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A produtividade do campo se supera, de novo, e puxa a economia

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
29/06/2025
no Agro
Tempo de leitura:8 minutos de leitura
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O Brasil está colhendo em 2025 mais uma safra recorde de grãos: 336 milhões de toneladas, segundo a projeção mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O avanço de 13% em relação ao volume da safra anterior reforça o peso do setor, que responde por 23% do PIB e tem sido o principal motor da economia brasileira nos últimos anos. Mesmo diante de tensões geopolíticas, mudanças climáticas e instabilidade macroeconômica, o agronegócio mantém sua trajetória ascendente — agora desafiado a se reinventar para sustentar esse protagonismo no longo prazo.

A colheita abundante não se traduz automaticamente em lucros. “Mais do que toneladas, o que importa é a rentabilidade. O verdadeiro resultado do setor está na renda gerada, não no peso da safra”, diz Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura. O município de Sorriso (MT), maior produtor de soja do mundo e líder nacional na produção de milho, ilustra o paradoxo. “O fato de o Brasil bater recordes de produção e exportação não significa que o produtor está faturando alto. Muito pelo contrário”, diz Diogo Damiani, presidente do Sindicato Rural local. Enquanto os preços das commodities agrícolas recuaram para níveis de 2019-2020, os custos operacionais subiram de 43 para 57 sacas por hectare em dez anos. A produtividade média da região — entre 65 e 66 sacas por hectare — ainda assegura alguma margem, mas bem menor do que em ciclos anteriores.

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A compressão nas margens expõe gargalos estruturais antigos, como a logística precária do interior do país. “O Brasil é altamente eficiente dentro da porteira, mas perde competitividade no escoamento da produção”, resume Aurélio Pavinato, presidente da SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de commodities do país. O frete do grão da fazenda ao porto custa entre 60 e 80 dólares por tonelada — valor que poderia diminuir um terço com infraestrutura adequada. Isso, nas contas de Pavinato, aumentaria em até 7 pontos percentuais a margem do produtor de soja. “Isso é muito dinheiro”, diz.

Esse problema se intensifica no Centro-Oeste, onde está concentrada metade da produção nacional de grãos. A ocupação agrícola da região, iniciada nos anos 1970, não foi acompanhada por implantação de armazéns, ferrovias e portos. “Nós fomos para o Centro-Oeste no século passado. Mas o trem não foi, a estrada não foi, o porto não foi, o armazém não foi”, critica Rodrigues. Em Mato Grosso, estado que é o maior produtor de grãos do país, só 40% da safra pode ser armazenada localmente. “O restante precisa ser escoado rapidamente — mesmo quando os preços não são favoráveis”, afirma Damiani.

Outra vulnerabilidade crônica do setor é a baixa cobertura do seguro rural. Embora o volume de crédito rural ultrapasse 500 bilhões de reais, o governo federal destina apenas 1 bilhão por ano para subvenção do seguro — valor considerado irrisório por especialistas. Sem essa proteção, o produtor fica mais exposto a perdas com intempéries climáticas e volatilidade de preços. “O seguro rural é a base de uma política de renda. Sem ele, qualquer evento climático pode comprometer a saúde financeira do produtor”, afirma Rodrigues. Para o ex-ministro, seria necessário o investimento de no mínimo 1% do volume total do crédito rural na subvenção do seguro.

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Apesar das dificuldades, o agronegócio brasileiro é um caso raro de reinvenção constante. Sua resiliência se deve, em grande parte, à capacidade de incorporar inovações e evoluir tecnicamente. Marcos Jank, professor da faculdade Insper e coordenador do centro Insper Agro Global, identifica quatro grandes ondas tecnológicas que moldaram o setor: a primeira (1970-1990), com a ocupação do Cerrado e a tropicalização das lavouras; a segunda (1990-2010), com a chegada dos transgênicos e a integração lavoura-­pecuária; a terceira (2010-presente), marcada pela agricultura de precisão e pelo foco em baixo carbono; e a quarta, que toma impulso agora, leva ao campo tecnologias disruptivas como inteligência artificial, big data, blockchain e robótica.

Fazenda da Case IH: a tecnologia aumenta a produtividade no campo
Fazenda da Case IH: a tecnologia aumenta a produtividade no campo (./Divulgação)

O impacto desses avanços é evidente. Entre 1990 e hoje, a área plantada de grãos no Brasil cresceu 115%, enquanto a produção aumentou 456%. “Se o país mantivesse hoje a produtividade de 1990, seriam necessários mais 123 milhões de hectares para colher o que colhe”, diz Rodrigues. A eficiência não se limitou ao uso da terra. Entre 1980 e 2020, o Brasil teve um crescimento médio anual de 2,5% na produtividade total dos fatores — indicador que mede a eficiência conjunta no uso de terra, capital e trabalho. “O Brasil é o país que mais aumentou sua produtividade total de fatores nas últimas duas décadas”, afirma Jank. “Isso mostra nossa capacidade de produzir mais com menos.”

Mas os desafios estão crescendo. Para Jank, as duas maiores ameaças ao agro vêm de fora da porteira. A primeira é a instabilidade econômica — juros altos, câmbio volátil e insegurança jurídica. A segunda é a geopolítica: com tensões comerciais, novas barreiras e exigências ambientais. “O Brasil vive no curto prazo, com leituras rasas sobre um mundo cada vez mais complexo. O agro precisa de inteligência estratégica para continuar avançando”, diz.

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Entre as novas exigências do mercado, destaca-se a crescente pressão por rastreabilidade e sustentabilidade. “O maior gargalo para exportação do agro brasileiro hoje é provar que a produção não está ligada a desmatamento ilegal”, afirma Ana Paula Packer, chefe da Embrapa Meio Ambiente. A exigência vem especialmente da União Europeia, que está adotando novas diretrizes ambientais. Empresas como a SLC se anteciparam: desde 2021, a companhia optou por não expandir suas operações em áreas desmatadas — mesmo legalmente. “Não basta rastrear: é preciso garantir que o produto seja sustentável e de qualidade”, diz Pavinato.

Mariana Vasconcelos, da Agrosmart: sensores ajudam a planejar a irrigação
Mariana Vasconcelos, da Agrosmart: sensores ajudam a planejar a irrigação (./Divulgação)

Nesse contexto, a agricultura regenerativa ganha espaço. A SLC já adota técnicas como plantio direto, cobertura de solo, rotação de culturas e bioinsumos em todas as suas 23 fazendas. Seis unidades já estão certificadas, e a meta é atingir 100% até 2030. “A agricultura regenerativa nada mais é do que fazer agronomia bem-feita, com ganhos ambientais e econômicos”, afirma Pavinato.

A transição é também estratégica. Segundo Jank, em países pobres, como na África e em parte da Ásia, o foco ainda é produzir comida barata e acessível. Já nos ricos, como Japão, Coreia do Sul e os da Europa, o consumidor exige rastreabilidade, certificações, bem-estar animal e baixa pegada de carbono. Para o professor do Insper, o Brasil é um raro país com capacidade de atender aos dois tipos de mercado: de commodities em grande escala e nichos sofisticados. “Hoje, 66% das exportações do agro vão para a Ásia, e temos potencial de crescer tanto em volume quanto em valor agregado”, diz Jank.

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A sustentabilidade passa também pela digitalização. A fabricante de máquinas agrícolas Case IH equipa 100% de suas colheitadeiras com o sistema Automation, que realiza até 1 800 ajustes automáticos por jornada — algo impossível para um operador manualmente. Em Água Boa (MT), a empresa criou a Fazenda Conectada, onde testa inovações como aplicação localizada de defensivos e redução do consumo de combustível. A produtividade ali é 7,4% superior à média do estado, com redução de 25% no uso de diesel e 34% na pegada de carbono. Uma das maiores apostas são os motores a etanol para tratores. A tecnologia está sendo desenvolvida do zero para usar o biocombustível com eficiência. “No campo, diferentemente de um carro flex, não dá para parar a máquina a toda hora para abastecer — isso torna a operação ineficiente”, diz Eduardo Penha, diretor comercial da Case IH. “Essa tecnologia vai ser uma revolução no campo porque alia sustentabilidade, independência energética e o uso de um combustível que o Brasil já domina.”

A startup Agrosmart, especializada em inteligência climática, também aposta em tecnologia para apoiar o produtor. Com sensores, estações meteorológicas e dados de mais de 100 000 propriedades, a plataforma ajuda a planejar irrigação, prever geadas e antecipar eventos extremos. Em 2023, contribuiu para uma economia de 42 bilhões de litros de água, 234 000 MWh de energia e evitou a emissão de cerca de 10 000 toneladas de gás carbônico. “Sem saber onde estamos e para onde vamos, não há como transformar o modelo de produção”, afirma Mariana Vasconcelos, cofundadora e presidente da Agrosmart. Ela observa uma mudança no comportamento do produtor, agora mais atento aos impactos das mudanças climáticas. “Antes, a preocupação era se ia chover amanhã. Agora, é como se preparar para eventos extremos recorrentes como o El Niño, enchentes e secas prolongadas.” Mas alerta: com apenas 20% da área rural do país coberta por 4G, a conectividade ainda é um desafio.

Mostrar ao mundo esses avanços — e provar, com dados, que o agro brasileiro pode ser parte da solução climática — será fundamental na COP30. A Conferência do Clima da ONU, que acontecerá em Belém (PA) em novembro deste ano, será uma vitrine para o país demonstrar sua liderança na produção sustentável. “Precisamos de uma narrativa coordenada, com apoio do governo, que mostre ao mundo o que estamos fazendo”, afirma Packer, da Embrapa Meio Ambiente. Segundo ela, o Plano ABC+ já define boas práticas, como fixação biológica de nitrogênio, plantio direto e uso de bioinsumos. O desafio agora é mensurar e comunicar esses avanços.

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Aurélio Pavinato, presidente da SLC: “O Brasil é eficiente dentro da porteira”
Aurélio Pavinato, presidente da SLC: “O Brasil é eficiente dentro da porteira” (Eduardo Rocha/.)

O ex-ministro Rodrigues complementa: “A pecuária moderna, com pasto bem manejado, sequestra mais carbono do que o boi emite em gás metano”. Mas ele reconhece o desafio reputacional: “O Brasil tem diversos indicadores positivos, mas uma simples foto de uma árvore derrubada com uma vaca pastando ao lado fala mais alto para o consumidor europeu, mesmo que represente uma exceção”. Jank resume a posição do país no debate climático global: “O Brasil tem três papéis: vítima, vilão e solução”. É vítima das mudanças climáticas, é visto como vilão por causa do desmatamento ilegal — mas tem potencial de ser solução com um modelo tropical sustentável de produção de alimentos. Cabe decidir qual desses papéis vamos desempenhar — e construir, com estratégia, políticas públicas e diplomacia, a imagem que o mundo verá na COP30 e adiante.

Publicado em VEJA, junho de 2025, edição VEJA Negócios nº 15

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