O Ibovespa inicia, nesta segunda-feira, 26, uma semana sob forte pressão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, neste domingo, 25. Logo no início do pregão, a B3 acionou o mecanismo de Circuit Breaker — quando as negociações são interrompidas por um período em momentos de forte volatilidade do mercado. Foi a primeira vez que essa paralisação foi acionada desde 2020, durante a pandemia.
Por volta das 10h48, após a retomada dos negócios, o Ibovespa abriu em queda de 16,8%, aos 170,4 mil pontos. Às 13h40, o índice ainda estava negativo em 15,7%.
Entre as ações que compõem o Ibov, as maiores baixas eram registradas nos papéis da Magazine Luiza (-57,4%), Vamos (56,8%) e C&A (-48,5%). Em comum, essas empresas têm forte relação com o desempenho da economia.
Os papéis da B3 também encostaram em 50% de queda na abertura do pregão, mas reduziram as perdas no início da tarde. Agora, a B3SA3 afunda 30%. Já as ações da Petrobras apresentam retração de 10,7%.
De acordo com levantamento feito pelo Broadcast, os bancos perderam R$ 249 bilhões em valor de mercado somente na primeira hora do pregão desta segunda. No início da tarde, o BTG, Banco do Brasil e Bradesco registravam as maiores desvalorizações entre as grandes instituições: afundavam 32,7%, 29,65% e 23%, respectivamente. Os papéis do Itaú caíam 15,4%, enquanto as ações do Santander, 4,3%.
O dólar também abriu em forte alta. Por volta das 10h30, a moeda estava cotada a R$ 5,60, com uma valorização de 12%. Logo depois, o movimento arrefeceu. Na última atualização, a cotação era de R$ 5,43. No pregão de sexta-feira, 23, o câmbio fechou a R$ 4,99, após recuo de 0,92%.
A alta do dólar ante o real, no mercado à vista, representa a pior reação do mercado de câmbio no Brasil desde 15 de janeiro de 1999, quando o País encerrou o regime de bandas cambiais e adotou o câmbio flutuante, em meio à moratória do governo de Minas Gerais e à saída de Gustavo Franco da presidência do Banco Central, afirma o estrategista da Sincra, Gustavo Cruz.
Segundo ele, o mercado está precificando incertezas sobre a condução da política fiscal pelo governo reeleito, pois o resultado das urnas chancelou as medidas de gastos adotadas na gestão Lula. Os investidores já esperavam que Flávio Bolsonaro não promovesse um ajuste fiscal profundo, mas contavam com a estabilização da dívida pública. Agora, a percepção é de que a relação entre dívida e PIB poderá voltar a crescer. Cruz ressalva que essa é uma percepção inicial, que pode piorar ou se reverter conforme as medidas fiscais anunciadas por Lula.
Antes da abertura da Bolsa brasileira, ativos do País negociados em Nova York já registravam quedas expressivas. Às 9h31, o EWZ, principal ETF brasileiro negociado em Nova York, caía 25,95%. O fundo replica uma carteira de ações do País e costuma funcionar como uma referência para o comportamento dos ativos brasileiros antes da abertura da B3.
Lula foi reeleito presidente do Brasil com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador Flávio Bolsonaro (PL) no pleito realizado neste domingo, 25.
A confirmação do quarto mandato do petista recoloca a política fiscal no centro das atenções dos investidores. Depois de semanas marcadas pelo chamado trade eleitoral, o mercado passa agora a ajustar as expectativas para a condução das contas públicas, o comportamento dos juros e os rumos da economia nos próximos quatro anos.
Economistas ouvidos pelo Broadcast avaliam que a intensidade e a duração da reação dos ativos dependerão principalmente dos primeiros sinais de credibilidade dados pelo novo governo. Entre os pontos que entram no radar estão a composição da equipe econômica, eventuais mudanças no arcabouço fiscal e medidas para conter o avanço da dívida pública.
A economista do Peterson Institute e conselheira do Cebri, Monica de Bolle, resume o desafio como um problema de confiança. Na avaliação dela, o governo precisará do apoio do mercado para avançar em um cenário de Congresso recém-eleito e ambiente internacional mais adverso.
De Bolle considera que o atual arcabouço fiscal “já está meio morto” e precisaria passar por uma revisão urgente. Ela defende um anúncio com impacto relevante sobre as contas públicas e cita como possibilidades a redução de desonerações e a reversão de gastos tributários. Para a economista, uma medida capaz de sinalizar compromisso fiscal deveria ter impacto de pelo menos R$ 40 bilhões.
Para a economista-chefe da Lifetime, Marcela Kawauti, a reeleição faz o mercado voltar a olhar o fiscal com preocupação, após um terceiro mandato marcado por aumento do endividamento e sucessivas exceções dentro do arcabouço. A consequência, segundo ela, pode aparecer no câmbio, com estimativas entre R$ 5,50 e R$ 6,00 em 2026 e 2027.
Já o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, considera provável algum ajuste fiscal, embora mais moderado do que seria sob um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Ele projeta um dólar mais próximo de R$ 5,40 de forma sustentada em 2027 e avalia que o desempenho dos ativos dependerá de como o governo vai se organizar e do que conseguirá aprovar.
André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, também considera necessário reordenar as contas públicas, mas defende que o processo ocorra de forma gradual. Na visão dele, maior previsibilidade fiscal tende a favorecer juros e câmbio, e uma reação negativa inicial dos mercados pode perder força à medida que medidas concretas sejam apresentadas.
Além do fiscal, o mercado também deve acompanhar a composição da nova equipe econômica e as indicações para o Banco Central.
O diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, avalia que a “duração e a intensidade” do ajuste dos preços de mercado dependerão das primeiras sinalizações do novo governo. As atenções estarão voltadas principalmente para o novo ministério, a equipe econômica, as diretorias vagas do Banco Central e as futuras indicações para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo Oliveira, esses nomes ajudarão a definir a percepção dos investidores sobre a orientação da política econômica, a qualidade institucional e o compromisso com a estabilidade macroeconômica.
Kawauti também chama a atenção para a renovação de cadeiras na diretoria do BC, com duas vagas já no horizonte e outras duas previstas para janeiro. Segundo ela, isso deixaria quase metade do Comitê de Política Monetária (Copom) indicada pelo presidente.
Na prática, o mercado tende a incorporar essas decisões ao prêmio de risco enquanto tenta antecipar o grau de continuidade ou mudança na condução da política monetária.
Agenda econômica no radar
Além da reação à eleição, investidores acompanham indicadores econômicos nesta segunda-feira.
Mais cedo, o Banco Central divulgou uma nova edição do Boletim Focus, com as projeções do mercado financeiro para inflação, Selic, câmbio e crescimento econômico. Para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026, a mediana caiu de 5,22% para 5,19% – 0,69 ponto porcentual acima da meta perseguida pelo Banco Central, de 4,50%.
Considerando apenas as 107 estimativas atualizadas nos últimos cinco dias úteis, mais sensíveis a novidades, a mediana passou de 5,19% para 5,20%. Já para a Selic, as estimativas para a taxa básica de juros no fim de 2026 ficaram em 13,25%.
Às 8h30, o BC apresentou os dados de transações correntes e investimento estrangeiro direto referentes a setembro. Segundo a autoridade monetária, a entrada líquida de Investimentos Diretos no País (IDP) somou US$ 11,294 bilhões no período. O resultado ficou acima do teto da pesquisa Projeções Broadcast, que apontavam entrada de US$ 10,100 bilhões. A mediana da pesquisa indicava entrada de US$ 6,500 bilhões no período.
Os indicadores ajudam a avaliar as necessidades de financiamento externo do Brasil e a capacidade do País de atrair capital de longo prazo.
Ainda no calendário doméstico, o mercado repercute o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) de outubro, que mede a percepção das famílias sobre a situação econômica atual e suas expectativas para os próximos meses. Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), o índice ficou em 84,7 pontos, retornando ao mesmo nível de agosto. Em médias móveis trimestrais, o índice recuou 1,2 ponto, para 84,5 pontos.
O que movimentou o Ibovespa na sexta-feira, 23
No último pregão, antes do segundo turno, o Ibovespa avançou 0,47%, aos 205.082,56 pontos, recuperando as perdas registradas no início da sessão. O dólar à vista recuou 0,92% frente ao real, cotado a R$ 4,9931, enquanto o EWZ, principal ETF (fundo de índice) de ações brasileiras negociado em Nova York, subiu 1,77%.
Entre as principais ações da B3, os papéis ordinários e preferenciais da Petrobras (PETR3; PETR4) avançaram 0,79% e 1,47%, respectivamente, acompanhando a valorização do petróleo no exterior. Já a Vale (VALE3) subiu 0,67%, em uma sessão de leve alta do minério de ferro em Singapura.
Na sexta, o Brent para dezembro avançou 3,14%, a US$ 116,72 por barril, enquanto o WTI para o mesmo mês subiu 3,82%, a US$ 103,27.
Em Nova York, os principais índices acionários encerraram a sexta-feira em queda, pressionados pela valorização do petróleo e pelas preocupações com o setor de inteligência artificial. O Dow Jones recuou 1,24%, enquanto o S&P 500 e o Nasdaq cederam 0,52% e 0,21%, respectivamente.
Fonte: Investing.com
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