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Novas pesquisas apontam para 4 tipos de autismo

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
27/12/2025
no Saúde
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Novas pesquisas apontam para 4 tipos de autismo
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Quando o filho de Marc e Cristina Easton foi diagnosticado com autismo aos 20 meses, o casal de Baltimore saiu da consulta médica confuso. O filho pequeno – que era muito social – não se assemelhava à imagem da condição que eles pensavam conhecer. E os especialistas pouco puderam oferecer em termos de clareza sobre o porquê ou o que estava por vir.

Marc Easton e sua esposa, Cristina Easton, observam enquanto o filho deles, Ellis, trabalha com uma terapeuta da fala  Foto: Salwan Georges/The Washington Post

Foi somente quatro anos após o diagnóstico de seu filho que os Easton finalmente começaram a obter respostas que lhes ofereceram um vislumbre de compreensão. No último verão americano, uma equipe de Princeton e do Instituto Flatiron divulgou um artigo mostrando evidências de quatro fenótipos distintos de autismo, cada um definido por sua própria constelação de comportamentos e traços genéticos. O denso artigo, repleto de dados, foi publicado com pouco alarde. Mas para os Easton, que estão entre as milhares de famílias que voluntariaram suas informações médicas para o estudo, as descobertas foram sísmicas.

“Essa ideia de que estamos vendo não uma, mas muitas histórias de autismo fez muito sentido para mim,” diz Cristina.

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Por décadas, o autismo tem sido descrito como um espectro – um termo elástico que se estende de crianças não-verbais a adultos com doutorado. Por trás dessa vasta gama, existe um padrão comum de comunicação social e diferenças comportamentais, há muito resistente a explicações claras.

Agora, avanços em imagem cerebral, genética e ciência computacional estão revelando subtipos biológicos discretos. As descobertas podem um dia levar a diagnósticos e tratamentos mais precisos – levantando questões profundas sobre se o autismo deve ser visto como algo a ser curado ou como uma faceta essencial da diversidade humana.

Existem algumas mutações de alto impacto que, sozinhas, parecem levar ao autismo. Mas os pesquisadores agora suspeitam que a maioria dos casos surge de uma arquitetura genética mais sutil – variantes comuns espalhadas por toda a população que, em certas combinações e sob certas condições ambientais, podem alterar o desenvolvimento.

E embora o discurso público recente tenha sido obscurecido por desinformação sobre o papel que vacinas desempenham no autismo, Tylenol e quais fatores causam a condição, a nova análise está gradualmente iluminando a ciência dos primórdios do autismo. Ela sugere que algumas crianças podem ter mutações genéticas quando nascem que são ativadas em diferentes momentos da vida – um reflexo de caminhos variados que emergem em diferentes momentos.

Natalie Sauerwald é uma das autoras principais do estudo dos subtipos e uma bióloga computacional no Instituto Flatiron, parte da Simons Foundation, que financia pesquisas científicas. Ela comparou as pesquisas anteriores sobre autismo a montar um quebra-cabeça, apenas para descobrir que as peças não se encaixavam – não porque a imagem estava obscura, mas porque “a caixa sempre continha vários quebra-cabeças, embaralhados juntos.”

Não existe apenas um autismo, afirma Natalie: “Há muitos autismos.”

Raízes genéticas

Definir quem é considerado autista sempre foi complicado. A condição se manifesta de maneiras extremamente variadas – entre gêneros, habilidades e experiências de vida – desafiando qualquer definição única. Meninos são muito mais propensos a receber um diagnóstico do que meninas, embora muitos pesquisadores suspeitem que as meninas são frequentemente ignoradas porque seus sintomas podem parecer menos disruptivos ou mais facilmente mascarados.

Nos últimos anos, à medida que os critérios de diagnóstico se ampliaram, o número de pessoas identificadas como autistas aumentou acentuadamente. A maior parte do crescimento foi entre aqueles que têm sintomas mais leves, em oposição àqueles que são profundamente impactados e têm mínimo ou nenhum uso da linguagem ou apresentam deficiência intelectual, de acordo com dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

Cerca de 1 em 150 crianças foram diagnosticadas com autismo em 2000 em comunidades dos EUA examinadas pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças; em 2022, esse número subiu para 1 em 31. O aumento pode parecer alarmante, mas muitos especialistas dizem que reflete não uma epidemia de autismo em si, mas uma maior compreensão de suas muitas formas – e uma sociedade se tornando mais atenta a reconhecê-las.

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Bióloga computacional, Natalie dedicou sua vida profissional ao estudo dos genes e sua relação com a saúde humana. Ela já havia publicado pesquisas sobre covid-19 e câncer, mas leu bastante sobre como a variabilidade significativa do autismo tornava tão difícil tratá-lo e entrou em contato com pesquisadores em Princeton.

Quando Natalie começou a analisar o banco de dados de autismo gerido pela Fundação Simons, uma organização científica sem fins lucrativos, que contém informações sobre mais de 5 mil crianças, ela esperava que os resultados fossem confusos. O espectro abrange uma gama tão ampla que ela assumiu que as categorias se confundiriam, como círculos sobrepostos em um diagrama de Venn. Em vez disso, os dados se resolveram em quatro grupos com suas próprias assinaturas genéticas e comportamentais.

“Esse nível de distinção foi realmente surpreendente,” ela comenta. O trabalho publicado em julho na Nature Genetics detalhou as quatro categorias:

  • Amplamente afetado: O menor grupo – cerca de 10% dos participantes – enfrentou os desafios mais acentuados, marcados por atrasos no desenvolvimento, dificuldades na comunicação e interação social, e comportamentos repetitivos que afetavam quase todas as partes da vida.
  • Autismo misto com atraso no desenvolvimento: Cerca de 19% mostraram atrasos no desenvolvimento precoce, mas poucos sinais de ansiedade, depressão ou comportamento perturbador. Os pesquisadores chamam este grupo de “misto” porque seus membros variam amplamente em quão fortemente exibem comportamentos sociais ou repetitivos.
  • Desafios moderados: Cerca de um terço dos participantes caiu neste grupo, apresentando os traços característicos do autismo – diferenças sociais e de comunicação e hábitos repetitivos – mas de maneiras mais sutis e sem atrasos no desenvolvimento.
  • Social e/ou comportamental: O maior grupo, cerca de 37%, atingiu os marcos iniciais do desenvolvimento dentro do prazo, mas muitas vezes enfrentou outras condições mais tarde, incluindo TDAH, ansiedade, depressão ou transtorno obsessivo-compulsivo.

Uma das coautoras de Natalie, Olga Troyanskaya, diretora do Princeton Precision Health, disse que ficou surpresa que no grupo social e/ou comportamental, os indivíduos tendiam a ser diagnosticados mais tarde – 6 a 8 anos de idade – enquanto que a maioria das crianças apresentam sintomas perceptíveis antes dos 3 anos de idade e são diagnosticadas nesse momento.

O novo estudo mostrou que o atraso pode originar-se de mutações genéticas que estão presentes quando uma criança nasce, mas se ativam mais tarde na vida.

“Para mim, esta foi a parte mais fascinante,” afirma Olga. “Sempre pensamos no autismo como um distúrbio do desenvolvimento fetal – mas isso pode ser verdade apenas para algumas crianças.”

Essa ideia inovadora ganhou outro impulso em outubro, quando um segundo estudo – publicado na Nature por uma equipe completamente diferente usando dados separados – chegou essencialmente à mesma conclusão: formas geneticamente distintas de autismo podem se desenvolver em diferentes cronogramas de vida.

A nova análise, baseada em dados dos Estados Unidos, Europa e Austrália, sugeriu que crianças diagnosticadas após os 6 anos de idade tinham perfis genéticos distintos e que sua forma de autismo parecia marcadamente diferente do tipo da primeira infância – menos como um atraso no desenvolvimento e mais semelhante a condições como depressão, TDAH ou transtorno de estresse pós-traumático.

“Essas descobertas fornecem mais suporte para a hipótese de que o termo abrangente ‘autismo’ descreve múltiplos fenômenos com diferentes [causas], trajetórias de desenvolvimento e correlações com condições de saúde mental,” escreveram os autores.

Rastreando forças externas

Compreender que o autismo pode abranger múltiplas condições distintas naturalmente leva a outra pergunta: o que, exatamente, impulsiona essas diferenças no nível biológico?

No total, centenas de mutações genéticas foram identificadas como estando ligadas ao autismo.

Aproximadamente metade parece ser herdada – mas o restante surge espontaneamente, e é esse que é talvez o mais misterioso. Essas mutações provêm de erros de cópia aleatórios no DNA ou de influências externas. A lista de suspeitos que impactam o autismo é longa: poluição do ar, idade paterna, diabetes materna, infecções pré-natais – todas apoiadas por algumas evidências, embora nenhuma ainda definitiva.

O trabalho de Natalie e Olga ilumina o plano genético do autismo. Mas os genes não agem isoladamente. Em diversos laboratórios, cientistas estão investigando forças externas, particularmente o ambiente pré-natal, para descobrir o que pode fazer com que esses genes sejam ativados ou desativados.

Essa curiosidade, às vezes, colidiu com a política. Nos últimos meses, cientistas ficaram perplexos com a decisão do governo Trump de apontar o uso de Tylenol na gravidez como uma possível causa. “Existem outras exposições com associações estatísticas igualmente não muito fortes,” analisa Catherine Lord, professora de psiquiatria da UCLA e uma das principais especialistas da área, referindo-se ao trabalho sobre antidepressivos SSRI, febre, metais pesados e outras possíveis associações pré-natais e ambientais. “Nesses estudos, os tamanhos de efeito são pequenos.”

Zeyan Liew, um epidemiologista ambiental de Yale, passou anos estudando PFAS, também conhecidos como ‘químicos eternos,’ compostos sintéticos usados em produtos como Teflon que agora permeiam alimentos e água potável. Sua pesquisa financiada pelos Institutos Nacionais de Saúde, baseada em dados de milhões de crianças em três países europeus, não encontrou vínculo direto entre os níveis maternos de PFAS e diagnósticos de autismo. Mas os dados sugeriram algo mais sutil: crianças cujas mães tiveram maior exposição tendiam a apresentar mais dificuldades sociais e comportamentais – hiperatividade, ansiedade, dificuldades em formar amizades.

“Isso mostra que o nível de PFAS da mãe está correlacionado com o funcionamento do desenvolvimento social da criança”, informa Liew. Ele suspeita que os produtos químicos possam agir no cérebro em desenvolvimento, perturbar o equilíbrio hormonal ou desencadear estresse oxidativo — “uma interferência biológica indesejada”, observa ele, “durante um período de rápido desenvolvimento cerebral”.

David Mandell, professor de psiquiatria na Universidade da Pensilvânia e parte de uma nova equipe financiada pelo NIH, está desenvolvendo um modelo preditivo para examinar uma gama mais ampla de exposições: medicamentos, qualidade do ar, acesso a espaços verdes, o ambiente construído. O objetivo, ele disse, é entender não apenas quais fatores importam, mas quando. O tempo pode ser decisivo. Ele apontou o caso notório da talidomida, um medicamento para enjoos matinais retirado na década de 1960 após causar defeitos congênitos. O risco de autismo aumentou apenas entre mulheres que a tomaram entre o 20º e 24º dia após a concepção.

“Precisamos analisar em detalhes qual parte específica da gravidez”, destaca Mandell.

O pesquisador James McPartland, de Yale, tem examinado o cérebro das pessoas há décadas, em busca de pistas sobre o autismo. Foto: Courtesy of James McPartland/The Washington Post

Um cérebro conectado de forma diferente

Se múltiplos tipos de autismo surgem da interação entre genética e ambiente, então o cérebro é o lugar onde essas influências variadas convergem e se tornam visíveis.

Uma linha promissora, mas ainda inicial de pesquisa, centra-se em vias bioquímicas no cérebro: em algumas crianças, autoanticorpos parecem bloquear o transporte de folato para o cérebro, e os primeiros testes de leucovorina, uma forma de vitamina B, sugerem que ela pode restaurar a função em alguns casos. As descobertas são preliminares, mas este é o medicamento que a administração Trump acelerou para aprovação em setembro.

Enquanto esse trabalho aponta para a química no nível molecular, outra linha de investigação observa a própria arquitetura do cérebro. Há duas décadas, cientistas perceberam que o cérebro de algumas crianças pequenas com autismo crescia incomumente rápido na infância. O crescimento excessivo, frequentemente ligado a sintomas mais severos, parecia se estender por regiões responsáveis tanto pelo raciocínio superior quanto pela percepção sensorial básica – o mesencéfalo, o hipocampo, o giro parahipocampal, o giro temporal superior e além.

As percepções mais recentes sobre o autismo têm menos a ver com diferenças nas regiões do cérebro, mas sim com as conexões que as ligam.

Por décadas, o pesquisador de Yale, James McPartland, tem examinado o cérebro das pessoas, buscando pistas sobre o autismo. Seu trabalho envolveu catálogos meticulosos de exames e a medição de mudanças sutis ao longo do tempo. Então, há alguns anos, surgiu um padrão.

Adultos com autismo, McPartland notou, pareciam ter menos sinapses – as minúsculas junções onde as células nervosas trocam informações – do que seus pares neurotípicos. E dentro do grupo de autismo, aqueles com as conexões mais esparsas frequentemente enfrentavam mais dificuldades com as demandas sociais do dia a dia. As conclusões foram apresentadas este ano na conferência anual da American Neuropsychiatric Association.

“Vimos uma correlação muito forte entre a densidade sináptica e os tipos de desafios que as pessoas enfrentavam”, explica McPartland, diretor do Center for Brain and Mind Health da Yale School of Medicine. “Ficamos muito animados.”

Ellis e sua família participaram, no último verão, de um estudo histórico que constatou que pode haver pelo menos quatro subtipos de autismo Foto: Salwan Georges/The Washington Post

Ellis

A jornada dos Eastons com o autismo começou em 2021. Tanto Marc (que trabalha em garantia de qualidade na cidade de Nova York) quanto Cristina (na época professora) ainda estavam trabalhando de casa após os fechamentos pandêmicos, e eles notaram pequenas coisas que pareciam diferentes sobre seu filho Ellis.

Marc, agora com 55 anos, observou que Ellis não repetia mais palavras da maneira que fazia antes, e Cristina, agora com 42, se via intrigada com a maneira como ele brincava. Quando ela colocava tigelas de quinoa e lentilhas, esperando que ele pegasse ou despejasse, ele apenas salpicava.

Os pais de Ellis não deram muita importância à indicação para uma avaliação do desenvolvimento — até que o resultado foi autismo. O diagnóstico se baseia em listas de verificação comportamental, não em exames ou testes laboratoriais, e em critérios que muitos médicos consideram vagos.

Agora com 6 anos, Ellis é um aluno do jardim de infância não falante que se comunica através da música. Quando ele está chateado e volta a se acalmar, ele canta uma melodia de um clipe de Batwheels. Quando ele quer fruta, há uma música de salada de frutas que ele murmura e uma música sobre o tempo para quando quer sair de casa. Ele também é fã de Taylor Swift, e cada uma de suas músicas está associada a uma emoção ou desejo.

Uma avaliação do desenvolvimento realizada em 2021 revelou que Ellis tinha autismo Foto: Salwan Georges/The Washington Post

A abreviação diagnóstica – chamar alguém de profundamente afetado ou atribuir um rótulo “nível 1, 2 ou 3” com base nas necessidades de apoio – parece muito brusca para eles. Cristina se preocupa que o enquadramento linear familiar do autismo, de leve a severo, muitas vezes se torne “uma maneira de descartar as pessoas.” O casal viu como é difícil categorizar pessoas que desafiam descrições simples, como um adulto que é academicamente talentoso, mas tem dificuldade em amarrar os sapatos.

Os participantes do estudo de pesquisa de Natalie não receberam resultados individuais, mas os Eastons dizem que estão debatendo em que categoria Ellis se enquadra, esperando que isso ilumine as raízes de seu diagnóstico e sugira a trajetória à frente.

“Quando você tem uma criança como a nossa, sua inclinação natural é voltar no tempo e olhar para sua infância e toda a árvore genealógica e cada experiência,” para tentar descobrir o que poderia ter levado ao diagnóstico, diz Cristina.

Cristina acredita que Ellis pertence à categoria “amplamente afetada” – seus marcos atrasados e dificuldade de comunicação se encaixam nesse perfil. Marc, no entanto, o vê no grupo misto, onde os sintomas são mais leves e variáveis, porque ele é capaz de comunicar suas necessidades fora da fala. Ainda assim, ambos os pais concordam que o novo marco do estudo captura uma complexidade há muito ausente na forma como o autismo é normalmente descrito.

“É perigoso colocar as pessoas em caixas com base no que parecem fazer”, entende Cristina. “É por isso que este novo estudo parece tão promissor – ele vê as pessoas com a complexidade como realmente são.”

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

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