‘Estamos vendo o início de uma autocracia nos Estados Unidos’, diz ex-jornalista do Washington Post
A jornalista americana Ruth Marcus destaca rachadura no sistema de freios e contrapesos nos Estados Unidos. Crédito: Ruth Marcus
Foto: Marcelo Saraiva ChavesRuth MarcusJornalista americana com passagem de 40 anos pelo Washington Post
A jornalista americana Ruth Marcus trabalhou no jornal The Washington Post por mais de 40 anos e chegou a ser uma das principais editoras e colunistas da seção de política do jornal. Mas em março deste ano, Ruth decidiu pedir as contas em meio à mudanças anunciadas pelo proprietário do jornal, o dono da Amazon, Jeff Bezos.
Primeiro, Bezos anunciou que o Post não faria o seu editorial de apoio a um candidato presidencial nas eleições de 2024, uma prática obrigatória do jornal desde 1976. Depois, o dono da Amazon afirmou que a seção de opinião do Post só publicaria editoriais que se concentrassem em dois temas: livre mercado e liberdades individuais.
O Post autorizou que Ruth escrevesse uma coluna se opondo à decisão sobre o editorial de apoio presidencial, mas se recusou a publicar o texto da jornalista em relação às mudanças na seção de opinião. “Não tive escolha a não ser pedir demissão, precisava garantir a minha independência e não podia fazer isso no Post”, afirmou a Ruth, em entrevista ao Estadão.
A jornalista classifica a aproximação de Bezos e Trump como “covarde”, mas previsível. “Ele está pensando em seus interesses econômicos, mas não é algo que um proprietário de um jornal deveria fazer”.
Especialista em assuntos relacionados à Suprema Corte, Ruth avalia que a Corte ainda pode se opor a Donald Trump, mas enxerga o início de uma autocracia nos Estados Unidos por conta da fragmentação do sistema de freios e contrapesos do país. “A Suprema Corte é muito conservadora e tem uma visão inflada do poder presidencial e o nosso Legislativo aceita tudo que Trump quer fazer, mas somos resilientes”.
Ruth veio a São Paulo para participar do Festival Piauí de Jornalismo, nos dias 6 e 7 de setembro.
Confira trechos da entrevista:
A senhora poderia falar um pouco sobre como foi a sua saída do Washington Post?
Eu trabalhei para o Washington Post por 40 anos, 6 meses e 6 dias e, sinceramente, eu nunca quis sair. À medida que o tempo passava, quando cheguei aos 39 anos de jornal, eu nunca pensei que iria sair. Mas eu saí porque tive que sair.
Aconteceram coisas que me impediam de assegurar aos meus leitores que eu era livre para escrever o que acreditava. Eu passei metade da minha carreira na redação como repórter de notícias. Eu passei a segunda metade do meu tempo no jornal como repórter de opinião, escrevendo editoriais não assinados, e depois escrevendo colunas assinadas. E se você é um escritor de opinião e não pode escrever o que acredita, então você não tem liberdade jornalística.
Então, especificamente, o que aconteceu foi que Jeff Bezos, nosso proprietário, o fundador da Amazon, anunciou que a seção de opinião iria se concentrar em duas coisas: livre mercado e liberdades individuais. Eu acredito nessas duas coisas, mas eu achei uma péssima ideia do jornal.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de um jantar com executivos de tecnologia em Washington Foto: Saul Loeb/AFP
Antes disso, Bezos já havia dado uma outra péssima ideia quando ele disse que, pela primeira vez em décadas, não íamos publicar o nosso texto de endosso, um endosso que já havia sido redigido para nossa escolha de candidato presidencial em 2024.
Nós tínhamos redigido um texto em que o jornal iria apoiar Kamala Harris, mas Jeff Bezos decidiu que não íamos publicar esse endosso porque ele disse que não era uma boa ideia endossar candidatos presidenciais, alegando que isso diminui a confiança dos leitores.
Eu discordei dessa decisão também e, naquela época, eu pude escrever uma coluna dizendo porque eu discordava fortemente dessa decisão. Então, eu continuei no jornal.
Quando ele decidiu mudar a editoria de opinião, eu preparei uma outra coluna em que criticava a decisão de forma respeitosa. Mas meu editor não me deixou publicar. Eu fui respeitosa, não chamei Bezos de covarde bajulador de Trump, eu apenas quis explicar porque a decisão estava errada.
Quando meu editor disse que estava se recusando a publicar a minha coluna eu pedi demissão. Não tive escolha.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a primeira-dama Melania Trump realizam um jantar para os executivos das grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos, em Washington Foto: Saul Loeb/AFP
O que mudou no jornal desde que ele foi comprado por Jeff Bezos?
Até recentemente eu diria que a aquisição do Washington Post por Bezos tinha sido fantástica.
No começo, foi maravilhosa para o jornal. Eu digo isso porque o Washington Post foi propriedade da família Graham por muitos anos, que foram protetores incríveis do jornal e realmente comprometidos com um jornalismo excepcional.
E quando Don Graham decidiu que ele não poderia mais fazer o Post uma empresa sustentável de capital aberto, ele decidiu vender o jornal para Bezos.
Ele não vendeu para ele porque pensava que poderia ganhar mais dinheiro, mas porque achava que estava colocando o Post em mãos capazes que realmente acreditavam em nossa missão jornalística.
No início, Bezos foi um excelente proprietário. Ele nos deu dinheiro, energia e conhecimento tecnológico. Não interferiu em nada durante o primeiro governo Trump e o Washington Post conseguiu fazer grandes reportagens críticas ao presidente americano.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversa com jornalistas em Morristown, New Jersey Foto: Mandel Ngan/AFP
Ele também chegou a perder um contrato de US$ 10 bilhões com o governo americano durante o primeiro mandato de Trump porque era o proprietário do Post. Trump simplesmente fez ele perder dinheiro e Bezos não se intimidou.
Mas de repente, Bezos parou de ser esse proprietário maravilhoso. Ele decidiu que o Washington Post não ia apoiar ninguém nas eleições presidenciais de 2024 e todos os magnatas da tecnologia se aproximaram do presidente.
Isso não é algo que um proprietário de um jornal deveria fazer.
Jeff Bezos tem se aproximado de Donald Trump. Ele compareceu a jantares em Mar-a-Lago e esteve presente na cerimônia de posse de Trump. Como a senhora avalia a relação entre o presidente Trump e os executivos do setor de tecnologia?
Eles estão fazendo o que está em seu próprio interesse econômico e estão se submetendo a Trump por uma boa razão. Trump está disposto a usar os mecanismos do governo para ajudar os negócios desses magnatas ou para destruí-los, depende da relação que ele tiver com cada um. Portanto, é covarde e decepcionante a posição de Bezos, mas não é irracional.
Ele quer manter sua empresa funcionando. Só é complicado porque ele é dono de uma empresa de comunicação e está fazendo isso.
Caso Epstein causou prejuízo a Trump junto à sua base, aponta ex-jornalista do Washington Post
Em entrevista ao Estadão, a jornalista americana comenta as repercussões do caso Jeffrey Epstein nos Estados Unidos. Crédito: Ruth Marcus
Donald Trump surgiu nos círculos políticos em 2015 durante as primárias republicanas. Qual foi a sua primeira impressão dele como político? Era imaginável que um candidato como ele aparecesse nos Estados Unidos?
Eu me equivoquei na minha avaliação sobre Donald Trump e suas chances de vencer as eleições presidenciais de 2016.
Cheguei a escrever uma coluna em que dizia: “não se preocupe nem um pouco com Donald Trump ser presidente. Isso não vai acontecer”.
Mas estava errada. Eu pensei que os eleitores americanos não iriam eleger um charlatão perigoso. Estamos vendo agora todos os elementos que estavam presentes em 2015 e no início de 2016 durante sua campanha: o sentimento anti-imigrante, o desprezo pelos tribunais e pelo Estado de direito e sua atitude em relação à imprensa.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, caminha por Windsor, Inglaterra Foto: Matt Dunham/ AP
Tudo isso estava presente já naquelas primárias republicanas. A diferença de 2015 para 2025 é que agora Trump aumentou a sua capacidade de operacionalizar o que ele vem falando há 10 anos.
A Suprema Corte sempre foi central para o sistema de freios e contrapesos que sempre garantiu a integridade da democracia americana. Mas, ultimamente, isso parece ter mudado, com a atual Suprema Corte se alinhando a Trump. O que mudou? Uma Suprema Corte mais conservadora poderia “abrir o portão” para decisões menos democráticas por parte de Trump?
O momento que a nossa Suprema Corte vive ainda está se desenrolando e não está completamente claro como vai terminar.
Agora nós temos uma supermaioria conservadora de seis juízes em nove no tribunal.Precisaria de cinco juízes para a maioria e Trump tem esse voto extra de sobra. É muito mais fácil conseguir um resultado conservador nas decisões.
Ainda acredito que existem maneiras que essa Suprema Corte vai estar disposta a se opor a Trump. O presidente vai perder em sua tentativa de acabar com a Lei da Cidadania por Nascimento e vai perder em seu esforço para punir escritórios de advocacia que ousaram contratar advogados que ele não gosta ou para mover processos que ele não gosta.
O problema é que essa Suprema Corte conservadora tem uma visão muito inflada do poder presidencial e está disposta a dar uma liberdade maior para Trump. Acredito que isso é muito perigoso porque Trump está cancelando gastos ordenados pelo Congresso, está fechando agências governamentais criadas pelo Congresso.
Enquanto as decisões sobre esses casos demoram anos, Trump está agindo de forma rápida e se envolvendo em todo tipo de falcatruas. Pode ser muito difícil reparar este dano quando o caso sobre o mérito chegar à Suprema Corte.

O então ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump participa de uma audiência na Corte Federal de Nova York, nos Estados Unidos Foto: Timothy A.Clary/AFP
Autocratas ao redor do mundo têm um método de ação muito semelhante: eles chegam ao poder por meios legítimos e começam seu desmantelamento da democracia pela erosão do sistema judiciário. Isso está acontecendo agora nos EUA?
O presidente Bill Clinton disse famosamente que depende do que o significado de é é em 1998. Então a resposta para a sua pergunta é que depende do que é o significado de autocracia.
Se autocracia é a erosão do nosso sistema constitucional de freios e contrapesos, se é uma capitulação completa por parte do nosso Legislativo, pelo Congresso, ao permitir quase tudo que Trump quer fazer, então sim, estamos vendo o início de uma autocracia.
Eu acredito que o papel dos tribunais e o quanto eles estão dispostos a se opor a Trump permanece como uma questão em aberto.
Mas ainda não estou disposta a dizer que não vamos conseguir realizar uma eleição em 2026, quando temos o pleito de meio de mandato, ou em 2028, quando temos nossa próxima eleição presidencial.
Não acredito que o nosso sistema seja tão frágil. Somos mais resilientes que isso.
A senhora acredita que o caso Jeffrey Epstein poderia prejudicar a popularidade de Donald Trump entre seus apoiadores ou causar uma rachadura na base que o apoia? Há indicações reais de uma ligação entre Trump e Epstein?
Está bem claro que o caso Epstein causou um grande prejuízo a Donald Trump junto à sua base. O Congresso americano está tentando divulgar partes dos arquivos, mas os apoiadores de Trump não estão se satisfazendo com isso.Eles acreditavam que, uma vez que Trump estivesse na Casa Branca, tudo seria desvendado e liberado, mas isso não aconteceu.
O caso Epstein é um dos grandes problemas do governo Trump e a administração ainda não conseguiu resolver. O que me intriga tanto na história de Epstein é que sabemos que ele e Trump eram amigos. Existem fotos e vídeos deles juntos.Não há indicação de que Trump tenha ido à ilha de Jeffrey Epstein, mas há todas as indicações de que Trump tinha pelo menos alguma noção de que Epstein estava aprontando.
‘Ainda acredito que a Suprema Corte dos EUA vai se opor a Trump’, diz jornalista americana
Em entrevista ao Estadão, a jornalista americana Ruth Marcus fala sobre a atuação da Suprema Corte no governo Trump. Crédito: Ruth Marcus
O presidente americano disse a uma revista anos atrás que Epstein era conhecido por gostar de mulheres mais jovens. Trump conhecia Epstein, ele o expulsou de Mar-A-Lago porque Epstein fez coisas que Trump não gostou.
Não acho que existam evidências que o próprio presidente se envolveu em conduta inapropriada com menores de idade porque Ghislaine Maxwell, namorada e funcionária de Jeffrey Epstein, já teria fornecido essa informação durante o governo Biden para conseguir um acordo melhor. Então essa é uma daquelas situações onde há muita fumaça e menos fogo, mas posso estar errada.
Como a senhora avalia a maneira como os democratas estão lutando contra a administração Trump? Eles ainda parecem estar absorvendo a derrota para Trump e perderam parte de sua base eleitoral para o Partido Republicano
Trump está em uma situação ruim, mas os democratas conseguem se superar. A legenda não sabe no que acredita, não sabe o que fazer com seu apoio em declínio, não entende porque o seu apoio diminuiu tão rapidamente e de maneira inesperada. E não sabe quem será o seu próximo líder.
Então, se você me pedir um adjetivo para descrever o Partido Democrata eu diria lamentável.
Se a ala progressista do partido continuar avançando em apoio, o partido ficará em um estado de minoria permanente. Não se pode vencer eleições com a ala progressista porque a maioria dos americanos não tem essas posições.
Na minha opinião, os democratas precisam fazer o que fizeram em 1992, quando Bill Clinton, um governador desconhecido do Arkansas, moveu o partido para o centro e repaginou a legenda depois de 12 anos de governo republicano.
Os democratas precisam encontrar outro Clinton.

O líder da minoria democrata no Senado participa de uma coletiva de imprensa em Washington Foto: J. Scott Applewhite/ AP
Quais são as perspectivas de uma vitória democrata nas eleições de meio de mandato? Trump tem tentado reduzir as possibilidades de derrota com a pressão sobre Estados republicanos para a realização de um redesenho de distritos antes da hora
Os democratas estão em uma fase muito ruim e o presidente Trump é muito impopular, de acordo com as pesquisas. Trump está pressionando os Estados a redesenhar as linhas distritais antes do censo, que ocorre a cada 10 anos.
Então, mesmo que os democratas estejam sem um líder e sem uma visão de partido para o futuro, eles estão em uma posição decente para retomarem o controle da Câmara dos Deputados, simplesmente porque o país está dividido e as pessoas querem mandar uma mensagem ao incumbente.
A questão do gerrymandering republicano diminuiu as chances dos democratas, mas ainda é possível.
Como a senhora vê os Estados Unidos na era pós-Trump? E a democracia e as instituições americanas?
Eu me preocupo com o papel dos Estados Unidos no mundo e com a capacidade de Washington convencer os seus aliados em um mundo pós-Trump de que ainda é um parceiro confiável.
Os EUA sobreviveram a um mandato de Trump. Me preocupo com o que vai ser de nós depois do segundo mandato de Trump.
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