Tony Hall representa bem a região do sudoeste da Pensilvânia. Seu pai era um operário que trabalhava em uma usina siderúrgica nos anos 70 e conseguia providenciar uma vida de classe média para a família. Mas a usina fechou, deixando mais de 5 mil funcionários desempregados, e a família ficou pobre.
Quando ele nasceu, em 1983, essa já era a realidade. Seu pai morreu de câncer no pulmão anos depois e Hall tem certeza de que ele adoeceu por conta de seu trabalho na usina. “O médico disse para ele parar de fumar, mas ele nunca fumou”.
Hoje, Hall é líder sindical e trabalha em uma fábrica de plástico em Beaver Falls, cidade com cerca de 9 mil habitantes. Ele conversou com a reportagem do Estadão em uma lanchonete local com uma atmosfera familiar de cidade pequena, onde todos se conhecem.
O líder sindical chama a atenção de longe. Ele usa uma bandana preta, tem o corpo coberto em tatuagens e possui alargadores e piercings. Hall usa o humor como ferramenta para expressar sua opinião sobre a cidade. “Toda a diversão já tinha acabado quando eu nasci, eu perdi a parte boa”.
Beaver Falls representa bem a decadência industrial do chamado Cinturão da Ferrugem, região conhecida antigamente pela pujança industrial, mas que decaiu economicamente com o fechamento de diversas fábricas e usinas entre os anos 60 e 80.
“Beaver Falls está morta. A população decaiu, a infraestrutura é horrível e simplesmente não tem trabalho para ninguém nem nada para fazer”, disse o líder sindical.
Trump impopular
A cidade faz parte do condado de Beaver, uma região predominantemente republicana na Pensilvânia. A área era considerada competitiva até 2016, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se candidatou pela primeira vez. Desde então, a vantagem do Partido Republicano só aumentou.
Regiões como Beaver foram importantes para a vitória de Trump na Pensilvânia, considerado o mais importante dos Estados-pêndulo, em 2016 e 2024. O presidente americano teve sucesso ao prometer o retorno dos chamados empregos industriais à região, que foi muito afetada pelo processo de globalização que levou boa parte da indústria americana para países como China e México.
Mas a situação mudou. Trump é considerado um presidente impopular, com apenas 32% de aprovação, segundo as pesquisas. A população está insatisfeita por conta de uma crise generalizada no custo de vida, em meio à alta da inflação e o aumento dos preços do diesel e da gasolina por conta da guerra no Irã.
A impopularidade do presidente americano afetou principalmente locais como Beaver Falls, que já sofriam com a decadência econômica. “Trump prometeu exatamente o que as pessoas daqui desejaram ouvir durante toda a vida, mas não entregou, então os habitantes daqui estão percebendo isso”.
Hall diz que nunca votou em Trump, mas tem muitos amigos que apoiaram o presidente americano no passado e agora são opositores. “No meu trabalho todos eram trumpistas, mas agora só sobrou um. Trump está afetando literalmente todo mundo. Tudo que estou pagando agora está mais caro do que nunca e é revoltante”.
Pobreza americana
Depois de uma conversa na lanchonete, o líder sindical acompanhou a reportagem do Estadão em um tour pela cidade.
Beaver Falls tem uma paisagem bonita, com colinas verdes no horizonte, mas sofre com falta de infraestrutura, empregos e uma perspectiva de futuro. A situação piorou perto do rio Beaver, onde as antigas usinas e fábricas ficavam. A estrutura foi demolida, mas o local parece preso no passado, com casas velhas e mal cuidadas que foram se deteriorando com o tempo.
O líder sindical diz que Beaver Falls sofre também com a crise do fentanil, principalmente entre os jovens da cidade, que tem poucas oportunidades de trabalho, apesar da proximidade com Pittsburgh, maior cidade da região que tem vivido um renascimento, principalmente por conta do setor de tecnologia.
Hall trabalha em uma empresa chamada Kenson Plastics, fábrica que produz peças plásticas para o setor de aviação e da saúde. A companhia emprega cerca de 45 pessoas e não tem outras filiais ao redor da Pensilvânia.
O líder sindical diz que possui casa própria, mas deveria estar em uma condição econômica melhor “por tudo que já trabalhou na vida”. “Eu deveria ter duas casas quitadas, com uma árvore no quintal e uma cerca, mas eu não tenho nada disso”.
Antes de ir embora, Hall sugere que a reportagem visite a cidade de Braddock. “Beaver Falls ainda tem bastante gente morando, mas Braddock virou uma cidade-fantasma”.
Cidade-fantasma
No dia seguinte, a reportagem do Estadão visitou Braddock, um município de apenas 2 mil pessoas que fica a 20 minutos de Pittsburgh. A cidade chegou a ter 20 mil habitantes na década de 1920, durante o apogeu da indústria siderúrgica local, e agora está em ruínas.
As ruas estão mal cuidadas e muitas lojas foram fechadas na principal região da cidade, perto da usina siderúrgica Edgar Thomson Works, a única de Braddock. A usina chegou a empregar quase 8 mil pessoas nos anos 40 e agora possui apenas 650 funcionários.
Durante uma caminhada, foi possível ver um playground interditado e a sede de um antigo banco. O local está completamente abandonado, com janelas quebradas, paredes despedaçadas e estrutura precária.
Eric Shae, um morador de Braddock de 33 anos, avalia que as perspectivas da cidade não são boas. “Não tem ninguém aqui, todo mundo foi embora”, disse ele. “Quando eu nasci, grande parte das usinas não estavam mais em funcionamento”.
Shae trabalhava como carteiro em Braddock, mas agora está desempregado. “Eu tenho vontade de sair daqui e conhecer outros lugares”.
Brasileira ajuda na reconstrução de Braddock
A três quarteirões da usina, a reportagem do Estadão percebeu uma aglomeração de pessoas perto de um container. Um grupo de voluntários de um projeto social chamado Free Store 15104 estava entregando alimentos, roupas e livros de graça para a população de Braddock.
A criadora do projeto é a brasileira-americana Gisele Barreto Fetterman, esposa do senador democrata John Fetterman, que foi prefeito de Braddock e se orgulha de morar em uma antiga concessionária de automóveis transformada em loft ao lado da usina da cidade.
Em entrevista ao Estadão, Gisele diz que o projeto visa estreitar os laços entre os moradores da cidade em meio às dificuldades. “Braddock é fantástica por conta das pessoas que vivem aqui, mas a cidade está abandonada e não tem investimento do governo”.
O projeto foi iniciado em 2012 com doações de lojas e supermercados da região. A iniciativa é importante porque Braddock não tem um supermercado próprio. “Falta muita infraestrutura. Não temos um grande supermercado e nem hospital. Muitas pessoas precisam ir embora”.
Gisele diz que a cidade tende a votar mais no Partido Democrata, mas os problemas são apolíticos. “Quando estamos em crise na vida, a gente só pensa em sobreviver”.
Eleições de meio de mandato
O pessimismo econômico predomina entre os eleitores americanos antes das eleições de meio de mandato, que serão realizadas no dia 3 de novembro. No pleito, toda a Câmara dos Deputados está em jogo, assim como 35 cadeiras do Senado.
Atualmente, o Partido Republicano tem maioria nas duas casas legislativas, mas os democratas são favoritos para retomarem o controle da Câmara dos Deputados. Já no Senado, o cenário está em aberto, com diversas eleições competitivas.
O caminho democrata passa pelos dois Estados visitados pela reportagem do Estadão: Ohio e Pensilvânia. O primeiro tem uma importante eleição para o Senado que pode devolver o controle da casa legislativa ao Partido Democrata e o segundo possui pelo menos quatro disputas competitivas na Câmara dos Deputados.
A oposição é favorita, principalmente por conta da impopularidade de Trump. Eleitores republicanos como o chefe de cozinha Brandyin Bernard estão considerando um voto de protesto contra a legenda do presidente americano.
“Eu votei em Trump três vezes. Eu não teria votado nele se soubesse o que ele ia fazer”, aponta Bernard, morador da cidade de Pataskala, município rural de Ohio. Ele é contra a política pró-data center de Donald Trump e a proximidade do presidente com empresários como Elon Musk.
“Eles estão tornando a América Grande de Novo”, diz o republicano com ironia. “Tudo está mais caro do que no governo Biden. Trump gosta de falar muito, mas não tem nada para mostrar de resultado”.
Ceticismo
Apesar das críticas a Trump, a insatisfação dos americanos que conversaram com a reportagem do Estadão é com o sistema bipartidário. Não existe grande animação por ambos os partidos e muitas pessoas preferem não votar.
Para Silas Russell, diretor do SEIU Healthcare PA, o maior sindicato de profissionais de enfermagem e trabalhadores da área da saúde do estado da Pensilvânia, os eleitores da classe trabalhadora estão frustrados com a desigualdade nos EUA, que atingiu a sua maior disparidade em três décadas, segundo dados do Federal Reserve (Fed, na sigla em inglês).
“Ambos os partidos são influenciados por um grupo muito restrito de corporações e bilionários”, destaca Russell. “O partido que quiser ganhar a confiança da classe trabalhadora precisa desafiar esse nível de concentração de riqueza”.
A dificuldade da população levou a questionamentos sobre a ideia de prosperidade nos Estados Unidos e o significado do chamado sonho americano.
Supostamente esse deveria ser o país das oportunidades, reclama Carlos Mora, um colombiano-americano que trabalha na PA United, organização comunitária que luta por justiça social na Pensilvânia. “A realidade silenciosa é que muita gente tem dois ou três empregos e não consegue pagar tudo no final do mês”.
O nível de frustração levou Tony Hall a não acreditar mais no sonho americano. “Esse sonho existe só para um grupo de elite, mas Hollywood faz parecer que grande parte dos EUA é assim”, explica o líder sindical.
“Mas grande parte dos EUA é como eu. Não somos mostrados nos filmes. Não somos mostrados em lugar nenhum”.
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