Por Cleber Lourenço
A expressão “Flávio miliciano” chegou ao topo dos assuntos em alta no Google Trends na noite deste domingo (18), com a repercussão do debate presidencial da Band entre Lula e Flávio Bolsonaro. Segundo a plataforma, a tendência ultrapassou 1 milhão de pesquisas relacionadas. Outra expressão associada ao candidato, “Flávio Comando Vermelho”, também disparou e superou 100 mil pesquisas.
Às 23h11, quando os dados foram registrados, “Flávio miliciano” ocupava a primeira posição na lista de tendências consultada. As duas expressões permaneciam ativas, com crescimento indicado de 1.000% na plataforma.
A disparada ocorreu depois de Lula chamar Flávio de miliciano durante uma troca de acusações no debate. Ao reagir a uma provocação do adversário, o presidente afirmou: “Não quero ficar perto de você. Quero distância. Quero distância de miliciano”.
A declaração repercutiu nas redes sociais e coincidiu com o crescimento das pesquisas relacionadas ao candidato. O Comando Vermelho também foi mencionado durante o confronto, inclusive pelo próprio Flávio, ao defender o enquadramento de facções criminosas como organizações narcoterroristas.
De discursos favoráveis às milícias a homenagens e repasses de dinheiro público
A associação de Flávio Bolsonaro às milícias não surgiu no debate. Durante sua trajetória política no Rio de Janeiro, o candidato fez declarações favoráveis à atuação desses grupos, homenageou policiais posteriormente apontados como milicianos e manteve em seu gabinete familiares de um homem identificado pelo Ministério Público como chefe de uma organização criminosa.
Em 2007, quando era deputado estadual, Flávio fez um discurso na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) no qual relativizou o perigo da atuação das milícias. Ao abordar a presença de policiais e bombeiros em comunidades dominadas pelo tráfico, apresentou uma visão favorável à organização desses agentes para impedir a entrada de traficantes.
Um dos episódios mais conhecidos envolve Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope posteriormente apontado pelo Ministério Público como chefe de uma milícia e do chamado Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel.
Em 2005, Flávio concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria da Alerj, a Adriano, que já estava preso havia mais de um ano sob acusação de homicídio. A condecoração foi entregue pessoalmente pelo então deputado dentro do Batalhão Especial Prisional da Polícia Militar. Na época, Adriano também acumulava punições administrativas na corporação.
A relação se estendeu ao gabinete parlamentar. A mãe e a mulher de Adriano foram contratadas como assessoras de Flávio. A esposa permaneceu no gabinete por aproximadamente 11 anos, enquanto a mãe trabalhou por cerca de dois anos e meio. As contratações foram intermediadas por Fabrício Queiroz, ex-assessor do parlamentar.
Mais recentemente, uma investigação revelou outro episódio envolvendo recursos públicos e um miliciano ligado ao assassinato da vereadora Marielle Franco.
Em setembro, a revista piauí revelou que Flávio destinou aproximadamente R$ 200 mil em emendas parlamentares ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), localizado na Taquara, zona oeste do Rio de Janeiro, após um pedido de Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe.
Ex-assessor de Domingos Brazão, Peixe foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por participação em organização criminosa no caso Marielle. Mensagens obtidas pela reportagem mostram que ele procurou uma assessora do gabinete de Flávio para solicitar recursos destinados a um projeto de futebol infantil.
O repasse de R$ 199.999,79 foi realizado em novembro de 2023. A Polícia Federal investiga suspeitas de desvio de recursos envolvendo a entidade e pessoas ligadas aos irmãos Brazão, condenados como mandantes do assassinato de Marielle e Anderson Gomes. Flávio não é investigado nesse caso e afirmou que a emenda seguiu os critérios legais, cabendo à entidade beneficiada executar o projeto.
O histórico também inclui a participação de policiais posteriormente presos em uma operação contra uma organização criminosa nas atividades da campanha de Flávio ao Senado, em 2018.
Os irmãos gêmeos Alan e Alex Rodrigues de Oliveira, ambos policiais militares, acompanharam agendas eleitorais do então candidato na zona oeste do Rio. Segundo integrantes da campanha ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo, os dois prestavam apoio de segurança durante os eventos.
Em setembro daquele ano, os irmãos foram presos na Operação Quarto Elemento, conduzida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro contra uma organização de policiais suspeita de praticar extorsões, corrupção e outros crimes. A investigação apontava a participação de agentes públicos em um esquema que utilizava operações policiais para exigir dinheiro de pessoas abordadas.
Alan e Alex eram irmãos de Valdenice de Oliveira Meliga, então assessora de Flávio e tesoureira do PSL no Rio.
Rachadinha e outras controvérsias também apareceram nas pesquisas
Outros assuntos relacionados ao histórico político de Flávio Bolsonaro também apareceram entre as tendências do Google durante a noite.
A expressão “flavio rachadinha” ultrapassou 20 mil pesquisas relacionadas. O termo remete às investigações sobre suspeitas de recolhimento de parte dos salários de funcionários do antigo gabinete do candidato na Assembleia Legislativa do Rio. O procedimento foi arquivado após a anulação de provas.
Também apareceram entre os assuntos em alta as expressões “flávio ana clara” e “134 milhões filme bolsonaro”, ambas com mais de 20 mil pesquisas relacionadas. Já a tendência “filho do lula” superou 50 mil.
A movimentação ocorreu em meio à mobilização de apoiadores de Lula nas redes sociais. Segundo o Poder360, o deputado André Janones (Rede-MG) orientou seguidores a pesquisar termos negativos associados a Flávio Bolsonaro. A iniciativa pode ter contribuído para impulsionar as tendências, embora não seja possível determinar seu peso no volume total.
O Google Trends reúne diferentes consultas relacionadas a um mesmo assunto. Por isso, as marcas de 1 milhão e 100 mil representam faixas estimadas de pesquisas agrupadas pela plataforma, e não necessariamente o número de pessoas que digitaram literalmente as expressões.
O levantamento registra o crescimento do interesse por temas envolvendo milícias, facções criminosas e episódios do histórico político de Flávio Bolsonaro durante a repercussão do primeiro debate presidencial do segundo turno, marcado para 25 de outubro.
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