Líder no varejo brasileiro de brinquedos, a RiHappy protocolou neste domingo um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívidas que somam R$ 827,4 milhões. A medida ocorre 48 dias após a empresa mudar de dono, com a aquisição do grupo pela BluSun Capital Partners.
O pedido envolve as seis empresas do grupo, como as lojas RiHappy e PB Kids, a importadora New Toys e a Divertudo, de recreação infantil e casas de festa integradas às lojas.
A administração da companhia justificou em comunicado que o pedido de recuperação acontece num cenário de “desafios enfrentados pelo varejo brasileiro”, como os juros elevados, as mudanças no consumo, a intensificação da concorrência e os efeitos acumulados da pandemia.
No processo ajuizado ontem no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), ao que O GLOBO teve acesso, o grupo lembra que, em 2023, contratou uma consultoria para renegociar um passivo bancário de R$ 292 milhões, mas argumenta que a recuperação da economia e do mercado “não ocorreu como se esperava”, e que os anos seguintes culminaram no cenário atual, em que “o pagamento das dívidas tornou-se incompatível com o fluxo de caixa” do grupo.
Concorrência com importados
O pedido de reestruturação da RiHappy insere o grupo numa lista de varejistas brasileiras em crise e que buscam renegociar suas dívidas pela via judicial ou em recuperações extrajudiciais. Caso de Casas Bahia, Toky (Mobly e Tok&Stok), Lojas Marabraz, CVLB (Casa&Video e Le Biscuit), Americanas e tantas outras.
Mas a RiHappy enfrenta ainda particularidades do segmento em que atua. Além de fatores como juros e endividamento das famílias, a empresa cita no processo o aumento da concorrência como um dos fatores que influenciaram na crise. Os advogados do grupo alegam que a entrada de produtos asiáticos de menor custo, acessíveis em marketplaces como Shopee e Aliexpress, pressionam os preços e as margens das varejistas de brinquedos.
Ela não é a única do setor a experimentar problemas: em maio, a Estrela — fabricante de brinquedos icônicos como Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Detetive, Pogobol e Susi — entrou em recuperação judicial, com dívidas que somam R$ 109 milhões.
Segundo estatísticas da Abrinq, associação que reúne os fabricantes de brinquedos do Brasil, o faturamento total do setor foi de R$ 10,39 bilhões em 2025. A participação do comércio eletrônico nas vendas passou de 22% em 2017 para 38% em 2025.
— O caso da Ri Happy chama atenção para um movimento que vai além das dificuldades conjunturais do varejo. O setor de brinquedos vem passando por transformações importantes. Esses números mostram um setor cujo modelo de negócios está mudando significativamente — avalia Renata Monteiro, CEO da Apsis Consultoria.
Ainda segundo o processo, 42,38% dos créditos abrangidos já aderiram ao plano de reestruturação extrajudicial. O patamar já é suficiente para a abertura do processo. Como determina a legislação, nos próximos 90 dias a empresa terá que alcançar a aprovação de 50% dos credores para que o plano seja homologado pela Justiça.
A empresa informou ainda que a estruturação é parte de um “conjunto de medidas estruturantes” com foco na gestão de liquidez, readequação da estrutura de capital e disciplina de custos.
A administração ressaltou também que as lojas físicas e os canais digitais da RiHappy e da PB Kids “seguem funcionando normalmente”, com as equipes dedicadas à preparação para a Black Friday e o Natal.
“Essas medidas visam organizar a renegociação de dívidas e adequar a estrutura financeira às necessidades operacionais, criando as condições para dar continuidade ao plano de transformação”, diz o texto.
Com faturamento médio anual de R$ 1,2 bilhão, RiHappy e PB Kids tem cerca de 300 lojas em todo o país, entre franquias e operações próprias, e emprega cerca de 2,6 mil pessoas.
Em 2018, o grupo chegou a iniciar um processo de abertura de capital, mediante pedido de registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de oferta pública de ações. O pedido, porém, foi suspenso “em um contexto de incertezas políticas, volatilidade do mercado financeiro e maior cautela dos investidores em relação ao setor de varejo”, diz o processo.
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