Obra pretende transformar aeródromo de Campo Grande em estrutura apta a receber aeronaves maiores, com novos equipamentos de segurança e operação por instrumentos
Para Lúcio Pereira de Souza, acompanhar as obras no Aeródromo Santa Maria é também assistir a mais um capítulo de uma história familiar que começou há mais de quatro décadas. Piloto e proprietário de um hangar no local, ele viu a relação de sua família com a aviação atravessar gerações desde os anos 1980, quando seu bisavô, Etalívio Pereira, construiu o Hangar EP.
“É uma viagem no tempo que começou na década de 80, logo na criação do aeródromo”, conta. Na memória de Lúcio permanecem as aeronaves dos tios José e Eda Pereira abrigadas no antigo hangar. Hoje, ele próprio trabalha com serviços aeronáuticos no Santa Maria e acompanha uma transformação que considera necessária para quem utiliza diariamente a estrutura.
O aeródromo passa atualmente pela maior intervenção de sua estrutura, com investimento de R$ 45 milhões do Governo de Mato Grosso do Sul. A pista será ampliada dos atuais 1.500 para 1.800 metros, receberá novo pavimento e será acompanhada por equipamentos destinados a permitir operações mais seguras, inclusive procedimentos por instrumentos.
Depois da conclusão dos trabalhos e do processo de homologação pelos órgãos competentes, o Santa Maria poderá mudar de categoria e ganhar status de aeroporto, embora mantenha sua vocação voltada principalmente à aviação executiva e geral, e não ao transporte comercial regular de passageiros.
A mudança é particularmente significativa para quem já utiliza intensamente o local. Segundo o empresário Auderi Dal Lago, conhecido como Alemão, que possui 11 hangares no Santa Maria e acompanha a obra, aproximadamente 280 aeronaves ficam baseadas no aeródromo, que registra cerca de 1,5 mil pousos e decolagens por mês.
Há 16 anos no local, ele diz que a modernização era aguardada.
“A pista será ampliada e recapeada, assim poderá receber aeronaves maiores. Estamos diante de uma obra ímpar, que vai tornar este local uma referência”, afirma.
Segurança para quem está no ar
Parte importante da transformação ocorrerá longe dos olhos de quem simplesmente passa pela entrada do aeródromo, mas terá impacto direto sobre pilotos e passageiros.
O projeto prevê a instalação de balizamento em LED com acionamento automático, estação meteorológica de superfície e equipamentos PAPI — sigla em inglês para um sistema de luzes que auxilia o piloto a identificar se está na trajetória correta durante a aproximação para o pouso.
O conjunto deverá ampliar as condições de operação do Santa Maria e permitir procedimentos de aproximação por instrumentos, reduzindo a dependência exclusiva das condições visuais.
Para Lúcio, que também vivencia o aeródromo da cabine de uma aeronave, essa é uma das principais mudanças.
“Com o aeroporto operando por instrumentos, a segurança operacional aumenta, o que torna a operação mais precisa e segura tanto para os pilotos quanto para os passageiros”, afirma.
A obra também inclui melhorias fora da pista. A rua de acesso aos hangares recebe nova pavimentação, uma demanda antiga de quem trabalha ou mantém aeronaves no local.
Uma estrutura para acompanhar a economia
A modernização do Santa Maria integra um plano mais amplo do Governo de Mato Grosso do Sul para ampliar e recuperar a infraestrutura aeroviária estadual.
A gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, estima investimentos de até R$ 250 milhões em obras relacionadas a aeródromos até o fim de 2026.
A justificativa apresentada pelo governo é adequar a infraestrutura de transporte ao crescimento da economia sul-mato-grossense e aos novos investimentos privados em setores industriais e cadeias produtivas instaladas no Estado.
No caso de Campo Grande, a intenção é ampliar a capacidade de atendimento da aviação executiva, utilizada principalmente por empresários, investidores e profissionais que precisam se deslocar com rapidez entre diferentes regiões.
Lúcio relaciona esse aumento da demanda aos novos corredores econômicos que estão sendo estruturados em Mato Grosso do Sul.
“Esta obra de ampliação é muito positiva e necessária. Ela veio no melhor momento devido aos projetos da Rota Bioceânica e da Rota da Celulose, que, de forma direta, impactaram a aviação executiva de médio e grande porte no Estado, principalmente aqui na Capital”, afirma.
O governador Eduardo Riedel também vincula os investimentos à necessidade de infraestrutura para acompanhar a expansão econômica.
“Estamos fazendo investimentos no setor aeroviário em diversas cidades. Esta infraestrutura e logística de qualidade precisam acompanhar o desenvolvimento e a economia do Estado”, afirmou.
Segundo ele, além de atender atividades econômicas, a rede aeroviária também pode ser utilizada em operações de atendimento médico e no apoio ao combate aos incêndios florestais.
Aeroporto, mas sem voos comerciais
Apesar da mudança de estrutura e da possibilidade de o Santa Maria ser classificado como aeroporto, a proposta não é transformá-lo em um segundo terminal comercial de Campo Grande.
A vocação continuará sendo a aviação executiva e geral.
“Santa Maria tem uma vocação para aviação executiva e geral e não para a comercial”, explica o superintendente Logístico da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Seilog), Derick Machado de Souza.
Segundo ele, a ampliação da pista e os novos equipamentos deverão permitir a operação de aeronaves de maior porte. Também está prevista a construção de uma estrutura de recepção destinada às tripulações e aos passageiros desses voos.
“Não vai ter, por exemplo, venda de passagens”, esclarece.
Na prática, a mudança pretende ampliar as condições para receber aviões particulares, corporativos e outras aeronaves da aviação geral sem alterar o perfil principal do Santa Maria.
Dez etapas até a conclusão
As obras começaram em junho e foram divididas em dez fases.
Na etapa inicial, os trabalhos se concentram na terraplanagem da área onde a pista será prolongada e na pavimentação da entrada do aeródromo. Segundo o Governo do Estado, aproximadamente 340 metros de asfalto já foram concluídos, e o serviço deverá avançar para a área interna.
O secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Guilherme Alcântara, afirma que o planejamento inclui não apenas as obras físicas, mas também o processo necessário para homologar a nova estrutura.
“Santa Maria vai ser dotado de mecanismos para se tornar um aeroporto, com melhores condições de operação para decolagens e pousos”, afirmou.
A previsão apresentada pelo governo é concluir integralmente os trabalhos e os procedimentos necessários até maio de 2027.
Para quem acompanha o Santa Maria há décadas, porém, a transformação não se resume a novos metros de pista, iluminação ou pavimento.
Auderi Dal Lago vê na obra uma mudança capaz de proporcionar mais segurança e conforto a quem utiliza o espaço e também melhores condições para receber quem chega a Mato Grosso do Sul.
“Quem vem de fora também será melhor acolhido, o que facilita inclusive novos empreendedores a investir na Capital e no Estado”, afirma.
Para Lúcio, a modernização acrescenta uma nova camada a uma história que começou com seu bisavô ainda nos primeiros anos do aeródromo. O antigo Hangar EP pertence às lembranças familiares; a pista ampliada, os novos equipamentos e a possibilidade de operar por instrumentos apontam agora para a próxima etapa do Santa Maria.
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