Empresas americanas já haviam construído defesas contra nomes como Carl Icahn, Nelson Peltz e outros investidores ativistas que sacudiram o mundo corporativo, pressionando CEOs a elevar o preço das ações. Agora, as companhias têm um novo investidor com quem se preocupar: o presidente dos Estados Unidos.
Donald Trump inseriu o governo nas empresas americanas de formas extraordinárias — incluindo a aquisição de participação na U.S. Steel e a pressão por uma fatia da receita da Nvidia e da Advanced Micro Devices (AMD), oriunda da China. No mês passado, o Pentágono anunciou que assumiria 15% da MP Materials, grande mineradora americana de terras raras.
E, na sexta-feira, a Intel concordou em permitir que o governo dos EUA adquirisse 10% de participação em seus negócios, no valor de US$ 8,9 bilhões.
Esses movimentos podem marcar uma mudança do celebrado sistema de livre mercado dos EUA para algo que se assemelha, ao menos em certos setores, a uma forma de capitalismo administrado pelo Estado — mais comum na Europa e, em diferentes graus, na China e na Rússia, segundo advogados, banqueiros e acadêmicos especializados em fusões hostis e negócios internacionais.
As ações estão deixando advogados e banqueiros de Wall Street em polvorosa, tentando criar um manual de defesa para as empresas ou ao menos encontrar maneiras de apaziguar Trump.
— Praticamente todas as companhias com quem conversei e que recebem subsídios ou repasses do governo estão preocupadas com isso agora — diz Kai Liekefett, copresidente da prática de defesa corporativa do escritório Sidley Austin.
Segundo três pessoas a par das discussões, o governo Trump está lançando uma rede ampla, examinando outras empresas que podem estar maduras para algum tipo de intervenção governamental.
O governo americano já havia se envolvido em corporações antes. O governo Obama assumiu participações em bancos e montadoras após a crise financeira de 2008, e tanto Obama quanto Biden usaram subsídios estatais para promover tecnologias verdes.
Mas especialistas dizem que a iniciativa de Trump é diferente e mais agressiva do que os EUA haviam visto até então. As empresas visadas não estão à beira do colapso; nem sua falência, como no caso dos bancos em 2008, desencadearia um colapso econômico global.
— Os EUA sempre tiveram receio da linha que separa o setor público do privado — afirma Jonathan Levy, historiador e professor da Sciences Po, em Paris, e autor de Ages of American Capitalism: A History of the United States. — A única vez em que essa linha foi suspensa foi em contexto de guerra ou de interesse de segurança nacional.
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A Casa Branca insiste que a segurança nacional é de fato o motor dessas participações e nega que a entrada em companhias estratégicas comprometa os mercados livres.
A Intel recebeu cerca de US$ 11 bilhões em subsídios como parte do CHIPS Act, lei bipartidária aprovada no governo Biden para reduzir a dependência dos EUA da Ásia na fabricação de semicondutores. O secretário de Comércio, Howard Lutnick, argumentou que, ao assumir participação acionária, os contribuintes americanos também se beneficiariam de eventuais ganhos da Intel.
— Não estamos falando de uma empresa de panelas e frigideiras — avalia um funcionário da Casa Branca. — Trata-se de algo tão crítico para a segurança nacional que justifica essa ação.
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Mas algumas medidas recentes de Trump parecem romper com precedentes históricos. Nos casos da Nvidia e da AMD, o governo propôs ditar o tamanho do mercado global a que essas fabricantes de chips poderiam ter acesso. As duas empresas se comprometeram a repassar 15% da receita obtida na China ao governo dos EUA para manter o direito de vender no país e contornar restrições futuras.
David Sicilia, professor associado emérito de história da Universidade de Maryland, conta nunca ter visto os EUA alterarem sua política comercial visando diretamente empresas específicas.
— A interpretação menos generosa é que isso se trata de uma extorsão pelo sucesso — afirma.
Na sexta-feira, ao comentar o acordo com a Intel, Trump disse que o CEO da empresa “entrou querendo manter o emprego e acabou nos dando US$ 10 bilhões para os Estados Unidos”.
Investidores ativistas como Icahn e Peltz costumam adquirir participações em empresas com dificuldades no mercado e pressioná-las a adotar medidas que aumentem o valor de suas ações — como vender divisões ou substituir executivos. Mas, ao contrário de um ativista tradicional, Trump nem sempre vincula suas exigências a retornos financeiros, seja ao pedir a demissão de CEOs ou ao exigir que empresas “absorvam o custo das tarifas”.
Por ora, os acionistas da Intel reagiram positivamente ao aprofundamento da participação do governo. As ações da empresa fecharam em alta de mais de 5% na sexta-feira, após Trump anunciar o investimento. Já papéis de concorrentes como a AMD caíram desde que surgiram notícias sobre o possível acordo, em parte porque analistas esperam que o governo favoreça a Intel em detrimento de outras fabricantes de chips.
— Se você olha apenas para o curto prazo, esse tipo de acordo pode até ser benéfico, porque a pressão viria de qualquer maneira — analisa Sarah Bauerle Danzman, cientista política e professora associada da Escola Hamilton Lugar de Estudos Internacionais da Universidade de Indiana.
— Quando o governo passa a participar das decisões estratégicas, essas escolhas deixam de ser movidas por considerações de mercado.
O envolvimento crescente do presidente com empresas privadas também levanta questões sobre a perda de proteções aos acionistas comuns.
— Estamos acostumados a ver acionistas controladores dizendo: ‘Quero benefícios privados de controle. Também sou o CEO e quero um pacote de remuneração de US$ 56 bilhões.’ Temos mecanismos jurídicos para lidar com isso — observa Edward Rock, professor de governança corporativa da Universidade de Nova York.
— Mas, se o governo induz uma empresa a cancelar planos de terceirização, por exemplo, não temos doutrinas no direito societário que nos permitam analisar essa situação.
Rechaçar as exigências de Trump não será simples. Processar o governo dificilmente é um caminho produtivo, destaca Liekefett, do Sidley Austin.
Embora o CHIPS Act não autorize expressamente o governo a assumir participações acionárias em empresas beneficiadas, o texto contém redações que podem ser interpretadas como concessão de autoridade mais ampla, explica.
Hoje, o “manual” para evitar a ameaça de participação governamental ou exigências extraordinárias, segundo consultores corporativos, é continuar fazendo o que já mantém as companhias fora da mira de Trump: apagar menções a diversidade, equidade e inclusão de seus sites públicos e intensificar visitas ao presidente em Washington. O CEO do Goldman Sachs, David Solomon, por exemplo, já esteve com Trump quatro vezes desde janeiro, um número considerado incomum para o executivo do banco, segundo duas pessoas informadas sobre os encontros.
Especialistas em políticas públicas alertam que esse ambiente empresarial pode estar corroendo o campo de jogo nivelado que consideram crucial para o sucesso de longo prazo do país.
— Quem vai querer investir em empresas que o governo não apoia?” — explica o economista e especialista em comércio Dan Ikenson. — O que vai acontecer com empresas promissoras que não beijarem o anel de Trump?
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