Os eleitores americanos disseram um sonoro “não” às políticas do presidente Donald Trump. Candidatos republicanos a deputados, senadores e governadores perderam em redutos históricos do partido, como Texas, Kansas, Iowa e Carolina do Sul, assim como Estados que mais recentemente haviam se tornado seguros para eles, como Ohio e Carolina do Norte. Além disso, os democratas preservaram cadeiras em disputa no Michigan e na Geórgia.
O Kansas não elegia um senador democrata desde 1932 e o Texas, desde 1988. Trump foi particularmente responsável pela perda da cadeira no Texas, ao impor, contra a vontade de dirigentes do partido no Estado, o candidato Ken Paxton, ex-procurador-geral estadual acusado de abuso de poder, corrupção e adultério. O governador republicano Greg Abbott, até então um fiel aliado de Trump, foi derrotado na tentativa de conquistar um quarto mandato. Tipicamente, Trump rompeu com ele logo depois da derrota, chamando-o de “Rino” (sigla em inglês de “republicano apenas no nome”).
Os democratas conquistaram ao menos 54 cadeiras no Senado e os republicanos, 44. Outras duas ainda estavam em aberto na manhã desta quarta-feira. No Senado atual, a maioria republicana é de 53 a 47. Na Câmara, os democratas conquistaram 27 cadeiras dos republicanos, elegendo ao menos 228 deputados, ante 139. Ainda faltam definir algumas cadeiras, mas os democratas já haviam ultrapassado com tranquilidade a maioria simples de 218, antes mantida pelos republicanos.
Partidos de oposição costumam vencer eleições de meio de mandato, mas o que aconteceu nessa terça-feira é incomum. A começar pelo comparecimento, estimado entre 120 e 125 milhões de eleitores. Metade deles votou antecipadamente, de forma presencial ou pelo correio, demonstrando a determinação de dar o seu recado nas urnas. Em 2018, na primeira eleição de meio de mandato de Trump, o comparecimento de 118,6 milhões, ou 50,05% dos americanos com direito ao voto, já foi considerado muito alto. Em 2022, no governo de Joe Biden, recuou para 112,0 milhões.
A derrota republicana é ainda mais significativa quando se leva em conta o volume de investimento na campanha. O Partido Republicano gastou US$ 2,2 bilhões nessas eleições; o Democrata, US$ 1,3 bilhão. Esse dinheiro foi fundamental para os republicanos mobilizarem eleitores desanimados, que pretendiam se abster. Sem isso, a derrota poderia ter sido ainda maior.
O maior investidor na campanha republicana, e maior perdedor, em termos econômicos, foi Elon Musk. Ele gastou o valor inédito de US$ 474 milhões no nível nacional, dos quais US$ 212 milhões no Texas, onde estão concentradas operações estratégicas da SpaceX, da Tesla e da Starlink, que têm interesses diretamente afetados por decisões regulatórias estaduais e federais em áreas como meio ambiente, energia, missões espaciais e telecomunicações.
A vitória democrata foi por margens tão altas e geograficamente tão abrangente que Trump não encontrou condições de atribuí-la a supostas fraudes eleitorais. Ele lançou mão então, já na noite de terça-feira, da segunda justificativa que havia preparado: “Eu não estava na cédula”. De fato, ele não estava. Mesmo assim, o sentido da alegação é tão falso quanto seria a de fraude, embora menos danoso à democracia americana.
Conforme indicam todas as pesquisas ao longo de meses, os eleitores, sobretudo republicanos e independentes, não votaram contra o Partido Republicano, mas contra as políticas do presidente, que não só não resolveram, como agravaram seus problemas econômicos.
As tarifas, a expulsão em massa de imigrantes e a guerra contra o Irã aumentaram os preços já altos dos alimentos, combustíveis, medicamentos, moradia, implementos e insumos agrícolas.
A empresa de análise de riscos Moody’s calculou o custo médio dessas políticas para cada família americana: US$ 2.147, dos quais US$1.227 em combustíveis; US$559 em juros de financiamento de moradia e cartão de crédito, entre outras dívidas; e US$361 pelos gastos militares da guerra contra o Irã, um tipo de aventura que Trump havia prometido explicitamente não realizar.
Muitas pessoas atribuirão a vitória democrata à esquerda. Não é esse o caso. As políticas de Trump violam as posições ortodoxas do Partido Republicano, no que diz respeito à economia. O que saiu derrotado foi o trumpismo.
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