A campanha de Flávio Bolsonaro diz que os alimentos estão muito caros devido à gestão Lula. Já a campanha de Lula diz que a culpa está na gestão do pai de Flávio. Vendo assim, parece que apenas uma das afirmações pode estar correta, certo? E se não for tão simples assim? Explico hoje uma categoria especial de desinformação: a omissão de contexto. Ela ocorre quando um dado verdadeiro, apresentado sem seu entorno, leva o leitor a uma conclusão falsa.
Como de praxe, começo pelos números disponíveis: a inflação acumulada (especificamente a do grupo alimentos). Comparando do início do mandato até setembro do quarto ano, estes são os percentuais acumulados pelo grupo alimentação no domicílio do IPCA (cálculo próprio com dados do IBGE): 52,9% sob Bolsonaro e 14,1% sob Lula.
Portanto, eu poderia encerrar por aqui. A alegação da campanha de Lula estaria correta. Mas falta um pequeno detalhe: dizer o que ocorreu naqueles anos. Tivemos simplesmente a mais mortal pandemia em 100 anos, que afetou cadeias de produção inteiras e causou inflação global (principalmente de alimentos). Em 2022, a guerra na Ucrânia ainda encareceu grãos e fertilizantes, e o índice de preços de alimentos da FAO bateu recorde histórico. Então podemos dizer, sim, que houve uma inflação maior sob Jair Bolsonaro, mas não podemos atribuí-la integralmente a ele devido a um importantíssimo contexto.
Por outro lado, a campanha de Flávio Bolsonaro fala no quão caros os alimentos estão e o quão pouco sobra no final do mês. Apesar de a renda estar em nível recorde (segundo o IBRE/FGV), a porcentagem de renda disponível (após despesas com alimentação, transporte, aluguel, medicamentos e serviço da dívida) vem caindo e atingiu o mínimo histórico em 2026, na casa de 21% (numa série que começou em 2011). Boa parte devido ao pagamento de dívidas, mas também devido ao alto preço dos alimentos, que subiram muito na pandemia e se mantiveram num patamar elevado. Assim, a campanha de Flávio fala de um fato, mas igualmente omite um contexto importante: não é correto atribuir à gestão Lula a causa do alto preço dos alimentos (pois eles já vinham num patamar alto anteriormente).
Essa armadilha não é exclusividade da política brasileira. Veja outros três exemplos em que a omissão de contexto faz toda a diferença na compreensão dos fatos.
Um truque muito antigo é omitir o recorte temporal: mostrar uma grande diferença sem deixar claro em qual período aquilo ocorreu. Um caso ilustrativo foi uma manchete do The Telegraph inglês, que falava de uma misteriosa epidemia de câncer. Quando foi publicada, em março de 2024, ainda havia o temor de reações adversas de vacinas da Covid (e o rumor do suposto turbo câncer) e a primeira associação que o leitor faria seria que isto só poderia ser relacionado a elas. Mas no texto fica claro que o intervalo considerado, além de muito longo, terminou antes da pandemia, em 2019. Desta forma, a omissão do contexto temporal na chamada da matéria desinforma – a ponto de muitos ativistas antivacina espalharem esta manchete em mídias sociais porque supostamente embasaria sua crença.
Outro exemplo de omissão, também temporal, é quando se considera um ano atípico como referencial. Há 20 anos, ganhou força a tese de que a Terra teria parado de esquentar em 1998. Um artigo de Bob Carter, geólogo da James Cook University, dizia que o aquecimento global tinha parado em 1998 – justamente o ano de um El Niño excepcionalmente forte, que jogou a temperatura média global para um pico fora da curva. Esta tese ficou muito popular, foi reproduzida por outros autores em vários veículos de mídia e ganhou até mesmo um apelido: “hiato do aquecimento global”. No entanto, um estudo publicado em 2020 na revista Earth System Dynamics concluiu que de dois terços a 81% da desaceleração aparente se explicavam pela temperatura anormalmente alta de 1998. E os anos seguintes trataram de enterrar a tese: 2023 e 2024 bateram recordes sucessivos de temperatura. O simples fato de omitir que o ano de referência foi atípico acaba prejudicando toda a análise e desinforma quem não conhece esse detalhe.
O último exemplo ocorreu nos EUA, em 2016. Após eleito, Trump disse que em 2015 ocorrera o maior aumento da taxa de homicídios em 45 anos. E estava correto: segundo o FBI (dados compilados pelo Snopes), a taxa de homicídios subiu de 4,4 por 100 mil habitantes em 2014 para 4,9 em 2015 – uma alta de 11%. Foi o maior aumento percentual de um ano para o outro em 45 anos. A rigor, não estava incorreto, mas ele escondeu o fato que o ponto de partida (2014) tivera uma das menores taxas de homicídios em meio século. Em estatística, quando temos um referencial baixo, aumentos percentuais tendem a ser mais altos. É o chamado efeito de base baixa. Para quem não conhece este contexto, a variação pode parecer preocupante – mas não é.
A lição que fica é: é possível desinformar (propositalmente ou não) sem mentir. Basta esconder um pedaço da verdade. Vale para a manchete sobre o câncer, para a “pausa” do aquecimento global, para a afirmação de Trump sobre homicídios – e para as afirmações das duas campanhas eleitorais que abriram este texto.
Por isso, quando for defrontado a uma afirmação categórica, faça três perguntas:
- Quando começou e terminou?
- Comparado a quê?
- O que mais aconteceu no período?
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