O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), divulgou um posicionamento nesta quarta-feira (28) no qual afirma que, apesar de entender a “indignação” de Flávio Bolsonaro (PL), o caminho é “respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”.
“A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de Flávio, entendo sua indignação e sua revolta, e esse sentimento é o de muitos brasileiros também. Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente. O momento exige responsabilidade, serenidade e a construção de uma oposição forte, capaz de exercer seu papel. É assim, respeitando o processo democrático e trabalhando dentro das instituições, que vamos fortalecer o sistema de freios e contrapesos que sustenta a nossa democracia”, diz o texto enviado pelo governador.
Nesta quarta, após chegar aos EUA, Flávio publicou duas versões de uma carta com teor golpista. Na primeira versão, o senador se dizia o “verdadeiro presidente eleito” do Brasil após ser derrotado por uma diferença de 4,4 milhões de votos para Luiz Inácio Lula da Silva. Já na segunda, qualificou a si como “líder do Brasil”. Ambas as versões citam, sem provas, a existência de uma fraude nas urnas.
Para aliados do governador, a fuga de Flávio deixa Tarcísio “naturalmente fortalecido” como possível líder da direita. Na segunda-feira, um dia antes de cruzar a fronteira para a Argentina, Flávio falou em liderar a oposição contra Lula e disse que não sairia do país. Na carta divulgada nesta quarta, Flávio também anunciou que pretende comandar a oposição ao governo petista a partir do exterior. No documento, ele se dirige a quem votou nele e diz que será a “voz e a liderança livre da nação”.
Parlamentares e políticos próximos a Tarcísio ouvidos pelo GLOBO afirmam que a fuga repentina de Flávio causou “desconforto” porque soou contraditória com o que ele mesmo havia sinalizado no dia anterior, ainda que haja uma “compreensão” de alguns de que ele estaria apenas se protegendo de uma provável decretação de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Mas as mesmas fontes afirmam que, com o senador longe, recairá sobre Tarcísio a expectativa de comandar uma oposição contra Lula dentro do Brasil, e que o episódio reforça o nome dele para disputar a presidência em 2030.
Uma pessoa próxima ao governador diz que isso não virá de maneira fácil, e já espera atritos com a família Bolsonaro, devido ao histórico. A militância mais ligada ao bolsonarismo chegou a chamar Tarcísio de “traidor” quando ele apoiou a Reforma Tributária do governo Lula, em 2023, por exemplo, ou quando aplaudiu Alexandre de Moraes durante um evento em dezembro de 2025, no qual Lula também estava. Pavimentar esse caminho para se cacifar o candidato da direita no próximo pleito, diz outro aliado, exigirá “esforço e diálogo com a família Bolsonaro” para evitar “atritos”, avalia outra fonte.
Nas redes sociais, o movimento “Tarcísio 2030” já começou. Nos últimos dois dias, surgiram dezenas de páginas de apoiadores, apócrifas, conclamando em prol do governador como candidato a presidente na próxima eleição. No vídeo no qual Tarcísio reconhece o resultado da eleição e prega oposição a Lula, há vários comentários de seguidores usando expressões como “Tarcísio presidente” e defendendo que ele seja o candidato.
A possibilidade de Tarcísio concorrer ao Planalto não é uma novidade, e antes de Flávio ser consagrado o candidato ao cargo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2026, o governador era um dos mais cotados. Durante a campanha, Tarcísio fez uma campanha com aparições públicas pontuais com Flávio no primeiro turno e, a partir do segundo turno, embarcou com mais assiduidade no “projeto Flávio”: organizou eventos para o candidato do PL em São Paulo, gravou vídeos e áudios para a propaganda de TV e rádio, e até viajou o país para participar de eventos com o senador.
Um dos compromissos que Flávio fez tanto publicamente para seus eleitores, quanto nos bastidores para Tarcísio, foi que, se eleito, ele pautaria o projeto de fim da reeleição para presidente, o que abriria portas para que o chefe do Palácio dos Bandeirantes concorresse em 2030.
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