Cada geração de americanos parece ter algum problema com o carro da família que veio antes dela. As peruas deram lugar às minivans, que acabaram cedendo espaço nas garagens dos Estados Unidos aos SUVs. Agora, talvez seja a vez de a geração Z torcer o nariz para o SUV da família. Em seu lugar, os jovens estão escolhendo o clássico sedã.
Uma análise publicada em setembro pelo Compare.com, site de comparação de seguros, avaliou mais de 58 milhões de cotações de seguro de automóveis e constatou que oito dos dez modelos mais usados pela geração Z eram sedãs. Honda Civic, Honda Accord e Toyota Camry lideravam a lista. Os outros dois eram picapes grandes: Ford Série F e Chevrolet Silverado. Nenhum SUV apareceu no ranking.
Quanto mais jovem a geração, maior parece ser sua afinidade com os sedãs, enquanto os SUVs perdem espaço nas listas. Entre os millennials, seis dos dez modelos mais populares eram sedãs. Na geração X, eram cinco; entre os baby boomers, apenas três. No grupo mais velho, cinco dos dez modelos eram SUVs.
E não se trata de um único estudo. Um relatório de fevereiro da consultoria automotiva Escalent, que ouviu mais de mil adolescentes de 14 a 19 anos, revelou que 51% se imaginavam dirigindo um sedã no futuro. Outros 31% se viam em um SUV, enquanto 14% escolheram uma picape.
Um estudo da YouGov publicado em maio de 2025 identificou um padrão semelhante entre os jovens adultos que já dirigem. Entre os americanos de 18 a 29 anos, 37% disseram que seu principal veículo era um sedã, ante 30% que usavam um SUV ou crossover.
Afinal, o que a geração Z vê no modesto sedã?
Para começar, o preço. Segundo dados da Kelley Blue Book, da Cox Automotive, um carro compacto novo foi vendido, em média, por US$ 27.977 em setembro. Um SUV compacto custou US$ 37.614, enquanto um SUV médio saiu por US$ 50.630. Essa diferença pesa para uma geração que, como já mostrou a *Fortune*, afirma enfrentar dificuldades para progredir financeiramente, apesar de ter começado a construir patrimônio mais cedo que as anteriores.
Os compradores mais jovens também dão sinais de conter os gastos na compra do carro. Conforme reportagem anterior da Fortune, 55% dos integrantes da geração Z ouvidos em uma pesquisa de 2023 do Cars.com haviam comprado um veículo usado.
Dados mais recentes da LendingTree mostraram que 51,5% dos consumidores da geração Z com financiamentos de veículos em andamento haviam contratado originalmente menos de US$ 25 mil. Entre os millennials, a proporção era de 36,2%; na geração X, de 31,4%. Para uma geração atenta ao orçamento, um sedã acessível pode fazer mais sentido financeiro do que um SUV maior.
Também há a questão de quanto espaço os jovens americanos realmente precisam. Uma análise do Pew Research Center, baseada em dados de pesquisas federais, constatou que, em 2023, os americanos de 20 a 39 anos tinham ou planejavam ter, em média, 1,8 filho. Em 2012, eram 2,3.
Os SUVs não vão desaparecer
Apesar do aparente entusiasmo da geração Z pelos sedãs, os SUVs ainda dominam as garagens americanas. Uma análise da YouGov de novembro de 2025 mostrou que 41% dos proprietários de automóveis nos Estados Unidos usavam principalmente um SUV ou crossover, ante 30% que dirigiam sedãs. Entre os donos de SUVs que planejavam comprar outro veículo em até um ano, 66% pretendiam continuar na categoria.
As necessidades familiares também podem mudar essa equação. Uma pesquisa da Mazda realizada em 2024, com 1.776 pais e mães americanos, revelou que 96% disseram que ter filhos havia influenciado suas escolhas de veículos. Para 48%, aumentou a preferência por mais lugares; para 46%, por espaço adicional para bagagem.
“Acreditamos que se trata mais de uma mudança geracional, semelhante à passagem das peruas para as minivans nos anos 1980 e das minivans para os SUVs nos anos 1990 e 2000”, disse à Fortune K.C. Boyce, vice-presidente de automóveis e mobilidade da Escalent.
Boyce reconheceu que alguns motoristas da geração Z podem migrar para os SUVs ao formar uma família. Ainda assim, acredita que o interesse dessa geração pelos sedãs é forte o suficiente para impulsionar as vendas desses modelos entre seus integrantes.
Sean Tucker, editor-executivo da Kelley Blue Book, da Cox Automotive, não tem tanta certeza.
“O preço mais acessível provavelmente é o principal fator”, afirmou Tucker à *Fortune*. Ele suspeita que a geração Z compraria SUVs se houvesse opções mais baratas. O especialista descreveu a popularidade dos veículos mais altos como uma “guerra de altura”, na qual os motoristas querem, cada vez mais, enxergar por cima dos carros à frente.
Detroit muda de ideia
Para as fabricantes de Detroit, o que está em jogo vai muito além de uma preferência geracional.
Após anos priorizando SUVs e picapes mais lucrativos, a Ford encerrou, em 2020, a produção de seu último sedã destinado ao mercado americano, o Fusion. A Chevrolet, da General Motors, fez o mesmo com seu último sedã de grande volume, o Malibu, em 2024.
“O mercado de sedãs é muito dinâmico”, disse Jim Farley, CEO da Ford, ao *Automotive News*, durante o Salão de Detroit, em janeiro. “Não é que não exista mercado. É que não encontramos uma maneira de competir e ter lucro.”
Agora, Detroit está reconsiderando essa decisão. Ford e GM avaliam uma possível volta aos sedãs à medida que os consumidores procuram veículos mais acessíveis, informou o The Wall Street Journal em fevereiro.
O presidente da GM, Mark Reuss, disse em uma reunião interna da empresa que “daria tudo para ter um sedã híbrido”. Já a Ford informou aos concessionários, em fevereiro, que planeja lançar cinco modelos inteiramente novos com preços abaixo de US$ 40 mil até 2030, abrangendo sua linha de “carros, picapes, SUVs e vans”, segundo o *Automotive News*.
Boyce alertou que as fabricantes americanas precisam repensar suas estratégias de produto agora. Caso contrário, correm o risco de perder a próxima geração de compradores para concorrentes japonesas e sul-coreanas que continuam oferecendo sedãs.
Tucker, por sua vez, vê uma possível solução nos veículos elétricos. Segundo ele, a flexibilidade de suas plataformas pode reduzir o custo de desenvolvimento de diferentes modelos. Como exemplo, citou a Universal Electric Vehicle Platform, da Ford, que servirá de base para a Ford Fathom, picape elétrica média com preço inicial pouco abaixo de US$ 30 mil e abertura de reservas prevista para o início de 2027.
A Ford “poderia facilmente desenvolver um sedã a partir dela se o mercado demonstrasse interesse”, afirmou.
A pergunta continua: a geração Z ainda vai querer sedãs quando os filhos e os salários maiores entrarem em cena?
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