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EUA planejam suavizar críticas a El Salvador, Israel e Rússia em relatório de direitos humanos

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
09/08/2025
no Mundo
Tempo de leitura:9 minutos de leitura
15
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De pizzarias a pedófilos satânicos: a conspiração que engole direita nos EUA e se volta contra Trump

Para os seguidores do QAnon, presidente republicano seria um messias moderno encarregado de destruir o ‘Estado profundo’. Crédito: Bárbara Pereira/Estadão

Rascunhos vazados dos relatórios anuais de direitos humanos do Departamento de Estado —que estão com meses de atraso— indicam que o governo de Donald Trump pretende reduzir drasticamente as críticas dos EUA a certos países com históricos extensos de abusos.

Os rascunhos dos relatórios sobre El Salvador, Israel e Rússia, aos quais o Washington Post teve acesso, são significativamente mais curtos do que os elaborados no ano anterior pelo governo de Joe Biden. Todos eliminam referências a pessoas LGBTQIA+ ou crimes cometidos contra elas, e as descrições de abusos que permanecem foram suavizadas.

O relatório preliminar sobre El Salvador —país que, a pedido do governo Trump, concordou em prender migrantes deportados dos Estados Unidos— afirma que não houve “relatos críveis de violações significativas de direitos humanos” em 2024. O relatório anterior do Departamento de Estado, que cobriu 2023, identificava “graves problemas de direitos humanos”, incluindo execuções sancionadas pelo governo, casos de tortura e “condições prisionais duras e com risco à vida”.

Diversos venezuelanos enviados a uma prisão salvadorenha pelo governo Trump relataram ter sofrido espancamentos recorrentes.

O presidente Donald Trump e Nayib Bukele, o presidente de El Salvador, se encontram na Casa Branca em abril: proximidade ideológica cada vez maior
 Foto: Al Drago/The Washington Post

Os rascunhos vazados mostram como o governo Trump está reformulando radicalmente o papel dos EUA na defesa dos direitos humanos no mundo. Os documentos estão alinhados com diretrizes internas distribuídas neste ano por líderes do Departamento de Estado, que orientaram diplomatas a reduzir os relatórios ao mínimo exigido por lei e por ordens executivas assinadas pelo presidente Trump — removendo referências a corrupção, crimes de gênero e outros abusos historicamente documentados pelo governo americano.

O Departamento de Estado se recusou a comentar os documentos analisados pelo Post. “O relatório de direitos humanos de 2024 foi reestruturado para eliminar redundâncias, aumentar a legibilidade e ser mais responsivo ao mandato legislativo que o fundamenta”, disse um alto funcionário do Departamento, sob condição de anonimato, na quarta-feira. “O relatório foca nas questões centrais.”

Segundo esse funcionário, o governo Trump dará novo destaque a temas como o retrocesso na liberdade de expressão em países aliados dos EUA —mesmo enquanto enfrenta críticas por tentar deportar estrangeiros que estudam nos EUA e criticaram a atuação de Israel em Gaza.

Diplomatas americanos produzem os relatórios anuais de direitos humanos há quase 50 anos. Eles são considerados os mais completos e detalhados do mundo e são usados por tribunais dentro e fora dos EUA.

Os relatórios são obrigatórios por lei e devem ser enviados ao Congresso até o fim de fevereiro, sendo normalmente publicados em março ou abril.

O Departamento ainda não divulgou oficialmente os relatórios deste ano, que cobrem o ano de 2024. Segundo fontes atuais e ex-funcionários do governo, a maioria dos relatórios estava quase pronta quando Biden deixou o poder, em janeiro.

Os rascunhos de El Salvador e Rússia estão marcados como finalizados, enquanto o de Israel está em “verificação de qualidade”. Todos foram editados nos últimos dias. Não está claro se os relatórios que serão enviados ao Congresso e publicados refletirão exatamente os rascunhos.

As diretrizes internas citadas acima foram escritas por Samuel Samson, indicado político de Trump para o Departamento de Estado. Inicialmente pouco conhecido em Washington, Samson ganhou atenção ao publicar, em maio, um artigo no Substack da departamento criticando a Europa, que chamou de “foco de censura digital, migração em massa, restrições à liberdade religiosa e outros ataques à autodeterminação democrática”.

Samson foi encarregado de revisar os relatórios de El Salvador, Israel e Rússia.

Embora todos os três rascunhos ainda mencionem abusos de direitos humanos, eles foram bastante reduzidos em relação ao ano anterior, com mudanças significativas. O relatório preliminar de Israel, por exemplo, tem 25 páginas —o anterior tinha mais de cem.

O premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, durante um jantar com o presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca
 Foto: Tom Brenner/The Washington Post

Na comparação dos documentos sobre El Salvador, nota-se uma tentativa de minimizar o histórico de violência carcerária, destacando a redução geral dos índices e afirmando que as mortes relatadas estão “sob análise do governo”. Trump elogiou publicamente o presidente salvadorenho Nayib Bukele e o recebeu na Casa Branca neste ano, após firmar acordo para deportar pessoas para a notória megaprisão do país.

A embaixada de El Salvador em Washington não respondeu perguntas da reportagem.

O escrutínio sobre corrupção e independência judicial também foi significativamente reduzido no rascunho sobre Israel. O relatório de 2023, sob Biden, abordava o julgamento de corrupção contra o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu —aliado de Trump— e as reformas judiciais que, segundo críticos, ameaçam a independência do Judiciário israelense. O novo rascunho não menciona nem o julgamento nem essas ameaças.

Relatórios anteriores também destacavam o uso de vigilância contra palestinos e restrições à sua movimentação, incluindo uma denúncia da Anistia Internacional sobre o uso de sistema experimental de reconhecimento facial por Israel para controlar palestinos. O tema não aparece no rascunho.

A embaixada de Israel também não respondeu a perguntas. Os rascunhos analisados pelo Post não trazem referências à violência de gênero nem a crimes contra pessoas LGBT. Keifer Buckingham, que atuou nessas áreas no Departamento até janeiro, classificou como uma “omissão gritante” no caso da Rússia, cujo Supremo Tribunal baniu organizações LGBT e as rotulou como extremistas, promovendo batidas e prisões no último ano.

Duquesa de Tax: A história do eleitor de Trump que apoiou as tarifas e agora se arrepende

No programa ‘Fala, Duquesa!’ desta quarta-feira, 6, a colunista reage ao comentário de um produtor americano que acreditava que não seria afetado pelas tarifas. Crédito: Edição: Jefferson Perleberg/Estadão

A embaixada da Rússia não respondeu a perguntas.

Buckingham criticou o secretário de Estado, Marco Rubio, que, durante anos como senador, foi um defensor dos direitos humanos.

“O secretário Rubio repetidamente afirmou que seu Departamento de Estado não abandonou os direitos humanos, mas é evidente, por esta e outras ações, que este governo só se importa com os direitos de certas pessoas… em certos países… quando isso lhe convém”, afirmou Buckingham, hoje diretor-gerente do Council for Global Equality.

Quando integrava o Comitê de Relações Exteriores do Senado, Rubio elogiava os relatórios de direitos humanos. Em 2012, declarou que “o mundo tem sido um lugar melhor [há dois séculos] porque os EUA se esforçam para defender esses direitos fundamentais aqui e no exterior.”

“O relatório anual do Departamento de Estado lança luz sobre o fracasso de governos estrangeiros em respeitar os direitos fundamentais de seus cidadãos”, disse ele na época, ressaltando a importância de mostrar que “os EUA estão ao lado dos povos que buscam liberdade ao redor do mundo e não toleram violações contra seus direitos.”

A nova posição dos EUA em direitos humanos acompanha uma mudança também na promoção da democracia. Em um telegrama diplomático enviado em julho, Rubio instruiu diplomatas a não comentarem publicamente sobre eleições em outros países —inclusive sobre se foram “livres e justas” — exceto quando houver “claro e imperioso interesse de política externa dos EUA”.

A medida representa uma ruptura com a prática histórica dos EUA —inclusive sob o próprio Rubio. Desde janeiro, o secretário chegou a parabenizar líderes de Trinidad e Tobago e do Equador por realizarem eleições “livres e justas”.

No mês passado, o governo Trump aumentou sanções contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, acirrando a tensão com o governo Lula por conta do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de envolvimento em uma tentativa de golpe em 2022.

Ao anunciar as sanções, o Departamento do Tesouro dos EUA citou a Lei Magnitsky —que permite a imposição de penalidades a estrangeiros acusados de corrupção ou violações de direitos humanos.

Em nota, Rubio disse que Moraes cometeu “graves abusos de direitos humanos, incluindo detenções arbitrárias com flagrantes negações de garantias de julgamento justo e violações da liberdade de expressão”.

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