As eleições de meio de mandato nos EUA funcionam como um referendo sobre o presidente de ocasião. Realizadas dois anos depois da eleição presidencial, renovam toda a Câmara dos Representantes e parte do Senado. Em 2026, é um terço da câmara alta. Com pouquíssimas exceções na História, o partido que lidera o Executivo perde cadeiras. Mas o que ocorreu foi uma “onda azul” pelos EUA, movida especialmente por ampla rejeição ao presidente Donald Trump.
Os democratas, identificados com a cor azul, estabeleceram uma maioria na Câmara. No Senado, a disputa era mais difícil, já que são menos cadeiras em disputa, mas era perfeitamente possível que os republicanos, identificados com a cor vermelha, fossem minoria nessa casa também. Foi o que aconteceu.
Algumas vitórias são profundamente simbólicas. Por exemplo, é possível que os democratas elejam senadores no Kansas e no Texas, depois de décadas de domínio republicano. Os resultados finais, claro, devem demorar dias para serem oficializados, dada a contagem manual em muitos locais.
São muitas as explicações dessa “onda azul” e da rejeição aos republicanos e a Trump. O alto custo de vida e a inflação são um deles. Desde primeiro de março, os cidadãos dos EUA gastaram US$ 142 bilhões de à mais em combustível do que no mesmo período do ano passado. A escolha da data é simples. Trata-se da consequência da guerra contra o Irã iniciada pelos EUA e por Israel, ferindo uma das principais críticas de Trump aos seus antecessores, que era o envolvimento em guerras no Oriente Médio.
Trump é diretamente responsável por isso. Enquanto isso, os cidadãos olham a família Trump enriquecendo, o genro e os filhos do presidente participando de negociações pouco republicanas. O presidente abraçando os representantes das big techs, criando crises com os vizinhos, colocando uma milícia despreparada nas ruas para prender e deportar pessoas sem o devido processo legal, causando mortes de cidadãos dos EUA. E, claro, criando um factóide aqui e ali, como renomear o Lago Ontário, para não falar mais dos arquivos Epstein.
Com os democratas conquistando as duas casas, eles poderão legislar, investigar ainda mais o governo, fiscalizar os negócios envolvendo da família Trump e a passagem de Elon Musk pelo governo. Também terão mais controle do orçamento e poderão bloquear nomeações de Trump. Poderiam até mesmo abrir um processo de impeachment contra Trump na Câmara, embora a remoção dependesse de dois terços do Senado, que não terão. Também não conseguirão derubar vetos presidenciais, e Trump já disse que, nesse cenário, se tornará o “senhor veto”, para forçar barganhas com o Congresso.
O que pensam os norte-americanos de Atlanta nestas eleições de meio de mandato?
Na Geórgia, muitos eleitores votaram antecipadamente e falaram com o ‘Estadão’ sobre sua insatisfação com a alta do custo de vida.
Importante mencionar que mesmo uma maioria democrata nas duas casas não significa terra arrasada para Trump. A caneta presidencial continua pesada. Trump manteria autoridade relevante em questões de defesa e de política externa. Historicamente, presidentes enfraquecidos internamente e sem possibilidade de reeleição recorreram à atuação internacional para preservar e projetar autoridade, ainda mais no caso de uma figura insegura e autoritária como Trump. Uma derrota legislativa poderia motivar uma postura mais agressiva sobre a América Latina, o Irã e a China.
E Trump sabe que sua aprovação está em baixa e que corre o risco de uma derrota esmagadora nas eleições. Além do Congresso Federal, os republicanos devem perder diversos governos estaduais.
O que Donald Trump está fazendo? Ele havia sinalizado que iria questionar a legitimidade dos pleitos. Já disse que só ia reconhecer resultados de “eleições honestas”. Ou seja, as em que ele não perder. Durante a madrugada, porém, reconheceu a derrota e disse que iria governar com os democratas. Mas deixou claro que fará uso de seu poder de veto.
O Departamento de Justiça, tomado por zelotas do movimento MAGA, já emitiu mais de cem intimações em treze estados, e o governo tentou restringir o voto pelo correio.
Em caso de não reconhecimento dos resultados, corria-se o risco de uma crise institucional com poucos precedentes na História dos EUA, em que um presidente recusaria reconhecer os congressistas eleitos.
E, no meio disso tudo, a briga dos bastidores pela sucessão de Trump já começou há muito. A Constituição impede um terceiro mandato e o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio, antigos críticos do presidente que se converteram em MAGA de ocasião, já brigam pelo favoritismo republicano na próxima eleição presidencial. Rei morto, rei posto.
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