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Selic a 13,75%: como os juros mexem com o seu bolso, a sua empresa e o seu investimento — e o que Lula e Flávio prometem

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
14/10/2026
in Capa, Eleições
Reading Time: 24 mins read
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A menos de duas semanas do segundo turno, a taxa básica de juros virou um dos assuntos centrais da campanha. A Selic está em 13,75% ao ano, após cinco cortes seguidos de 0,25 ponto percentual, mas ainda é uma das mais altas do mundo em termos reais. Entenda, ponto a ponto, o que ela significa para cada brasileiro, quem a controla, quais governos tiveram juros mais baixos e mais altos, e o que os dois candidatos dizem sobre o tema.

O retrato de hoje

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano em 16 de setembro, na 281ª reunião do colegiado. A decisão foi unânime. Foi o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto neste ano: o ciclo de afrouxamento começou em março, depois de a taxa permanecer em 15% (o maior patamar em cerca de duas décadas) desde junho de 2025.

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O comunicado do Copom descreve uma economia que desacelera de forma gradual, mas ainda resiliente, com mercado de trabalho aquecido. A inflação desacelerou e ficou abaixo do teto da meta, porém continua acima do centro dela. Alguns números que ajudam a situar o debate:

IndicadorValor mais recente
Selic (meta)13,75% ao ano
IPCA em 12 meses (até agosto)4,22%
IPCA-15 em 12 meses (até setembro)4,47%
Meta de inflação3%, com tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo (de 1,5% a 4,5%)
Projeção do Copom para o IPCA de 20265,2%
Desemprego (trimestre até agosto)5,3%
Crescimento do PIB no 1º semestre de 20261,9% (ante o mesmo período de 2025)
Dívida bruta do governo geral (agosto)82,9% do PIB

O boletim Focus desta semana mostra o mercado elevando de novo a projeção de inflação para 2026, para cerca de 5,22%, acima do teto da meta, e reduzindo a previsão para a Selic ao fim do ano para 13,25%. Em agosto, a mediana do mercado para o fim de 2027 era de 12%. Ou seja: a aposta é de queda, mas gradual. Não há reunião do Copom em outubro. A próxima decisão sai em 4 de novembro, uma semana e meia depois do segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Um dado de contexto: a inflação acumulada em 12 meses (4,22%) está bem abaixo da Selic (13,75%). Isso significa um juro real, ou seja, descontada a inflação, de cerca de 9% ao ano, um dos mais elevados do planeta. É esse juro real que, na prática, freia ou estimula a economia.

O que é a Selic, afinal

Selic é a sigla do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, mas, no dia a dia, o termo designa a taxa básica de juros da economia brasileira. Tecnicamente, é a taxa que remunera os títulos públicos federais e que serve de referência para os empréstimos entre bancos. A meta para ela é definida pelo Copom oito vezes por ano, em reuniões de dois dias.

Pense na Selic como o preço do dinheiro no país. Todas as outras taxas (do cartão de crédito ao financiamento da casa, da debênture de uma grande empresa ao CDB do banco) são formadas a partir dela, somadas ao risco de cada operação e à margem dos bancos. Quando a Selic sobe, o dinheiro fica mais caro para quem toma emprestado e mais bem remunerado para quem empresta ou investe. Quando cai, acontece o contrário.

Como a Selic afeta o cidadão comum

O efeito sobre as famílias vem por quatro caminhos principais.

1. Crédito mais caro (ou mais barato). Juros altos encarecem financiamentos de carro e imóvel, empréstimo pessoal, crédito consignado, cheque especial e, sobretudo, o cartão de crédito rotativo, cujas taxas já são muito superiores à Selic e ficam ainda mais pesadas quando o custo básico do dinheiro sobe. Para quem tem dívida com taxa pós-fixada, a parcela sobe junto. Para quem pretende financiar a casa própria, uma Selic alta tende a reduzir o valor que o banco aceita emprestar e a elevar o valor da prestação.

2. Consumo e emprego. Com crédito caro, as pessoas compram menos a prazo, e o comércio, a construção civil e a indústria sentem. Com o tempo, isso pode frear a criação de vagas e o aumento de salários. É exatamente esse o objetivo do remédio: esfriar a demanda para segurar os preços. O efeito colateral é que o freio é sentido mais por quem depende de crédito e de emprego formal.

3. Preço das coisas. O motivo de a Selic subir é combater a inflação. Se ela funciona, o que se vê no supermercado, na conta de luz e no aluguel deixa de subir tão rápido. O problema é que o efeito é defasado: costuma levar de seis a dezoito meses para aparecer plenamente.

4. Poupança e investimentos. O lado bom dos juros altos aparece para quem tem dinheiro aplicado. Produtos de renda fixa pós-fixados, como o Tesouro Selic e os CDBs que pagam um percentual do CDI, rendem mais. Como referência, R$ 10 mil aplicados a uma taxa próxima de 13,75% ao ano geram cerca de R$ 1.375 em um ano, antes de Imposto de Renda e taxas. A poupança tradicional, que paga 0,5% ao mês mais a TR sempre que a Selic está acima de 8,5% ao ano (algo próximo de 6,2% ao ano mais TR), rende bem menos do que essas alternativas, e é por isso que o debate sobre migração de recursos é constante.

Em resumo: Selic alta tende a ser uma má notícia para devedores e uma boa notícia para quem tem reserva financeira e acesso a bons investimentos. Como o brasileiro médio deve mais do que aplica, o balanço líquido costuma ser negativo para a maioria das famílias, e é por isso que programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, entram na pauta política junto com a discussão sobre juros.

Como a Selic afeta as empresas

Para o setor produtivo, o juro básico é, ao mesmo tempo, custo e régua de decisão.

Custo do capital. Toda empresa que toma dinheiro emprestado, seja por crédito bancário, seja por emissão de debêntures, paga juros referenciados na Selic ou no CDI. Quando a taxa está em dois dígitos, a conta de juros pode consumir uma parte relevante do lucro operacional, especialmente nas companhias muito endividadas.

Decisão de investir. Antes de abrir uma fábrica, ampliar uma loja ou comprar máquinas, o empresário compara o retorno esperado com o que ganharia sem risco, aplicando em títulos públicos que pagam mais de 13% ao ano. Com Selic alta, o investimento produtivo precisa prometer retorno muito maior para valer a pena. Resultado: menos projetos saem do papel, o que afeta o crescimento de longo prazo e a geração de empregos.

Pequenas e médias empresas. São as mais vulneráveis, porque dependem de crédito bancário caro para capital de giro, têm pouco acesso ao mercado de capitais e, em geral, oferecem menos garantias. Por isso, linhas subsidiadas e programas públicos de crédito costumam ser tão disputados.

Setores sensíveis. Construção civil, varejo de bens duráveis, automóveis e empresas de tecnologia em expansão são mais afetados. Já bancos tendem a ter margens robustas com juros altos, ainda que sofram mais com inadimplência. Empresas com caixa elevado conseguem ganhar na aplicação financeira parte do que perdem na demanda.

Câmbio. Juros mais altos que os de outros países atraem capital estrangeiro e tendem a valorizar o real, o que barateia insumos importados, mas pode prejudicar exportadores. Quando o diferencial de juros diminui, a tendência é de pressão cambial, e esse é um dos motivos pelos quais o Banco Central acompanha o dólar com atenção.

Como a Selic afeta o investidor

A Selic é a âncora do mercado financeiro brasileiro. Praticamente todo ativo é precificado em comparação com ela.

Renda fixa pós-fixada (Tesouro Selic, CDBs, LCIs e LCAs atrelados ao CDI): rendem mais quando a Selic sobe, e acompanham automaticamente os cortes quando ela cai.

Renda fixa prefixada e atrelada à inflação: quando o mercado espera que a Selic caia, os títulos com taxa travada tendem a se valorizar antes do vencimento, porque passam a pagar mais do que o novo patamar. Em ciclos de alta, o movimento é inverso, e quem vende antes do vencimento pode ter perdas na marcação a mercado.

Bolsa de valores: os preços das ações dependem do valor presente dos lucros futuros. Quanto maior a taxa usada para trazer esses lucros a valor presente, menor o preço justo. Por isso, juros altos pesam sobre a bolsa, principalmente sobre empresas endividadas, de crescimento e de setores sensíveis ao crédito. Quando a Selic cai (ou se espera que caia), há tendência de migração de recursos da renda fixa para a renda variável.

Fundos imobiliários e imóveis: o rendimento dos fundos imobiliários passa a competir com títulos públicos que pagam bem e sem risco, o que pressiona as cotações. O mercado de imóveis, por sua vez, depende de financiamento, e fica mais lento quando os juros são altos.

Dólar: um diferencial de juros elevado em relação ao exterior atrai o chamado carry trade, quando investidores estrangeiros tomam dinheiro barato fora e aplicam no Brasil, o que sustenta o real.

Este texto é informativo e não constitui recomendação de investimento. Cada perfil de risco e objetivo exige análise própria.

Qual governo teve a Selic mais baixa e qual teve a mais alta?

Considerando os cinco últimos governos (Lula 2, Dilma, Temer, Bolsonaro e Lula 3), os extremos são os seguintes, em termos de meta da Selic nominal:

GovernoPeríodoInícioMínimaMáximaFim / hoje
Lula 22007–201013,00%8,75% (jul/2009 a abr/2010)13,75% (set/2008 a jan/2009)10,75%
Dilma2011–ago/201610,75%7,25% (out/2012 a abr/2013)14,25% (jul/2015 a ago/2016)14,25%
Temerago/2016–201814,25%6,50% (mar/2018)14,25%6,50%
Bolsonaro2019–20226,50%2,00% (ago/2020 a mar/2021)13,75% (ago/2022)13,75%
Lula 32023–hoje13,75%10,50% (mai a set/2024)15,00% (jun/2025 a jan/2026)13,75%

A Selic mais baixa da série foi no governo Jair Bolsonaro: 2% ao ano, entre agosto de 2020 e março de 2021, em plena pandemia de Covid-19, quando o Banco Central buscava estimular uma economia paralisada. A mais alta foi no atual governo Lula: 15% ao ano, patamar mantido de junho de 2025 a janeiro de 2026 e o maior em cerca de 20 anos.

Meta da Selic, 2007 a out/2026. Fonte: Banco Central (valores históricos de memória; conferir no SGS).

O gráfico mostra o vale de 2020 e 2021 e as duas escaladas seguintes: a de 2021 a 2022 e a de 2024 a 2025, que levou a taxa ao maior patamar do período.

Há, porém, três ressalvas importantes para uma leitura justa dos números.

  1. Nominal não é real. O que pesa no bolso é o juro descontada a inflação. Em 2020, por exemplo, a Selic de 2% era baixíssima em termos nominais, mas a inflação disparou logo depois, e o juro real chegou a ficar negativo. Já no governo atual, a combinação de Selic em 15% com inflação em torno de 4% a 5% produziu juros reais muito altos.
  2. Contexto externo. O período de juros mínimos coincidiu com uma redução global de taxas por causa da pandemia. O de juros máximos veio depois de um choque inflacionário mundial, de guerras, de mudanças na política monetária americana e, no plano interno, de dúvidas sobre as contas públicas.
  3. Recorte de tempo. Se fossem incluídos governos anteriores, o quadro mudaria: no primeiro ano do primeiro mandato de Lula (2003), a Selic chegou a 26,5% ao ano. A comparação acima respeita o recorte pedido, os cinco governos mais recentes.

É também por isso que o debate eleitoral sobre a Selic costuma ser enviesado. O governo Bolsonaro entregou a menor taxa e também entregou o país, em dezembro de 2022, com a Selic em 13,75%, a mesma de hoje, depois de um ciclo agressivo de alta. O governo Lula herdou esse patamar, reduziu parte dele entre 2023 e 2024 (até 10,5%), voltou a subir e agora está em novo ciclo de queda.

Em qual governo a Selic começou a subir?

A resposta depende do ciclo que se considera, porque houve dois movimentos de alta relevantes na história recente.

O ciclo iniciado em março de 2021, no governo Bolsonaro. Depois de permanecer em 2% por sete meses, a Selic passou a subir em março de 2021, quando o Copom elevou a taxa para 2,75%. Foi o início de uma sequência de aumentos que levou a taxa a 13,75% em agosto de 2022, um dos ciclos de aperto mais intensos do período recente. Os motivos citados por economistas incluem a inflação puxada por alimentos, combustíveis e energia, o dólar elevado, a retomada da demanda pós-pandemia e o choque global provocado pela guerra na Ucrânia. A taxa foi mantida em 13,75% até agosto de 2023.

O ciclo iniciado em setembro de 2024, no governo Lula 3. Depois de cortar a Selic de 13,75% para 10,5% (agosto de 2023 a maio de 2024), o Banco Central interrompeu o ciclo de quedas e retomou as altas em setembro de 2024. Foram sucessivos aumentos até 15% em junho de 2025, em meio a expectativas de inflação desancoradas, câmbio pressionado, economia aquecida e preocupação do mercado com o rumo das contas públicas. Em janeiro de 2025, um aumento de um ponto percentual provocou reação de Lula, que disse esperar que o presidente do BC, Gabriel Galípolo, entregasse juros menores, reiterando que o BC teria autonomia real.

Há ainda um precedente mais antigo: o ciclo de alta iniciado em 2013, no governo Dilma Rousseff, que levou a Selic de 7,25% a 14,25% em 2015.

O que faz a Selic subir ou descer?

O sistema brasileiro funciona com metas de inflação. O Conselho Monetário Nacional define uma meta, hoje de 3% ao ano com margem de 1,5 ponto, e o Banco Central usa a Selic para tentar cumpri-la. Em termos simples:

  • Se a inflação ou as expectativas para ela estão acima da meta, o Copom tende a subir ou manter a Selic para esfriar a demanda.
  • Se a inflação e as expectativas estão sob controle e a economia perde fôlego, o Copom pode cortar a taxa para estimular o crescimento.

O Copom olha para um conjunto de fatores:

FatorComo pesa na decisão
Inflação corrente e núcleosInflação acima da meta pede juros mais altos. O Copom observa também as medidas subjacentes, que filtram choques passageiros.
Expectativas de inflaçãoSe o mercado (pesquisa Focus) e as empresas esperam preços mais altos, a inflação tende a se tornar realidade. Expectativas descoladas da meta atrasam cortes.
Atividade e empregoEconomia muito aquecida e desemprego baixo pressionam salários e preços. Desaceleração abre espaço para cortes.
CâmbioUm dólar alto encarece produtos importados e combustíveis, e pressiona a inflação.
Juros no exteriorTaxas elevadas nos EUA atraem capital e dificultam cortes por aqui, sob risco de fuga de recursos.
Situação fiscalQuando o governo gasta mais do que arrecada, a dívida cresce e o mercado exige prêmio de risco maior, o que pressiona a curva de juros e pode forçar o Banco Central a manter a Selic mais alta por mais tempo.
Choques de ofertaQuebras de safra, alta do petróleo ou crises de energia elevam preços sem relação com a demanda e complicam a decisão.

O Banco Central também trabalha com a ideia de juro neutro: a taxa que nem acelera, nem freia a economia. Quando a Selic está acima desse patamar, o juro é considerado restritivo. É o que o Copom afirma que ainda está acontecendo e é por isso que fala em manter a calibragem de forma cautelosa. O comitê repete que a magnitude total do ciclo de cortes será definida à luz de novas informações, o que significa que não há compromisso com um número final.

Há um efeito circular importante: a Selic alta também pesa no orçamento do governo. Boa parte da dívida pública é remunerada pela taxa básica, de modo que cada ponto percentual a mais de juros custa dezenas de bilhões de reais por ano em despesas financeiras. É um dos argumentos usados por quem defende cortes mais rápidos, mas também por quem diz que só o ajuste das contas permite juros menores de forma sustentável.

O governo pode intervir, politicamente, para subir ou baixar a Selic?

Formalmente, não. Desde 2021, o Brasil tem uma lei que garante a autonomia do Banco Central (Lei Complementar 179). Os principais pontos:

  • O presidente e os diretores do BC têm mandato fixo de quatro anos, que não coincide com o do presidente da República. Isso evita que cada novo governo troque toda a diretoria de uma vez.
  • A demissão só é possível em hipóteses previstas na lei, como condenação, incapacidade ou desempenho insuficiente reiterado, e precisa de aprovação do Senado.
  • A decisão sobre a Selic é do Copom, não do Ministério da Fazenda nem do Palácio do Planalto.

Portanto, o presidente da República não pode ordenar que a Selic suba ou desça. A autonomia foi desenhada justamente para impedir o que alguns países viveram: governos baixando juros em anos eleitorais, aceitando mais inflação em troca de popularidade de curto prazo.

Isso não significa que o governo não tenha influência. Existem canais indiretos, e todos são legítimos:

  1. Política fiscal. Gastos, impostos e dívida pesam nas expectativas. Uma trajetória fiscal que o mercado considera sustentável reduz o prêmio de risco e abre espaço para cortes. Um descontrole faz o oposto.
  2. Meta de inflação. Ela é definida pelo Conselho Monetário Nacional, do qual fazem parte o ministro da Fazenda, o ministro do Planejamento e o presidente do Banco Central. Mudar a meta altera o parâmetro que o BC persegue, mas isso costuma ser mal recebido se feito de forma casuística.
  3. Indicação de diretores. O presidente da República indica o presidente e os diretores do BC, que precisam ser aprovados pelo Senado. A autonomia não elimina a influência política na escolha.
  4. Pressão pública e política. Lula criticou publicamente as decisões do Copom em diversos momentos, especialmente em 2023 e no primeiro semestre de 2024, quando o BC era presidido por Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro. Em 2023, chegou a dizer que avaliaria o saldo da autonomia ao fim do mandato do então presidente do BC. Desde que Galípolo, nome indicado por ele próprio, assumiu, o tom foi de defesa da autonomia, com cobrança por juros menores. O risco apontado por economistas é que atritos desse tipo aumentem a incerteza e a desconfiança do mercado, o que, na prática, pode manter os juros mais altos.
  5. Crédito público e programas. O governo pode estimular crédito por bancos públicos, subsidiar linhas e renegociar dívidas, o que afeta a economia, mas não substitui a política monetária.

Um precedente frequentemente lembrado é o período de 2011 a 2013, quando o Banco Central, no governo Dilma, reduziu a Selic até 7,25% ao ano, em meio a críticas de que a política monetária teria sido influenciada pelo Executivo. Os críticos associam esse período à inflação mais alta que veio depois e ao ciclo de aperto a partir de 2013. Defensores da época contestam essa leitura e apontam o ambiente internacional. O episódio permanece como referência para quem defende, ou critica, a autonomia.

O que Lula e Flávio Bolsonaro propõem para a Selic

O primeiro turno, em 4 de outubro, terminou com Flávio Bolsonaro (PL) com 47,03% dos votos válidos e Lula (PT) com 45,16%, uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos. Os dois disputam o segundo turno em 25 de outubro. Um ponto em comum merece destaque logo de início: nenhum dos dois propõe fixar uma meta para a Selic, o que seria incompatível com a autonomia do BC. Ambos apresentam, na prática, uma estratégia fiscal e econômica da qual esperam, como consequência, juros menores.

Lula (PT)

O programa de governo registrado no TSE trata a Selic elevada como um problema central da economia. O texto afirma que o país herdou juros altos e uma política econômica equivocada, que teriam levado ao endividamento das famílias, e cita as edições do Desenrola Brasil e o Novo Desenrola, de 2026, como respostas. Em um dos trechos, diz que a taxa de juros hoje exerce o papel que a inflação teve no passado: concentra renda e desorganiza a economia.

Na prática, a proposta tem estes pilares:

  • Manter o arcabouço fiscal e controlar o crescimento das despesas, com projeção de déficit primário de cerca de 0,4% do PIB em 2026, após um esforço fiscal que o programa estima em torno de R$ 240 bilhões.
  • Criar as condições para uma “redução sustentada das taxas de juros”, com inflação controlada. O programa não fixa meta nem prazo para a queda.
  • Ampliar o crédito, inclusive por meio de bancos públicos, de política industrial e de linhas para agricultura e pequenos negócios, além de ampliar o Desenrola.
  • Elevar a taxa de investimento da economia, apostando no crescimento para melhorar as contas públicas.

Críticos apontam que o programa prevê novos gastos sociais, como a redução da jornada de trabalho e a valorização do salário mínimo, sem detalhar metas fiscais para os próximos quatro anos nem como serão financiados. Para eles, isso mantém o risco fiscal e, com ele, um piso mais alto para os juros. Os aliados rebatem que o crescimento, a revisão de benefícios tributários e a tributação sobre rendas mais altas sustentam as contas.

Sobre a autonomia do Banco Central, os trechos do programa divulgados pela imprensa não trazem proposta de alteração. Em declarações públicas, Lula tem criticado os juros altos e defendido que a autonomia deve vir acompanhada de compromisso com emprego e crescimento.

Flávio Bolsonaro (PL)

A cartilha de governo, intitulada “Para o Brasil Vencer o Atraso”, associa a queda dos juros ao ajuste das contas públicas. O texto sintetiza a tese em uma frase: juros menores não se decretam, conquistam-se com contas em ordem. Também não apresenta uma trajetória para a Selic nem um prazo para alcançá-la.

Os principais pontos para a economia:

  • Nova regra fiscal e superávits primários, com limitação do crédito subsidiado pelo Tesouro. O programa não apresenta a fórmula da regra, metas numéricas nem prazo, apenas diz que a estabilização da dívida deve ocorrer no “menor prazo possível”.
  • Corte de pelo menos dez ministérios, redução de cargos comissionados e combate a supersalários, sem indicar quais pastas seriam extintas nem quanto se economizaria.
  • Revisão da reforma tributária para reduzir a carga sobre produção e consumo, desoneração de investimentos e exportações, redução gradual do IOF e menos impostos sobre energia e combustíveis.
  • Retomada de privatizações, com análise caso a caso, e R$ 900 bilhões em investimentos em infraestrutura em quatro anos, com concessões, PPPs e BNDES.
  • Meta de crescimento de 4% ao ano, acima dos 2,3% registrados em 2025 e dos 1,9% do primeiro semestre de 2026.

Em entrevista no início de agosto, Flávio disse que não entende tanto de economia e perguntou a uma integrante da equipe econômica quanto tempo a Selic levaria para cair se ele vencesse. A resposta foi de que um corte mais firme de despesas poderia antecipar a redução dos juros, porque parte do efeito já aparece nas expectativas do mercado. Em junho, ele havia criticado a taxa como muito alta e lembrado que, no governo do pai, a Selic chegou a ficar abaixo de 2%.

Críticos do plano observam que a promessa de reduzir impostos, ampliar investimentos e aumentar aposentadorias acima da inflação, sem estimativa consolidada de custos, também pode pressionar as contas. Defensores respondem que o corte de despesas e as privatizações dariam espaço para isso e que a sinalização de austeridade, por si só, derrubaria o prêmio de risco.

Os dois lados em uma tabela

TemaLula (PT)Flávio Bolsonaro (PL)
Meta ou prazo para a SelicNão defineNão define
Caminho para juros menoresArcabouço fiscal, crescimento e política industrialCorte de gastos, nova regra fiscal e menos crédito subsidiado
CréditoAmpliar crédito público, Desenrola e linhas para pequenos negóciosAmpliar a atuação da Caixa; limitar o crédito subsidiado pelo Tesouro
ImpostosMais tributação sobre rendas altas; revisão de benefíciosRevisão da reforma tributária para reduzir carga
EstataisFortalecimento de Petrobras, BNDES e bancos públicosRetomada do programa de desestatização
Detalhe das contasSem metas fiscais detalhadas para os quatro anosSem fórmula da regra fiscal nem estimativa de economia
Autonomia do BCSem proposta de mudança nos trechos divulgadosSem proposta de mudança nos trechos divulgados

Checagem rápida de narrativas

No calor da campanha, os dois lados usam a Selic de forma seletiva. Vale separar o que é fato do que é recorte:

  • “Lula herdou uma Selic alta.” Verdade: ele assumiu em janeiro de 2023 com 13,75%. Mas a taxa foi reduzida até 10,5% e depois voltou a subir até 15% sob o atual governo, o que a oposição destaca.
  • “No governo Bolsonaro, a Selic chegou a menos de 2%.” Parcialmente. O mínimo foi de 2%, e não menos, e durou cerca de sete meses, em meio à pandemia. O governo terminou com a taxa em 13,75%.
  • “A Selic de hoje é a mais alta do mundo.” Está entre as mais altas, mas a comparação internacional depende de como se mede: juro nominal, juro real ou taxa de países emergentes específicos.
  • “O governo pode mandar baixar os juros.” Não pode, pela lei de autonomia. Pode, no máximo, influenciar indiretamente, sobretudo pela política fiscal.

O que esperar daqui para frente

O mercado reagiu de forma positiva ao primeiro turno, com a bolsa em alta e o dólar em queda, segundo a imprensa econômica, o que reflete a leitura de que um eventual governo comprometido com ajuste fiscal poderia reduzir o prêmio de risco. Ao mesmo tempo, os analistas lembram que o caminho dos juros depende menos do vencedor da eleição e mais de variáveis como a convergência da inflação para a meta, a atividade econômica, o câmbio e o cenário externo.

Para quem acompanha a Selic, alguns pontos estão no radar:

  • 3 e 4 de novembro: reunião do Copom, com decisão no dia 4. O mercado trabalha com novo corte ou pausa, a depender do ritmo da inflação.
  • Boletim Focus: a mediana para a Selic no fim de 2026 já recuou para 13,25%. Se as projeções de inflação continuarem a subir, o Banco Central pode reduzir o ritmo dos cortes.
  • Contas públicas: o dado de dívida em 82,9% do PIB, o maior patamar em cinco anos, é uma das razões citadas para a cautela.
  • Quem vencer em 25 de outubro: terá de indicar diretores do BC cujos mandatos terminem, apresentar o orçamento de 2027 e mostrar como pretende cumprir, ou revisar, as regras fiscais.

O consenso entre economistas de diferentes correntes é que a Selic só cai de forma duradoura quando há confiança de que a inflação voltará à meta e de que as contas públicas não vão se deteriorar. Os candidatos divergem sobre o caminho para chegar lá, não sobre o objetivo declarado.

Glossário rápido

  • Selic: taxa básica de juros da economia brasileira.
  • Copom: Comitê de Política Monetária do Banco Central, que decide a meta da Selic.
  • CDI: taxa de referência dos empréstimos entre bancos, muito próxima da Selic.
  • IPCA: índice oficial de inflação.
  • Focus: pesquisa semanal do BC com projeções de instituições financeiras.
  • Juro real: juro nominal descontada a inflação.
  • Juro neutro: taxa que não estimula nem freia a economia.
  • Arcabouço fiscal: conjunto de regras que limita o crescimento dos gastos do governo.
  • Prêmio de risco: retorno adicional exigido pelo investidor para assumir mais incerteza.

Fontes e metodologia

Valores atuais da Selic, comunicado do Copom (281ª reunião) e projeções do Focus: Banco Central do Brasil, conforme reproduzido pela imprensa econômica. Dados de inflação, desemprego, PIB e dívida: IBGE e Banco Central, conforme publicados por Forbes Brasil. Resultado do primeiro turno: apuração do TSE, divulgada pela imprensa. Programas de governo: documentos registrados no TSE, conforme reportagens de Forbes Brasil, Exame, Pleno.News e Poder360. Declarações públicas dos candidatos: reportagens de JB, A Crítica, Correio da Manhã, CNN Brasil, CartaCapital e BP Money. Valores históricos da Selic por governo: séries oficiais do Banco Central (SGS), citadas de memória de fontes públicas; recomenda-se conferir as datas exatas diretamente no site do Banco Central. Os números mais recentes podem mudar até a decisão do Copom de novembro.

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