Trump, Clinton e Michael Jackson: quem são os citados na lista de Epstein | ESTADÃO EXPLICA
Entenda o caso que expõe uma série de pessoas ligadas ao milionário Jeffrey Epstein, preso por acusações de abuso e tráfico sexual com menores de idade. Crédito: TV Estadão
O Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos (FBI, na sigla em inglês) examinou minuciosamente os registros bancários e e-mails de Jeffrey Epstein. Inspecionou suas propriedades. Passou anos entrevistando vítimas e analisando suas conexões com algumas das pessoas mais influentes do mundo.
Os investigadores reuniram provas extensas de que Epstein abusou sexualmente de meninas menores de idade, mas encontraram poucas evidências de que o financista liderava uma rede de tráfico sexual destinada a atender homens poderosos. A conclusão consta de uma análise da agência Associated Press baseada em registros internos do Departamento de Justiça.
Vídeos e fotos apreendidos nas residências de Epstein em Nova York, na Flórida e nas Ilhas Virgens não mostravam vítimas sendo abusadas nem implicavam outras pessoas em seus crimes, escreveu um promotor em um memorando de 2025.
Uma análise dos registros financeiros de Epstein – incluindo pagamentos feitos a entidades ligadas a figuras influentes dos meios acadêmico, financeiro e diplomático – não encontrou vínculos com atividades criminosas, segundo um memorando interno de 2019.
Embora uma vítima de Epstein tenha afirmado publicamente que ele a “emprestou” a amigos ricos, os agentes não conseguiram confirmar essa versão e não identificaram outras vítimas com relatos semelhantes, de acordo com os documentos.
Ao resumir a investigação em um e-mail enviado em julho passado, agentes informaram que “quatro ou cinco” acusadoras de Epstein relataram ter sido abusadas sexualmente por outros homens ou mulheres. Ainda assim, segundo os investigadores, “não havia provas suficientes para acusar esses indivíduos em âmbito federal, então os casos foram encaminhados às autoridades policiais locais”.
A Associated Press e outros veículos de comunicação americanos, como as emissoras CBS e NBC, seguem analisando milhões de páginas de documentos – divulgados pelo Departamento de Justiça com base na Lei de Transparência dos Arquivos Epstein. É possível que esse material contenha evidências que não tenham sido identificadas durante a investigação.
Mesmo assim, os documentos já divulgados, que incluem relatórios policiais, anotações de entrevistas do FBI e trocas de e-mails entre promotores, oferecem o retrato mais claro até agora da apuração e ajudam a explicar por que as autoridades americanas decidiram, em última instância, encerrá-la sem apresentar novas acusações.

FBI encontrou provas de que Jeffrey Epstein abusava sexualmente de meninas menores de idade, mas não de que liderasse uma rede de tráfico sexual Foto: Handout/Departamento de Justiça dos Estados Unidos/AFP
Dezenas de vítimas
A investigação sobre Epstein teve início em 2005, quando os pais de uma menina de 14 anos denunciaram que ela havia sido molestada na casa do milionário em Palm Beach, na Flórida.
A polícia identificou ao menos 35 meninas com relatos semelhantes: Epstein pagava entre US$ 200 e US$ 300 a estudantes do ensino médio para que lhe fizessem massagens com conotação sexual.
Com a entrada do FBI no caso, promotores federais prepararam acusações contra Epstein e alguns de seus assistentes pessoais, que teriam organizado as visitas e os pagamentos às adolescentes. No entanto, o então procurador federal de Miami, Alexander Acosta, firmou um acordo que permitiu a Epstein se declarar culpado apenas de acusações estaduais de aliciamento para prostituição de uma menor de idade. Condenado a 18 meses de prisão, ele foi libertado em meados de 2009.
Em 2018, uma série de reportagens do jornal Miami Herald sobre o acordo judicial levou promotores federais de Nova York a reabrirem as acusações. Epstein foi preso em julho de 2019 e, um mês depois, foi encontrado morto em sua cela, em um episódio oficialmente classificado como suicídio.
Em 2020, promotores acusaram Ghislaine Maxwell, confidente de longa data de Epstein, sob a alegação de que ela teria recrutado várias das vítimas e, em alguns casos, participado dos abusos sexuais. Condenada em 2021, Ghislaine cumpre pena de 20 anos de prisão.
Alegações
Memorandos da promotoria, resumos de casos e outros documentos divulgados na mais recente publicação do Departamento de Justiça sobre registros relacionados a Epstein mostram que agentes do FBI e promotores federais investigaram de forma rigorosa possíveis cúmplices. Até mesmo denúncias consideradas aparentemente absurdas ou difíceis de compreender foram examinadas.
Algumas alegações, no entanto, não puderam ser verificadas, segundo os investigadores.
Em 2011 e novamente em 2019, investigadores entrevistaram Virginia Roberts Giuffre, que em ações judiciais e entrevistas à imprensa acusou Epstein de tê-la agenciado para encontros sexuais com diversos homens, entre eles o ex-príncipe Andrew, do Reino Unido.
Os investigadores afirmaram ter confirmado que Virginia foi abusada sexualmente por Epstein, mas consideraram problemáticas outras partes de seu relato.
Duas outras vítimas de Epstein, que Virginia disse terem sido “emprestadas” a homens poderosos, informaram aos investigadores que não passaram por essa experiência, de acordo com um memorando interno de 2019.
“Nenhuma outra vítima relatou ter sido explicitamente instruída por Ghislaine ou Epstein a se envolver em atividades sexuais com outros homens”, diz o documento.
Segundo os investigadores, Virginia admitiu ter escrito um livro de memórias parcialmente ficcionalizado sobre o período em que conviveu com Epstein, incluindo descrições de fatos que não teriam ocorrido. Ela também apresentou versões contraditórias em entrevistas e concedeu uma série de declarações públicas que continham “caracterizações sensacionalistas, quando não comprovadamente imprecisas”, inclusive relatos falsos sobre suas interações com o FBI.
Ainda assim, promotores americanos tentaram agendar uma entrevista com Andrew, hoje conhecido como Andrew Mountbatten-Windsor, que se recusou a depor. Virginia posteriormente fechou um acordo extrajudicial com Andrew em um processo no qual o acusava de má conduta sexual.
Em um livro de memórias publicado após seu suicídio no ano passado, Virginia escreveu que promotores lhe disseram que ela não foi incluída no caso contra Ghislaine para evitar que suas alegações desviassem a atenção do júri. Ela reiterou que seus relatos de ter sido traficada para homens da elite eram verdadeiros.
Fotos e vídeos não incriminam outras pessoas
Investigadores apreenderam uma grande quantidade de vídeos e fotografias em dispositivos eletrônicos e residências de Epstein em Nova York, na Flórida e nas Ilhas Virgens Americanas. Foram encontrados CDs, fotografias impressas e ao menos uma fita de vídeo com imagens de mulheres nuas, algumas das quais aparentavam ser menores de idade. Um dos dispositivos continha entre 15 e 20 imagens classificadas como material comercial de abuso sexual infantil – arquivos que, segundo os investigadores, Epstein teria obtido pela internet.
Nenhum dos vídeos ou fotografias mostrava vítimas de Epstein sendo abusadas sexualmente, nem homens com qualquer uma das mulheres nuas, tampouco continha evidências que incriminassem outras pessoas além de Epstein e Ghislaine, escreveu a então procuradora-assistente dos EUA, Maurene Comey, em um e-mail enviado a agentes do FBI no ano passado.
Se existissem, o governo “teria investigado quaisquer pistas que gerassem”, escreveu Maurene. “No entanto, não localizamos nenhum vídeo desse tipo.”

Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell Foto: Handout/Departamento de Justiça dos Estados Unidos/AFP
Investigadores que analisaram os registros bancários de Epstein identificaram pagamentos a mais de 25 mulheres que pareciam ser modelos, mas não encontraram evidências de que ele estivesse envolvido na prostituição de mulheres para outros homens, segundo os promotores.
Associados próximos de Epstein não são acusados
Em 2019, os promotores avaliaram a possibilidade de acusar uma das assistentes de longa data de Epstein, mas decidiram não apresentar acusações.
Segundo os promotores, embora a assistente tivesse ajudado Epstein a pagar garotas por sexo e pudesse ter conhecimento de que algumas eram menores de idade, ela própria foi vítima de abuso e manipulação sexual por parte dele.
Os investigadores também examinaram a relação de Epstein com o agente de modelos francês Jean-Luc Brunel, que havia trabalhado em uma agência nos EUA ligada a Epstein e foi acusado, em um caso separado, de agressão sexual contra mulheres na Europa. Brunel cometeu suicídio na prisão enquanto aguardava julgamento por uma acusação de estupro na França.
Os promotores ainda avaliaram se deveriam acusar uma das namoradas de Epstein, que teria participado de atos sexuais com algumas vítimas. A jovem, então com 18 a 20 anos, foi entrevistada pelos investigadores, mas “foi determinado que não havia provas suficientes”, segundo um resumo entregue ao diretor do FBI, Kash Patel, em julho passado.
Dias antes da prisão de Epstein em julho de 2019, o FBI planejava entregar intimações do grande júri a pessoas próximas a ele, incluindo seus pilotos e o magnata do varejo Les Wexner, cliente de longa data.
Advogados de Wexner afirmaram aos investigadores que nem ele nem sua esposa tinham conhecimento da má conduta sexual de Epstein. Epstein administrava as finanças do casal, mas os advogados disseram que foram desvinculados do caso em 2007, após descobrirem que ele havia cometido fraudes.
“Há evidências limitadas sobre seu envolvimento”, escreveu um agente do FBI sobre Wexner em um e-mail de 16 de agosto de 2019.
Em declaração à Associated Press, um representante legal de Wexner disse que os promotores informaram que ele “não era cúmplice nem alvo de forma alguma” e que Wexner havia cooperado com os investigadores.
Os promotores também analisaram relatos de mulheres que disseram ter feito massagens na casa de Epstein para hóspedes que tentaram transformar os encontros em algo sexual. Uma delas acusou o investidor de capital privado Leon Black de ter iniciado contato sexual durante uma massagem em 2011 ou 2012, levando-a a fugir da sala. O Ministério Público de Manhattan investigou o caso, mas nenhuma acusação foi formalizada.
A advogada de Black, Susan Estrich, afirmou que ele havia contratado Epstein apenas para serviços de planejamento patrimonial e consultoria tributária. Segundo Estrich, Black não se envolveu em nenhuma conduta imprópria e não tinha conhecimento das atividades criminosas de Epstein. Processos movidos por duas mulheres que o acusaram de má conduta sexual foram arquivados ou retirados. Um deles ainda está em andamento.
‘Lista de clientes’ não existe
Em fevereiro de 2025, a procuradora-geral Pam Bondi disse à Fox News que a lista de clientes de Epstein, nunca antes vista, estava em sua mesa “naquele momento”. Meses depois, ela afirmou que o FBI revisava “dezenas de milhares de vídeos” de Epstein “com crianças ou pornografia infantil”.
No entanto, agentes do FBI informaram a seus superiores que a lista de clientes não existia.
Em 30 de dezembro de 2024, cerca de três semanas antes de o ex-presidente Joe Biden deixar o cargo, o então vice-diretor do FBI, Paul Abbate, entrou em contato com subordinados para perguntar “se nossa investigação até o momento indica que a ‘lista de clientes’, frequentemente mencionada na mídia, existe ou não”, segundo um e-mail que resumiu a consulta.
Um dia depois, um funcionário do FBI respondeu que o agente responsável pelo caso havia confirmado a inexistência da lista.
Em 19 de fevereiro de 2025, dois dias antes da aparição de Pam Bondi na Fox News, um agente especial supervisor do FBI escreveu: “Embora a cobertura da mídia sobre o caso Jeffrey Epstein faça referência a uma ‘lista de clientes’, os investigadores não localizaram tal lista durante o curso da investigação.” / AP
Este texto foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.
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