A 17 dias do primeiro turno das eleições, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliou o pacote de bondades que vem divulgando a conta-gotas, na tentativa de conquistar votos e conter o avanço do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à sua sucessão. Nesta quinta-feira, Lula anunciou o reajuste de 15,04% nos benefícios do Bolsa Família e, nos próximos dias, divulgará medidas para reduzir o endividamento das famílias e proibir cassinos online, como o jogo do Tigrinho.
O pacote também inclui medidas ainda em tramitação no Congresso, como o projeto de lei enviado ao Legislativo pelo governo, há três meses, prevendo o aumento do limite de faturamento de microempreendedores individuais (MEIs). A proposta eleva o teto do MEI de R$ 81 mil para R$ 140 mil nos próximos anos.
Nos últimos dias, levantamentos de intenção de voto têm indicado o crescimento de Flávio. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira, por exemplo, mostrou que Lula e Flávio estão tecnicamente empatados no primeiro e no segundo turnos da disputa, se considerada a margem de erro. O presidente tem 39% na primeira rodada e o senador, 36%. Na simulação de segundo turno, Lula aparece com 46% e Flávio, com 44%.
Na corrida contra o tempo para obter apoio, Lula também anunciou, à tarde, que canetas emagrecedoras serão distribuídas gratuitamente pelo SUS para pacientes com obesidade. Embora não tenha dado prazo para a nova promessa entrar em vigor, a novidade foi publicada no perfil do presidente nas redes sociais.
“Essa canetinha vai ser utilizada para cuidar, de graça, das pessoas que tenham obesidade, quando o médico detectar que um homem ou uma mulher tem problema de se curar”, disse o presidente ao visitar o Complexo Industrial da Eurofarma, em Montes Claros (MG).
As recentes sondagens de voto coincidem com monitoramentos analisados pela campanha de Lula, revelando que eleitores com renda de dois a cinco salários mínimos têm migrado para Flávio. É por este motivo que o presidente resolveu abrir ainda mais o cofre.
Foi assim que tanto o projeto do MEI, destinado a conquistar o público do empreendedorismo, como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do fim da escala 6×1 – ainda não aprovada pelo Senado –, viraram carros-chefe da campanha de Lula.
No caso do Bolsa Família, o aumento de última hora teve o objetivo de manter um eleitorado do PT que está migrando para o candidato do PL. A decisão de turbinar o programa foi tomada na quarta-feira, 16, após o Palácio do Planalto ser informado de que Flávio havia conquistado mais apoio entre eleitores que antes votavam no PT.
O reajuste dos benefícios do Bolsa Família custará R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22,7 bilhões em 2027. Com o aumento, a parcela mínima do programa passará de R$ 600 para R$ 691. O valor médio subirá de R$ 675 para R$ 677.
Neste terceiro mandato, os gastos de Lula já somam R$ 269 bilhões, conforme o Gastômetro, ferramenta do Estadão que monitora em tempo real os desembolsos do governo no ano eleitoral.
Assustado com a sucessão de más notícias que têm batido à porta do Planalto, incluindo até mesmo a crise no Supremo Tribunal Federal (STF), Lula tem tomado medidas que antes chamava de “eleitoreiras”. Foi assim em 2022, quando o então presidente Jair Bolsonaro, candidato a novo mandato, conseguiu aprovar no Congresso uma PEC elevando de R$ 400 pra R$ 600 o Auxílio Brasil – nome do Bolsa Família à época.
Agora, os benefícios reajustados serão pagos a partir de 19 de outubro, entre o primeiro e o segundo turno das eleições. Os novos valores não constavam no Orçamento e, por isso, o governo terá de remanejar recursos de uma área para outra.
“Não tem solavanco. Não tem mudança de rumo”, afirmou o ministro da Fazenda, Dario Durigan. “Estamos fazendo o dever de casa para incorporar (o reajuste de 15,04%) no Orçamento que já está previsto para este ano”.
Lula também está convencido de que é preciso tomar uma “medida drástica” para derrubar as apostas online, conhecidas como bets, que corroem não apenas o poder de compra das famílias como a sua popularidade.
Pesquisas indicam que 70% dos brasileiros apoiam a proibição das bets. Além disso, o governo tem estudos sinalizando que a principal causa do endividamento da população está nos jogos.
Como mostrou o Estadão, o presidente planeja editar uma Medida Provisória proibindo cassinos digitais, mas também avalia ampliar essa iniciativa e extinguir os jogos online no País. Casas de apostas e clubes de futebol, porém, pressionam o Planalto a não adotar a medida.
Lula ainda não bateu o martelo sobre as várias alternativas à sua mesa, mas, por enquanto, sua ideia é vetar ao menos jogos como o do Tigrinho e o Aviator. Se adotada, a Medida Provisória terá efeito imediato e estará em vigor em outubro, mês das eleições.
O comando da campanha de Lula tem recebido muitas críticas de aliados, que veem o governo na defensiva diante da crise no STF e de críticas de Flávio. Em entrevista à Rádio Itatiaia, Lula associou o adversário ao escândalo do Banco Master e defendeu a investigação conjunta dos ministros do STF Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Na prática, apoiou a decisão do ministro Flávio Dino de pedir vista (mais tempo para análise) sobre o caso, arrastando a decisão para depois das eleições. “Se o Alexandre de Moraes cometeu erro, é decisão da Suprema Corte. Se tiver errado, vai ter que pagar pelo que cometeu. Mas queremos o mesmo para todo mundo”, afirmou Lula.
Para o vice-presidente do PT, Washington Quaquá, a campanha de Lula está descoordenada e fala apenas para convertidos. “Flávio Bolsonaro vai para a televisão, para dentro de um supermercado, e fala da vida real, concreta – que, aliás, era muito pior no governo do pai dele e hoje está muito melhor com Lula. Ele vai lá fazer fake news dentro do supermercado, mas fala da vida real, de coisas do dia a dia. E nós falando de terras raras”, criticou Quaquá, que também é prefeito de Maricá (RJ), em vídeo postado nas redes sociais. “Tem que falar da vida do povo e sair dessa ideologia boba, fora da vida do povo. Vamos falar do que importa”.
Exigência de Trump será usada na campanha para impulsionar defesa da soberania
Além de apontar para o futuro, a campanha de Lula vai usar novamente o tarifaço sobre produtos brasileiros como argumento para destacar o discurso de soberania, desta vez abordando a tentativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de interferir nas eleições.
O Estadão revelou, nesta quinta-feira, que o governo Trump exigiu de Lula, durante negociações diplomáticas sigilosas, que “dissidentes políticos” no Brasil não fossem presos ou impedidos de participar das eleições. A exigência consta de documento enviado pelos americanos aos negociadores brasileiros, em 16 de outubro do ano passado.
Era, na prática, um recado de que Trump queria a anistia a Jair Bolsonaro – naquela ocasião já condenado pelo STF por tentativa de golpe – para que ele participasse das eleições.
Em discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, na terça-feira, 22, Lula também defenderá a soberania nacional e criticará tentativas de interferência estrangeira na disputa pelo Planalto. As cenas aparecerão no programa de TV do presidente, no horário eleitoral gratuito.
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