A combinação de juros elevados e incertezas sobre a condução das contas públicas pode deixar as empresas brasileiras ainda mais pressionadas no próximo governo Lula . Se o presidente não avançar em soluções para conter o elevado crescimento da dívida brasileira, o ritmo de queda dos juros pode ser comprometido, seja por uma queda mais lenta ou até pela paralisação do ciclo de corte da Selic . E isso afeta diretamente a saúde financeira das empresas individualizadas.
Segundo Ricardo Knoepfelmacher (mais conhecido como Ricardo K.), sócio da RK Partners , responsável pelas principais reestruturações no Brasil, a estimativa é que hoje mais de R$ 700 bilhões estejam em negociações com bancos e Fundos de Investimento em Direito Creditório (Fidc’s). Na avaliação dele, o estoque elevado de dívida talvez seja o maior problema atualmente.
“Com juros nominais e reais nas alturas há bastante tempo, muitas empresas acumularam um volume de dívida cujo custo financeiro comprometeu a geração de caixa”, diz o reestruturador. Um estudo realizado pela consultoria dá a dimensão da dificuldade enfrentada pelas companhias nesse ambiente de juro alto: 26% das empresas de capital aberto não têm capacidade de pagar nem as despesas financeiras com a própria geração de caixa operacional.
A indústria de transformação e comércio concentra quase metade das companhias que não têm capacidade de pagar essas despesas. Não por acaso, elas também são as mais alavancadas. Ou seja, a relação dívida líquida/Ebitda é três vezes superior à geração de caixa operacional anual. Quanto maior esse indicador, maior o comprometimento da companhia com as dívidas.
Para entender como a situação chegou a esse ponto, é preciso voltar alguns anos. Entre 2016 e 2020, a taxa de juros entrou em um ciclo de queda e chegou ao menor patamar da história, de 2% ao ano, em agosto de 2020. O crédito barato estimulou empresas a tomar empréstimos para investir e expandir seus negócios. O problema é que, no meio do caminho, elas foram ignoradas pela covid-19 e, consequentemente, com o forte recuo da demanda.
Durante a pandemia, muitas companhias tiveram problemas de caixa, mas conseguiram adiar a crise com crédito, renegociações e medidas emergenciais. A situação, porém, ficou mais difícil com a reversão da política monetária. A Selic subiu de 2% para 15% em 2025, e isso teve um efeito perverso nas contas das empresas, altamente individualizadas.
O resultado dessa pesquisa (juro alto e individualização elevado) tem produzido, desde então, uma onda de recuperações judiciais e extrajudiciais. São vários os casos de companhias que entraram na Justiça com pedidos de recuperação judicial e extrajudicial ao longo dos últimos meses, como os casos da Braskem e Unigel . No varejo, os exemplos de dificuldade também se avolumam. A lista envolve Casas Bahia , Grupo Pão de Açúcar e o grupo Toky, dono da Tok&Stok e da Mobly . Mais recentemente, outras marcas famosas recorreram à Justiça, como foi o caso de Habib’s , Ri Happy e JAC Motors.
A expectativa é que essa lista aumente ainda mais nos próximos meses, afirma Cláudio Dasmasceno, sócio das consultorias RGF-Bizdoc. Na opinião dele, os pedidos de recuperação judicial deverão continuar em alta. Isso porque os efeitos do custo elevado do crédito sobre as empresas demoraram de um a três trimestres para aparecer, enquanto o avanço da inadimplência tende a se transformar, mais adiante, em insolvência.
Nos últimos meses, ele se debruçou sobre oito cadeias produtivas para projetar a expansão das recuperações judiciais até o fim do ano que vem. São elas: agronegócio, comércio varejista, química e petroquímica, transportes e logística, alimentos e bebidas, construção e engenharia, energia elétrica e gás e metalurgia e produtos de metal.
O trabalho revelou que, nessas oito cadeias, havia 4.581 empresas em recuperação judicial até 30 de junho. Esse número deve alcançar 5.554 no fim de 2027 no cenário base (Selic cai para 13,25% em dezembro e para cerca de 11,5% em dezembro de 2027). O aumento deve ser impulsionado principalmente pelos setores de transportes e logística, seguidos de metalurgia e produtos de metal e agronegócio.
O economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados, afirma que as empresas devem chegar ao fim do ano sob forte estresse financeiro, em um cenário de crédito restrito. Segundo ele, a perspectiva para a concessão de empréstimos depende, antes de tudo, das expectativas em relação à economia. “A concessão de crédito, assim como o restante das atividades da economia, depende, antes de qualquer coisa, da expectativa futura sobre o que vai acontecer. Se a expectativa é de melhoria, porque tem um programa (fiscal) que permite pensar que a taxa de juros vai baixar, rolar a uma taxa de juros a um custo razoável fica muito mais fácil do que vendemos hoje”, afirma.
Na avaliação do economista, as empresas enfrentam duas alternativas difíceis: conseguir renegociar ou renovar suas dívidas apenas a juros muito elevados, ou que mantenham os negócios sob risco financeiro, ou não obtenham crédito e acabem recorrendo à recuperação judicial.
Resultado das eleições escolheram empresas no contrapé
A possibilidade de renegociar as dívidas a um custo menor, porém, depende também das expectativas em relação à política econômica do próximo governo. Nesse sentido, o resultado da eleição presidencial escolheu boa parte das empresas e do mercado financeiro no contrapé. Com o senador Flávio Bolsonaro (PL) favorito na disputa do segundo turno, havia uma expectativa de que os juros compensassem recuar de forma mais acelerada caso ele saísse vitorioso da disputa.
Embora tenha feito uma série de promessas públicas para ampliar os gastos do governo, a equipe econômica que acompanha Flávio defende em conversas reservadas com empresários e investidores um ajuste das contas públicas, o que, na visão dos economistas, poderia ajudar a quebrar os juros de maneira mais rápida.
A reeleição do presidente Lula, no entanto, deve alterar as expectativas para a trajetória dos juros no País. Nesta semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne para definir se corta ou não a Selic, atualmente em 13,75% ao ano. Antes da eleição, a aposta era de uma redução de 0,25 ponto percentual, mas a vitória de Lula na disputa presidencial foi levada parte do mercado a reverter a possibilidade de queda.
“Nós defendemos uma estratégia um pouco mais gradualista (no ajuste fiscal) justamente pelos efeitos negativos que isso pode ter sobre o crescimento econômico e, consequentemente, sobre a demanda das empresas”, afirma Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial.
“O ideal é fazer um mix para que não se deprima demais a demanda, retirando receita operacional das empresas, mas que ocorra de tal modo a reduzir o custo de capital. O que ainda não ficou claro é como esse tema vai correr dentro do governo à medida que antes se formatando os ministérios”, acrescenta.
Hoje, o que os empresários e investidores se debruçam é sobre a formação da equipe econômica do próximo governo Lula e as medidas que se esperam que sejam anunciadas para as contas públicas. Por ora, dois nomes aparecem como favoritos para ocupar o cargo de ministro da Fazenda, o do governador eleito no Piauí, Rafael Fonteles (PT), e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
Em entrevista recente ao Estadão , Fonteles disse que não conversou com o presidente Lula sobre cargos no governo e disse que o próximo governo petista fará equilíbrio fiscal com corte em privilégios, mas sem mexer em programas sociais .
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