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Qualificação amplia caminhos para mulheres em Mato Grosso do Sul

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
03/09/2026
in Eleições
Reading Time: 8 mins read
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Experiência de empreendedora de Campo Grande mostra como capacitação promovida pelo Governo Riedel pode se transformar em renda e liberdade de escolha

Durante anos, a rotina de Cleysla Marques Galindo começava e terminava em torno do emprego no comércio. Moradora do bairro Tijuca, em Campo Grande, ela trabalhava de segunda a sábado e tentava encaixar, nas poucas horas disponíveis, uma vontade antiga: construir algo que fosse seu.

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Vieram os doces, porta-joias, velas aromáticas e outros produtos vendidos a amigas e familiares. Faltava, porém, tempo para transformar a renda extra em um negócio.

“Eu sempre quis trabalhar para mim mesma, mas não conseguia focar de verdade porque trabalhava de segunda a sábado. Meu dia era todo dedicado à empresa e eu não tinha tempo para divulgar o meu trabalho.”

No início deste ano, aos 26 anos, Cleysla deixou o emprego com carteira assinada, fez um curso para atuar como designer de unhas e passou a investir também em uma loja de cestas presenteáveis. Faltava aprender a alcançar novos clientes.

Foi quando, por indicação de um amigo, chegou ao curso gratuito de Ferramentas de Marketing Digital oferecido pela Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab), em parceria com o Senac.

“Conheci várias ferramentas e estratégias de vendas online que eu não conhecia. Esse curso foi essencial para que eu conseguisse trabalhar para mim mesma.”

Cleysla passou a utilizar técnicas de divulgação, produção de vídeos e tráfego pago nas redes sociais. Hoje, seis meses depois de deixar o emprego formal, atende clientes em casa, trabalha como designer de unhas e mantém a venda das cestas.

A mudança também chegou à rotina.

“Hoje eu tenho tempo e qualidade de vida. Se precisar desmarcar um horário para visitar minha mãe ou resolver alguma coisa, tenho essa liberdade.”

A experiência de Cleysla ajuda a traduzir um desafio vivido por milhares de mulheres em Mato Grosso do Sul: transformar qualificação em trabalho, renda e autonomia.

Nesse cenário, o Governo de Mato Grosso do Sul, sob a gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, vem aproximando políticas de qualificação, encaminhamento para vagas e estímulo ao empreendedorismo.

Mais mulheres no mercado, mas desigualdades permanecem

Entre 2015 e 2025, a força de trabalho feminina cresceu 20,5% em Mato Grosso do Sul, praticamente o dobro do avanço registrado entre os homens, de 10,3%. A participação das mulheres no mercado chegou a 57,2%, acima da média nacional.

Elas, entretanto, continuam enfrentando diferenças salariais, menor presença em posições de comando e uma divisão desigual das responsabilidades domésticas. Dedicam, em média, 21,4 horas por semana ao trabalho dentro de casa. Entre os homens, são 11 horas.

Entre 2025 e 2026, foram desenvolvidos cursos específicos para mulheres, adesão ao Programa Mulheres Mil, criação do MS Qualifica Digital, intermediação de oportunidades pela Funtrab e ampliação das condições de acesso ao FCO Mulheres Empreendedoras.

“O desafio é avançar além do número de inscrições e certificados e acompanhar quantas mulheres efetivamente conseguem emprego, permanecem no mercado ou tornam seus negócios sustentáveis”, explica o governador.

Quando o curso encontra uma vaga

Em março de 2025, Governo do Estado e Sebrae anunciaram cursos presenciais e on-line de qualificação, empreendedorismo e independência financeira em Campo Grande e outros oito municípios.

A descentralização reduz a necessidade de deslocamento até a Capital, mas a formação precisa estar conectada às oportunidades existentes depois da sala de aula.

Essa é uma das propostas do Programa Mulheres Mil, iniciativa federal executada no Estado com participação da Secretaria de Estado de Educação e da Funtrab. Mato Grosso do Sul aderiu à nova etapa em abril de 2025, combinando escolaridade, qualificação e inclusão de mulheres em situação de vulnerabilidade.

Em novembro, participantes de um curso de recepcionista no Jardim Aeroporto, em Campo Grande, receberam orientação profissional, cadastraram currículos na Funtrab e algumas saíram com entrevistas marcadas. O balanço disponível, porém, não informa quantas foram contratadas.

“Quando formação e intermediação caminham juntas, cresce a possibilidade de gerar renda”, afirma Riedel.

Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com saldo positivo de 19.756 empregos formais. A construção civil liderou a abertura líquida de postos, seguida por serviços, indústria, comércio e agropecuária.

As mulheres, contudo, permanecem concentradas em alguns setores. Os serviços respondem por 65% da ocupação feminina, seguidos pelo comércio, com 18,8%, e pela indústria, com 15,1%.

Formação precisa acompanhar o mercado

Uma das ferramentas criadas para aproximar qualificação e emprego é o MS Qualifica Digital, lançado pela gestão Riedel em abril de 2025. A plataforma reúne cursos, vagas, currículos, empresas e instituições de ensino, buscando orientar a formação profissional pelas necessidades do setor produtivo.

Nos primeiros meses daquele ano, a Funtrab registrou mais de 125 mil atendimentos, quase 50 mil encaminhamentos e mais de 10 mil trabalhadores colocados no mercado. Os dados divulgados, entretanto, não possuem recorte por sexo.

“Sem essa divisão, não é possível saber em que medida mães, mulheres mais velhas, vítimas de violência e trabalhadoras afastadas do emprego formal estão alcançando as oportunidades”, afirma Riedel.

Para a economista Daniela Teixeira, a eficácia da qualificação depende da aproximação entre o que é ensinado e aquilo que as empresas procuram.

“A qualificação precisa estar ligada às vagas reais e conectada ao contexto e às expectativas do empregador”, explica.

Segundo Daniela, habilidades como comprometimento, responsabilidade e postura profissional também ganharam peso nos processos seletivos.

Cleysla percebeu essa aplicação prática imediatamente. O que aprendeu em sala passou para o celular e para a rotina do negócio.

“Hoje consigo alcançar pessoas que se tornam minhas clientes através das redes sociais. Aprendi a fazer tráfego pago, criar vídeos com mais alcance e divulgar melhor o meu trabalho.”

Trabalho, filhos e uma jornada que não termina no emprego

Para muitas mulheres, conseguir uma vaga não encerra os obstáculos.

Daniela observa que responsabilidades com filhos e família continuam interferindo de maneira desigual na trajetória profissional feminina. Consultas médicas, amamentação, cuidados cotidianos e horários incompatíveis podem dificultar tanto o retorno ao trabalho quanto sua permanência.

“Essa necessidade de conciliar o trabalho com os cuidados dos filhos ainda pesa bastante”, afirma.

Nesse contexto, o empreendedorismo pode oferecer maior flexibilidade, embora abrir um negócio não garanta, por si só, renda estável.

Em Mato Grosso do Sul, 171.825 empresas são comandadas por mulheres, o equivalente a 44,9% dos negócios, segundo levantamento divulgado em março de 2026. A presença feminina é maior no comércio, nos serviços e na agropecuária.

Entre março de 2025 e fevereiro de 2026, uma parceria da Secretaria de Estado da Cidadania com o Sebrae realizou ações de empreendedorismo e inclusão produtiva em 19 municípios, alcançando também mulheres indígenas, quilombolas, mães de pessoas com deficiência e integrantes de famílias atípicas.

São realidades diferentes e, por isso, demandam formas distintas de apoio.

“A política deve combinar capacitação, acesso a mercados, orientação de gestão e crédito adequado ao porte de cada negócio”, afirma Riedel.

Crédito para transformar uma ideia em negócio

Em março de 2026, foram ampliadas as condições do FCO Mulheres Empreendedoras. Além das empresas nas quais mulheres possuem maioria do capital, passaram a ter acesso à modalidade negócios administrados ou dirigidos por elas.

Para Daniela Teixeira, o avanço feminino no empreendedorismo produz reflexos nas famílias e comunidades, mas ainda convive com menor presença em setores tradicionalmente masculinos e nos cargos de liderança.

“O esforço das mulheres ainda é significativamente maior quando comparado ao dos homens. Elas precisam permanecer no mercado de trabalho, conciliar os cuidados com os filhos e superar barreiras que ainda existem”, analisa.

São obstáculos que a qualificação, sozinha, não consegue resolver. Sobrecarga doméstica, disponibilidade de creches, custo de transporte, discriminação por idade e jornadas incompatíveis continuam pesando sobre a permanência feminina no trabalho.

Renda também amplia a liberdade de escolha

A autonomia econômica também passou a integrar as políticas estaduais de proteção às mulheres.

Ter renda própria não elimina a violência doméstica, mas pode ampliar as possibilidades de uma vítima deixar o agressor, manter a própria moradia, sustentar os filhos e reorganizar a vida. Essa relação entre trabalho e proteção foi incorporada ao Programa Protege.

A estratégia considera que conhecer os direitos e canais de denúncia pode não ser suficiente quando a dependência financeira impede uma mulher de enxergar condições concretas para viver longe do agressor.

Para a gestão estadual, o próximo desafio é acompanhar melhor esse percurso: da capacitação à entrevista, da contratação à permanência no emprego e, no empreendedorismo, do acesso ao crédito à sustentabilidade do negócio.

“Não basta contar inscrições, certificados, currículos ou propostas de crédito. É necessário medir contratação, salário, permanência no emprego, sobrevivência dos negócios e mudança efetiva na vida das beneficiárias”, afirma Riedel.

Para Cleysla, esse percurso ganhou uma forma concreta. O curso não criou sozinho seu empreendimento nem eliminou os riscos do trabalho por conta própria, mas ofereceu ferramentas para sustentar uma decisão que ela já havia tomado.

“Saí da loja, comecei a empreender e não parei mais. Hoje consigo trabalhar 100% para mim mesma.”

Entre indicadores, programas e oportunidades, é nesse movimento cotidiano que a política de qualificação encontra sua medida mais importante: fazer com que uma porta aberta em sala de aula consiga levar à renda e, com ela, ampliar a liberdade de escolha.

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