Agentes do Departamento de Segurança Interna dos EUA realizaram uma operação de busca e apreensão na residência da deputada democrata Ilhan Omar, uma das mais ferrenhas críticas do presidente Donald Trump. Segundo a imprensa americana, a ação estaá ligada a um inquérito do Departamento de Justiça sobre o status migratório de Omar, que nasceu na Somália. Mas para a parlamentar, que tenta a reeleição nas eleições do mês que vem, se trata de uma “tentativa de visar adversários políticos e instrumentalizar as forças de segurança federais” por parte da Casa Branca,
Os agentes chegaram à casa de Omar em Washington às 4h30 da manhã desta segunda-feira, autorizados por uma ordem judicial, apontou o Departamento de Justiça através de um porta-voz. Ele não quis dar detalhes sobre o foco da investigação, mas o New York Times, citando fontes do governo americano, afirma que ela está relacionada a questões migratórias: o mandado que permitiu a operação lista alguns possíveis crimes, como declarações falsas e fraude em documentos de imigração, além de uma acusação de conspiração.
— Estou confirmando que o ICE (polícia migratória dos EUA) está sim, como eu disse meses atrás, isso é algo que foi relatado e precisa ser apurado — disse Tom Homan, czar das fronteiras de Trump, à Fox News nesta segunda-feira, ao ser perguntado se Omar é alvo de uma investigação.
Nascida na Somália nos anos 1980, no auge da guerra civil, Ilhan Omar passou parte de sua infância em um campo de refugiados no Quênia, antes de sua família ser admitida nos EUA na condição de refugiados. Em 2017, deu início à sua carreira política quando foi eleita para a Assembleia Legislativa de Minnesota, e dois anos depois chegou à Câmara dos Deputados pelo mesmo estado, se juntando à bancada de democratas progressistas.
Mulher, negra, muçulmana e imigrante, Ilhan Omar é um dos alvos preferidos do trumpismo, que há anos questiona seu status migratório — ela se tornou cidadã americana em 2000, quando tinha 17 anos. Uma das teorias mais conhecidas, difundidas até por membros do Gabinete de Trump, é a de que teria se casado com o próprio irmão para facilitar a entrada dele nos Estados Unidos. Jamais foram apresentados documentos que comprovassem essa e outras alegações. Outra linha questiona se o pai dela, Nur Omar Muhammad, mentiu ou omitiu informações durante o processo de naturalização. Ele morreu em 2020.

Em janeiro, o próprio Trump disse que o Departamento de Justiça abriria uma investigação contra a deputada, afirmando, sem provas, que ela “saiu da Somália sem NADA e agora, segundo relatos, tem um patrimônio de mais de 44 milhões de dólares”.
— Estamos tentando analisar quais são as medidas cabíveis — disse o vice-presidente dos EUA, JD Vance, em entrevista a um podcast em setembro. — É isso que estamos tentando descobrir: quais são os recursos legais, agora que sabemos que ela cometeu fraude imigratória, para agir contra ela, investigá-la e construir o caso necessário para garantir justiça ao povo americano?
Logo após a operação de busca e apreensão, Omar foi à rede social X afirmar que se tratava de “uma tentativa de atacar adversários políticos e instrumentalizar as forças de segurança federais”.
“Há dez anos, Trump me ataca com mentiras infundadas e campanhas de difamação. Esta é apenas a mais recente escalada de sua campanha de intimidação política”, acrescentou. “Eu não serei silenciada.”
Além da pouca nitidez sobre as acusações contra a deputada, chama a atenção o fato da operação ter ocorrido a apenas 22 dias das eleições que renovarão a Câmara dos Deputados e parte do Senado, uma votação que, segundo as pesquisas, pode impor uma dura derrota a Trump. Uma norma interna do Departamento de Justiça pede que promotores e agentes ajam com cautela durante uma janela de 60 dias antes de eleições, e que evitem ações com potencial de interferir no processo eleitoral. Uma norma que foi observada nos últimos anos.
“A operação realizada pela administração Trump na casa da deputada Ilhan Omar é profundamente perturbadora e levanta sérias questões sobre a contínua e corrupta instrumentalização do governo federal contra os adversários de Donald Trump”, afirmaram, em comunicado, representantes da liderança democrata na Câmara.
Omar não é a única rival de Trump na mira do Departamento de Justiça, que nos EUA tem acumula poderes similares ao de um procurador-geral e pode iniciar investigações por conta própria. No ano passado, John Bolton, ex-conselheiro de segurança nacional do republicano e hoje um feroz crítico, foi alvo de uma operação de busca e apreensão, e em junho se declarou culpado por usar documentos sigilosos de forma indevida.
Lisa Cook, integrante do Conselho de Diretores do Banco Central americano(Fed), é investigada por fraude com hipotecas, e na semana passada uma comissão de inquérito foi instaurada para analisar o caso. O presidente determinou ainda que o Departamento de Justiça investigue o senador Adam Schiff, a procuradora-geral de Nova York Letitia James e o ex-diretor do FBI James Comey, citando hipotéticos crimes financeiros. Os três são notórios críticos do republicano.
“O povo americano merece transparência”, concluiu o comunicado da liderança democrata.
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