O Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou nesta sexta-feira as prisões de dois jornalistas, além de dois ativistas, por acusações ligadas a um protesto em uma igreja em Minnesota, há cerca de dez dias. Entre os presos está Don Lemon, ex-âncora da rede CNN e crítico do presidente Donald Trump, a quem já chamou de racista e mentiroso. Embora as autoridades apontem violações de leis federais, a ação é encarada como um novo e perigoso capítulo dos ataques do trumpismo à imprensa livre, que incluem processos bilionários, corte de financiamento e interferência editorial.
Lemon foi detido na noite de quinta-feira em Los Angeles, onde cobriria os Grammys, no domingo. Em comunicado, seu advogado, Abbe Lowell, citou a carreira de mais de 30 anos do jornalista, prometeu derrubar as acusações no tribunal e disse se tratar de um “ataque sem precedentes à Primeira Emenda” da Constituição, que trata da liberdade de expressão.
O processo contra Don Lemon gira em torno de um protesto em uma igreja de Saint Paul, em Minnesota, no dia 18. Na ocasião, manifestantes apontaram que o pastor prestou serviços para o ICE, o serviço de controle de imigração à frente da devassa promovida por Trump contra estrangeiros nos Estados Unidos, e interromperam a cerimônia. A secretária de Justiça, Pam Bondi, prometeu punir os envolvidos “com toda a força da lei federal”. Lemon rejeita os argumentos.
Nos últimos dias, pedidos de prisão contra Lemon e a jornalista independente Georgia Fort — detida na sexta-feira — foram negados por tribunais. Mas o Departamento de Justiça afirmou que um Grande Júri aceitou as acusações contra os jornalistas, além dos ativistas Trahern Jeen Crew e Jamael Lydell Lundy, pelos crimes de conspiração para violar direitos constitucionais e violação à expressão de prática religiosa.
Após audiência judicial, todos foram liberados para responder em liberdade, e Lemon foi autorizado a viajar ao exterior em junho.
— A Primeira Emenda da Constituição protege esse trabalho para mim e para inúmeros outros jornalistas que fazem o que eu faço. Estou ao lado de todos eles e não ficarei em silêncio — disse Lemon, logo após a audiência, em Los Angeles. — Repito, não vou parar agora. Nunca vou parar.

Ex-âncora da CNN, de onde foi demitido após comentários sexistas sobre a então pré-candidata republicana à Presidência Nikki Haley, Don Lemon é um antigo algoz de Donald Trump. Desde o nascimento político de Trump, Lemon já o chamou de mentiroso, corrupto e racista, e foi ameaçado várias vezes pela equipe jurídica do presidente. Há alguns dias, alertou que o governo federal poderia “adequar” a legislação para prendê-lo.
— Se uma coisa não funciona, eles tentam outra, e essa também falha, e eles tentam outra coisa, e aí eles simplesmente não desistem, porque, sabe, eles querem manter as aparências, mas eu não sei o que vem depois — declarou ao site Scripps News no domingo.
A detenção foi duramente atacada por adversários de Trump e organismos de defesa da liberdade de expressão. A presidente do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Jodie Ginsberg, disse que “as prisões são apenas as mais recentes em uma série de ameaças crescentes à imprensa nos Estados Unidos”. Hakeem Jeffries, líder da minoria democrata na Câmara, afirmou que “o Departamento de Justiça de Trump é ilegítimo e todos esses extremistas serão responsabilizados por seus crimes”.
A Casa Branca não pareceu se importar: na conta oficial na rede social X, fez uma publicação com a frase “Se a vida te dá limões…”, um emoji de correntes e uma imagem com a notícia da prisão de Don Lemon (limão, em inglês).
Antes de chegar à Presidência, Trump jamais escondeu seu desdém por jornalistas. Em 2015, em um discurso no qual elogiou o presidente russo, Vladimir Putin (há 26 anos no poder), disse que “jamais mataria jornalistas”, mas que os odeia e que “alguns são pessoas mentirosas e nojentas”.
Em seu primeiro mandato, a imprensa não teve vida fácil, com ataques pessoais a veículos de imprensa e jornalistas, também alvos de sua milícia digital. Após o retorno à Casa Branca, o jornalismo não se tornou apenas um algoz incômodo, mas sim um alvo preferencial.
A começar pela mídia pública. Em janeiro, a Corporação para Radiodifusão Pública, responsável por financiar cerca de 1,5 mil veículos públicos nos EUA, fechou as portas após um corte de US$ 1,1 bilhão autorizado pelo Congresso. Segundo a Casa Branca, o dinheiro estava financiando veículos de comunicação “enviesados”.

Na mídia privada, a interferência fala um idioma bem conhecido por Trump: os processos.
Em 2024, ele processou a rede ABC depois que um apresentador, George Stephanopoulos, disse em entrevista que Trump foi condenado pelo estupro de uma escritora nos anos 1990 – a defesa do presidente reconheceu que ele foi condenado, mas por abuso sexual. Após a vitória do republicano, a empresa fechou um acordo para pagar US$ 15 milhões a Trump. Em setembro passado, a mesma ABC, parte do grupo Disney, suspendeu por uma semana o programa do comediante Jimmy Kimmel, após comentários sobre a morte do ativista Charlie Kirk que enfureceram Trump e seus aliados.
Em julho do ano passado, a Paramount, que controla a CBS News, concordou em pagar US$ 16 milhões a Trump para resolver um processo em que acusava a emissora de favorecer a candidata democrata, Kamala Harris, em uma entrevista. Segundo o New York Times, decisão tomada para garantir o aval da Comissão Federal de Comunicações (controlada por um aliado de Trump) à fusão da Paramount com a Skydance Media. Em ao menos duas ocasiões Trump ameaçou usar a agência para suspender as licenças de operação das redes ABC e NBC, alegando “cobertura injusta” contra ele

Meses depois, Bari Weiss, jornalista alinhada às visões trumpistas, assumiu como editora-chefe da CBS News, e ordenou que uma matéria do programa “60 Minutes”, um dos mais tradicionais da TV americana, não fosse exibida: a jornalista Sharyn Alfonsi contava sem filtros a realidade do Cecot, a megaprisão que o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, construiu em seu país, e que abriga centenas de estrangeiros deportados por Trump. Alfonsi disse que a decisão foi política. A matéria foi exibida há alguns dias, mas com inserções de representantes do governo federal.
A lista de processos não seria completa sem a ação contra Rupert Murdoch, dono do Wall Street Journal, ligada à publicação de uma carta de Trump ao milionário Jeffrey Epstein, morto em 2019 e dono de uma rede de exploração sexual. O presidente pede US$ 10 bilhões. Ou então o igualmente bilionário processo — US$ 5 bilhões — contra a rede britânica BBC pela edição considerada “maliciosa” de um discurso de Trump. Antes do veredito, o diretor-geral da corporação, Tim Davies, deixou o cargo.

As restrições são sentidas até na Casa Branca. No ano passado, foram anunciadas mudanças no “pool” que acompanha o presidente em eventos oficiais, e que passou a privilegiar veículos alinhados ideologicamente. A agência Associated Press foi banida de coberturas por não aceitar a nomenclatura trumpista para Golfo do México (“Golfo da América”) e o secretário da Guerra (ou Defesa), Pete Hegseth, passou a exigir que as matérias passassem por censura prévia. Ao invés de concordar com as regras, alguns veículos devolveram as credenciais.
“Ao analisarmos tudo em conjunto, uma conclusão é inevitável: o presidente dos Estados Unidos está travando uma guerra total contra a liberdade de imprensa e o jornalismo”, afirmou, em comunicado, Clayton Weimers, diretor-executivo da ONG Repórteres Sem Fronteiras na América do Norte. “Donald Trump é um predador da liberdade de imprensa.”
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