“Esta noite, uma criança de 5 anos está traumatizada e aterrorizada”, disse o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, na quinta-feira. Naquele dia, agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) atiraram e feriram um homem enquanto ele estava em um carro com um menino de 5 anos, que se acredita ser seu filho, no banco traseiro. Mamdani afirmou ter passado duas horas ao telefone com o presidente Donald Trump tentando, sem sucesso, negociar a libertação do detido, identificado como Oscar Belgal, um imigrante dominicano de 28 anos. Em vez disso, agentes do ICE o colocaram em um veículo sem identificação e o levaram embora. O menino, que chorou assustado enquanto presenciava a cena, não ficou ferido e estava sob “cuidados de um familiar”.
O caso chamou a atenção para uma prática crescente no país: com pouca fiscalização pública, dezenas de milhares de crianças e adolescentes estão sendo separados de seus pais, que são presos violentamente por agentes do ICE e deportados sem seus filhos. Como consequência da pressão desenfreada do governo por metas de deportação em massa, muitos ainda passaram a ser detidos sozinhos, enviados para lares temporários onde estão sujeitos à violência ou deportados sem companhia para suas nações de origem ou países terceiros.
Desde que Trump voltou à Casa Branca, no último ano, quase 200 mil menores receberam ordens de remoção dos EUA emitidas por juízes de imigração, sendo a maior parte (70%) crianças com menos de 13 anos, segundo análise da Mobile Pathways. Ao mesmo tempo, estimativas da Brookings Institution apontam que, de janeiro de 2025 até abril deste ano, cerca de 205 mil menores tiveram pelo menos um dos pais detidos por autoridades migratórias. Em 35 mil casos, segundo a organização, o menor ficou sem nenhum responsável.
— Considerando as detenções ocorridas desde então, as estimativas agora ultrapassariam 300 mil crianças que tiveram pelo menos um dos pais detido — disse ao GLOBO Maria Cancian, economista da Universidade Georgetown e coautora do estudo da Brookings.
As mães, em particular, parecem ser especialmente afetadas: segundo investigação da ProPublica, o governo Trump está deportando diariamente cerca de quatro vezes mais mães de crianças com cidadania americana do que o governo de Joe Biden (2021-2025) deportava. A maioria delas tem antecedentes criminais leves ou nenhum histórico criminal. Os menores são deixados à própria sorte ou colocados sob os cuidados de familiares sem preparo adequado para recebê-los. Em alguns casos, as crianças são deixadas com desconhecidos.
Em governos anteriores, a política do ICE determinava que todos os detidos que fossem pais deveriam ser reunidos com seus filhos antes da deportação, ou que os agentes deveriam obter a confirmação de que havia um cuidador designado para os menores. O governo Trump, no entanto, revogou a medida em seu primeiro dia no poder, e o ICE tornou a política aplicável apenas “quando operacionalmente viável”, o que deu aos agentes a margem de manobra necessária para ignorar orientações históricas e priorizar as deportações em massa.
— Este governo simplesmente não se importa com os danos. A crueldade é a intenção — disse em setembro uma fonte do governo ao Guardian, acrescentando que a política tem sido liderada pelo vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller.
Em janeiro, Orlin Hernandez Reyes, de 2 anos, foi deixado com o ex-companheiro de sua tia, conhecido por ser agressivo, quando o ICE deteve sua mãe. Ela implorou aos agentes para que a reunissem com Orlin antes de ser deportada para Honduras, mas isso não aconteceu. Pouco depois, o corpo do menino foi encontrado com ossos quebrados e sinais de abuso sexual, e seu cuidador foi acusado de homicídio, embora tenha se declarado inocente. Apesar do histórico, Toddy Lyons, então diretor do ICE, culpou a mãe de Orlin, afirmando que ela “escolheu deixar seu filho aqui com um assassino violento que tirou a vida dele”.
Também em janeiro, a imagem de agentes detendo Liam Conejo Ramos, de 5 anos, usando um gorro azul com orelhas de coelho e uma mochila do Homem-Aranha, provocou indignação no país. Na época, a atenção pública fez com que celebridades pedissem o fechamento do centro de Dilley, instalação no Texas para onde Ramos e muitos outros menores como ele foram encaminhados — e que havia sido encerrada em 2021, sob Biden. Diante da pressão, o governo Trump começou a enviar menos crianças para o local, mas as detenções não pararam.

Até julho, o ICE deteve mais que o dobro de menores em comparação com o mesmo período do ano passado. Sob o segundo mandato de Trump, o ICE prendeu mais de 8,5 mil menores, sendo pelo menos 560 bebês e crianças pequenas. Muitas delas foram mantidas em locais onde advogados e familiares não conseguiam encontrá-las, como hotéis e salas de detenção em edifícios comerciais. Ao Guardian, Becky Wolozin, advogada do National Center for Youth Law, descreveu esses lugares como “caixas-pretas” onde as famílias desaparecem.
— Nós, que trabalhamos com a comunidade, estamos perturbados. Acompanhamos o sofrimento e a dor dessas famílias, em todos os níveis — disse ao GLOBO Heloísa Galvão, co-fundadora e diretora executiva do Brazilian Women’s Group, em Massachusetts. — Testemunhamos o medo, o pavor de sair de casa e ir a algum lugar que tenha muita gente. O pavor de ir à escola, ao hospital, à igreja. As crianças estão sendo caçadas.
Para analistas, embora a situação se assemelhe com a política de “tolerância zero” de Trump em seu primeiro mandato (2017-2021) — quando crianças eram separadas de seus pais na fronteira —, o cenário atual é ainda pior. Agora, avaliam, não existe uma política explícita de separação familiar, o que torna mais difícil contestá-la na Justiça. Ao mesmo tempo, enquanto em 2018 funcionários públicos trabalharam dentro do governo Trump para tentar impedir as separações, muitos dos servidores considerados insuficientemente leais ao presidente foram demitidos nos primeiros meses de seu segundo mandato.
Em outra frente, o governo também atuou para cortar os recursos com os quais o Escritório de Reassentamento de Refugiados (ORR) financia uma rede nacional de organizações que há anos presta serviços jurídicos a menores migrantes desacompanhados. A medida foi barrada por uma juíza federal, mas meses depois o governo deixou de pagar, e, em julho deste ano, deixou vencer o contrato com a Acacia Center for Justice, que administrava cerca de 100 instituições. Antes, o governo chegou a condicionar os pagamentos à entrega de informações confidenciais sobre os representados pela rede, cerca de 20 mil crianças e adolescentes.
Em nota, a ORR afirmou que, em agosto, repassou recursos para o restante do ano à Comissão Americana para Refugiados e Imigrantes (USCRI), que está “presente 100% das audiências e ampliou seus serviços para oferecer orientação jurídica, consultas legais e representação direta” dos menores. A USCRI, porém, tem apenas cerca de 50 advogados, diante dos 800 da Acacia, segundo a organização.
— Sabemos que, sem um advogado, crianças desacompanhadas conseguem o direito de permanecer nos EUA em menos de 1% dos casos — disse Alexa Sendukas, advogada do Galveston-Houston Immigrant Representation Project, uma das organizações que oferecem assistência jurídica a crianças migrantes, ao Guardian. — E elas vieram para os Estados Unidos em busca de segurança e proteção. O que este governo está nos pedindo agora é que viremos completamente as costas para elas. E, sem dúvida, elas serão enviadas para situações prejudiciais e perigosas. Tenho medo de que algumas sejam mortas.
Historicamente, menores desacompanhados são definidos como crianças que chegam sozinhas à fronteira dos EUA, sem pai, mãe ou responsável legal. Enquanto adultos e famílias estão sujeitos à possibilidade de detenção pelo Departamento de Segurança Interna (DHS), menores desacompanhados deveriam ser rapidamente transferidos para a custódia do ORR. A determinação, prevista na Constituição, reconhece que crianças que estão sozinhas no país não deveriam depender, para seus cuidados, da mesma agência que tenta deportá-las.
Ainda assim, práticas de acolhimento vêm sendo enfraquecidas há meses. Clientes que aguardavam o green card passaram a receber ordens de deportação em vez de mais tempo para a análise de seus casos e, em julho, segundo a organização Jewish Family and Community Services of Pittsburgh (JFCS), o mesmo começou a acontecer com crianças sobreviventes de tráfico de pessoas.
Sarah Hough, diretora de serviços jurídicos de imigração da JFCS, disse ao Guardian não fazer “ideia” do que os menores encontrarão quando forem deportados — ou para quem eles estão sendo enviados. Enquanto o governo argumenta estar expulsando “os piores entre os piores”, dizem especialistas, muitos dos detidos são crianças vulneráveis que possuem caminhos viáveis para permanecer legalmente nos EUA.
— Aquilo que uma sociedade tolera que aconteça com crianças — disse Dana Gold, diretora de operações da JFCS —, ela tolerará que aconteça com qualquer pessoa.
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