim de programas humanitários, a África como um todo não entrou em crise.

Pelo contrário: o continente registrou crescimento econômico em 2025 — e deve continuar a crescer em 2026.

“Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), 11 das 15 economias com crescimento mais rápido no mundo em 2026 estarão na África, o que faz dela a região que mais cresce globalmente”, afirmou Landry Signé, copresidente do Grupo de Ação Regional para a África do Fórum Econômico Mundial, que vem estudando o desempenho das economias africanas após o impacto das medidas adotadas pelo presidente Donald Trump.

“Muitos países africanos demonstraram uma resiliência que alguns poderiam considerar surpreendente”, acrescentou o especialista em economia global e desenvolvimento.

Mas, como isso foi possível? O que os países africanos fizeram para enfrentar esse cenário adverso?

Essas e outras perguntas foram respondidas por Signé, professor da Universidade do Arizona e pesquisador da Iniciativa para o Crescimento da África do Brookings Institution, em entrevista à BBC Mundo — serviço em espanhol da BBC.

Confira alguns trechos da entrevista.

BBC News Mundo – Acreditava-se que a decisão de Trump e de países europeus, como o Reino Unido, de cortar a ajuda para o desenvolvimento desencadearia uma catástrofe na África. Mas, em um estudo recente publicado na revista Foreign Affairs, você afirma que aconteceu exatamente o contrário. Esses resultados te surpreendem?

Landry Signé – Tendo acompanhado de perto as forças únicas e diversas da África, não me surpreendeu constatar que muitos países demonstraram uma notável capacidade de adaptação e resposta diante das mudanças na ajuda internacional.

Tenho observado a resiliência e o protagonismo de vários países africanos em áreas que algumas pessoas poderiam considerar inesperadas. Em tecnologias emergentes, por exemplo, muitos países lideram indicadores importantes: Maurício se destaca pelo amplo acesso à internet nas escolas, pela legislação de comércio eletrônico e pela presença de investidores de capital de risco.

O Quênia, por sua vez, é referência no uso de dinheiro móvel, enquanto Ruanda se destaca na entrega de suprimentos médicos com o uso de drones.

Existe também uma ideia equivocada sobre a ajuda, de que ela sustentou essencialmente as economias africanas.

Um jovem na Nigéria segurando um notebook.

AFP via Getty Images

BBC – A ideia de que a África era dependente da ajuda internacional é um mito?

Signé – Ainda que a ajuda internacional represente uma fatia significativa do Produto Interno Bruto (PIB) em países que enfrentam crises humanitárias, esse não é o caso da maioria das nações africanas.

Para a maioria dos países, a maior parte da receita vem de outras fontes, como as remessas. Em 2023, a ajuda internacional ao desenvolvimento para a África foi de US$ 73,8 bilhões, menos do que os US$ 90,8 bilhões em remessas, os US$ 97,1 bilhões em investimento estrangeiro direto e os US$ 479,7 bilhões em arrecadação tributária.

A dependência da ajuda externa, aliás, já vinha diminuindo antes mesmo dos cortes promovidos por Trump. O número de países onde a ajuda internacional ao desenvolvimento representava mais de 5% do PIB caiu de 27 em 2000 para 22 em 2022. Nos casos em que superava 10%, a queda foi de 14 para nove países; e, acima de 20%, de cinco para apenas um.

BBC – Alguns especialistas e ONGs alertaram que milhões de vidas seriam perdidas se a ajuda internacional fosse interrompida. Há evidências de que isso já aconteceu ou está prestes a acontecer?

Signé – Sim, os cortes na saúde foram particularmente devastadores.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, entre janeiro e outubro de 2025, 5.687 unidades de saúde em 20 contextos humanitários foram afetadas pela redução da ajuda internacional, e aproximadamente 2.038 fecharam, reduzindo o acesso a serviços de saúde para 53,3 milhões de pessoas.

Além disso, organizações não governamentais que atuam em campo, como Médicos Sem Fronteiras, relataram 652 mortes infantis por desnutrição em Katsina (Nigéria) nos primeiros seis meses de 2025, devido aos cortes.

Ainda levará tempo para dimensionarmos o impacto final, especialmente na mortalidade, mas alguns países conseguiram se adaptar. Por exemplo, um mês após o anúncio do fechamento da USAID, a Nigéria conseguiu mobilizar quase metade dos fundos que a USAID havia disponibilizado ao país.

A sociedade civil e o setor privado também passaram a atuar para preencher essa lacuna. O Centro de Pesquisa e Projetos para o Desenvolvimento (dRPC), com apoio da Fundação Ford, criou uma iniciativa para financiar 17 ONGs nigerianas durante três meses.

O fator determinante será saber se os recursos provenientes de ajustes governamentais, do setor privado, da sociedade civil ou de outros doadores poderão ser mobilizados e implementados de forma eficaz e rápida para substituir o financiamento anteriormente fornecido pelos Estados Unidos.

Trabalhadores da USAID protestando contra o fechamento da agência

Kevin Dietsch/Getty Images
A decisão de Trump de fechar a USAID e cortar drasticamente a ajuda internacional ao desenvolvimento pegou muitos países de surpresa

BBC – Como países como a Somália, Libéria e a República Centro-Africana, afetados por conflitos internos e fortemente dependentes de ajuda externa, conseguiram superar esse golpe?

Signé – Na minha análise, esses países estão classificados na categoria de maior risco, com alta exposição e alta vulnerabilidade. O impacto sobre eles é muito mais forte e difícil de gerir. A insegurança alimentar, a fome, o deslocamento e as doenças aumentaram após a interrupção da ajuda humanitária.

A União Europeia e o Japão destinaram recursos para ajuda humanitária na República Centro-Africana, e o Reino Unido enviou dinheiro para mitigar os efeitos da seca na Somália.

Ainda assim, a forte dependência de ajuda externa e as crises contínuas nesses países limitam sua capacidade de absorver o impacto.

BBC – Em 2025, os países africanos tiveram que lidar não só com os cortes na ajuda internacional, mas também com a turbulência causada pelas tarifas impostas pelo governo Trump. O que fizeram os governos da região? Implementaram medidas impopulares, como cortes nos gastos públicos e aumentos de impostos, ou buscaram outros mercados para redirecionar seus produtos?

Signé – No caso das tarifas, existe uma dinâmica semelhante à observada com a ajuda internacional. Embora países como Lesoto — cujo setor têxtil depende fortemente das exportações para os Estados Unidos — tenham sido afetados, apenas 13 países destinam mais de 5% de suas exportações totais ao mercado americano.

Muitos países focaram em redirecionar sua produção e a fortalecer relações comerciais com outros parceiros. A África do Sul, por exemplo, firmou um acordo para exportar produtos agrícolas para a China sem tarifas e buscou novos mercados na Indonésia, Vietnã, Malásia e no Japão. O país também tem priorizado o comércio dentro do próprio continente, que representou mais da metade das suas exportações agrícolas em 2025.

Alguns países, como Botsuana, além de buscar investimentos na União Europeia, adotaram uma postura de maior prudência fiscal, recorrendo a parcerias público-privadas em projetos de infraestrutura e abrindo setores à iniciativa privada — medidas que nem sempre são populares.

Contudo, as autoridades locais esperam atrair investimentos e, assim, criar empregos, beneficiando os cidadãos. O desemprego é um dos problemas mais urgentes do país.

Se as reformas conseguirem resultados em áreas prioritárias e gerarem ganhos em tecnologia ou transferência de conhecimento, a tendência é que ganhem apoio. Transparência, liderança responsável e uma implementação eficaz serão fatores decisivos.

Uma nota de dinheiro chinesa ao lado de um mapa da África e algumas pedras minerais.

Getty Images
A China não só se tornou o principal parceiro comercial da África, como também adquiriu grandes depósitos minerais em todo o continente

BBC – O aumento dos preços das commodities teve um papel relevante?

Signé – Sim, o aumento do preço das commodities teve um papel importante, especialmente ao ajudar a reduzir pressões inflacionárias, mas não foi o único fator.

Em primeiro lugar, muitos países conseguiram se adaptar rapidamente por meio de políticas ágeis e inovadoras voltadas à mobilização de recursos.

Em segundo lugar, muitos recorreram às suas relações com outros parceiros para diversificar seus mercados. Por exemplo, Costa do Marfim, Egito e Marrocos já vinham ampliando seus parceiros regionais, europeus e asiáticos.

Em terceiro lugar, países como a Irlanda, Coreia e Espanha anunciaram aumentos em seus orçamentos de ajuda ao desenvolvimento internacional, enquanto Dinamarca, Noruega e Luxemburgo se comprometeram a manter os níveis atuais.

Já os Emirados Árabes Unidos têm liderado a assistência na área de segurança na África Subsaariana.

BBC – Qual foi o papel da China? O país atuou em apoio às nações africanas ou não?

Signé – Em 2024, a China retirou as tarifas de importação para produtos de 33 países africanos menos desenvolvidos, o que impulsionou o comércio África-China para US$ 296 bilhões, um contraste notável em relação à política de tarifas americanas.

No início deste ano, a China anunciou que, a partir de 1º de maio, 53 nações africanas poderão exportar seus produtos livres de tarifas.

Trump durante uma reunião com presidentes africanos na Casa Branca em julho de 2025.

Bloomberg via Getty Images
Trump afirmou que deseja mudar a relação com a África para que ela deixe de ser apenas receptora de ajuda e se torne uma parceira comercial

BBC – Nos últimos anos, Rússia e China aumentaram sua presença na África. A Rússia tem apoiado os governos que chegaram ao poder na região do Sahel após uma série de golpes militares, enquanto a China concedeu empréstimos bilionários e garantiu concessões para a exploração de recursos naturais. A estratégia de Trump não está empurrando o continente para países que ele considera rivais e adversários?

Signé – A China é o principal parceiro comercial da África desde 2009. Em 2024, o intercâmbio entre o país asiático e o continente alcançou US$ 296 bilhões — mais que o dobro dos US$ 104,9 bilhões registrados no comércio entre a África e os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, o investimento estrangeiro direto americano no continente teve resultado negativo, com queda de US$ 2 bilhões em 2024, enquanto a China manteve fluxo positivo, com US$ 3,4 bilhões investidos.

A Rússia, por sua vez, está se consolidando como o principal parceiro na área de segurança em países do Sahel governados por juntas militares.

Já o superávit comercial da África com os Estados Unidos caiu ao nível mais baixo desde 2020 no período entre abril e julho de 2025, o que indica que a estratégia americana pode estar colocando em risco sua influência no continente.

Um grupo de moradores de Burkina Faso protesta a favor do golpe militar no país ao lado de um cartaz com o rosto de Vladimir Putin.

OLYMPIA DE MAISMONT/AFP via Getty Images
A Rússia aproveitou a situação para aumentar sua presença na África, apoiando líderes militares que assumiram o poder em vários países da região do Sahel

BBC – A nova Doutrina de Segurança Nacional, publicada pelos EUA em dezembro, dedica apenas três parágrafos à África, sugerindo que o continente ocupa um lugar marginal nas prioridades de Washington. Qual a sua opinião sobre isso?

Signé – Os EUA dependem totalmente da importação de 12 minerais críticos e, em mais de 50%, de outros 28. Já a China controla 50% da produção global desses minerais e 87% do processamento de terras raras, grande parte por meio de suas operações na África.

O continente possui 30% das reservas globais, o que o torna um parceiro fundamental para a segurança nacional dos EUA.

A nova doutrina menciona os minerais críticos como uma oportunidade de parceria, O que é pertinente, mas uma abordagem centrada exclusivamente na extração é insuficiente.

Até 2030, a África Subsaariana concentrará metade dos novos trabalhadores que entrarão na força de trabalho global. Já em 2050, mais de um terço da população jovem do mundo viverá no continente.

Esse cenário cria demandas imediatas de emprego e oportunidades de mercado a longo prazo, algo que só uma estratégia abrangente pode atender.

Considero acertada a mudança de abordagem adotada por Washington, que passa a dar maior ênfase ao aspecto econômico, mas penso que seria recomendável ampliá-la para o que defino como os “4 Ps”: prosperidade, poder, paz e princípios.

Ampliar e otimizar a cooperação nessas quatro frentes, sem deixar de priorizar o comércio e os investimentos, pode ajudar os Estados Unidos a alcançar seus objetivos econômicos e de segurança nacional, ao mesmo tempo em que contribuirá para a prosperidade mútua entre o país e a África.

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