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Casas de luxo a sócios e cuidados para ocultar sociedade: a longa ligação de Toffoli com o Tayayá

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
20/03/2026
in Justiça
Reading Time: 10 mins read
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Convidados de Toffoli não foram cobrados em festa de Ano Novo no Tayayá, diz funcionária do resort

A última visita de Dias Toffoli ao resort Tayayá, do qual seus irmãos foram sócios, ocorreu nas festa de fim de semana. Crédito: Taba Benedito/ Estadão e Pedro Augusto Figueiredo/ Estadão

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli estava por trás do resort Tayayá desde o início do empreendimento — que começou a ser projetado em 2006 —, embora só tenha se tornado sócio formalmente em 2021. Uma empresa em sociedade anônima controlada pelos seus irmãos e até veto a fotos em eventos com sócios fizeram parte dos cuidados para não deixar pistas de que o ministro era um dos donos do negócio.

Para terminar o empreendimento, uma das empresas da família Toffoli, a DGEP Empreendimentos — incorporadora do resort —, tomou um empréstimo bancário de R$ 20 milhões em 2016, como mostrou o Estadão. Foi após esse crédito que o Tayayá incluiu no projeto de construção de casas de luxo — em parte, disponibilizadas para uso de Toffoli e de outros sócios. As casas estão prontas.

O Tayayá esteve no centro dos questionamentos acerca da atuação de Toffoli no período em que foi relator do inquérito do Banco Master no STF — o ministro deixou o caso em fevereiro, tendo sido substituído por André Mendonça. Na condição de sócio da administradora e da gestora do resort em Ribeirão Claro, no Paraná, o ministro vendeu uma parte de sua participação a um fundo de investimentos ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master.

Casas do espaço Ecoview no resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR) Foto: Taba Benedicto/Estadão

Mensagens e extratos obtidos pelo Estadão indicam que o fundo destinou R$ 35 milhões ao resort. Quando as informações vieram a público, o ministro quebrou o silêncio e admitiu ter sido sócio do Tayayá, mas negou ter recebido dinheiro de Vorcaro e de seu cunhado, o pastor Fabiano Zettel, que é formalmente o cotista do fundo.

Além disso, conforme revelou o Estadão nesta sexta-feira, 20, a J&F, controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, injetou R$ 25,9 milhões na empresa que comprou as cotas do Tayayá em 2025.

À reportagem, Toffoli afirmou que sempre foi investidor do Tayayá e que todo o seu patrimônio foi declarado à Receita Federal. Ele negou ter dado orientação para não ser fotografado em eventos do resort e disse que, se esse tipo de ordem existiu, foi em razão de um provável “protocolo de segurança”.

‘Crendice popular’

A história do resort foi reconstituída pelo Estadão a partir de documentos de cartório e relatos de sócios e empresários envolvidos com o Tayayá. Em conversas com a reportagem, sócios e prestadores de serviços que trabalharam no projeto e nas vendas do resort pediram para que seus nomes não fossem revelados. Eles afirmaram ter receio de retaliações justamente por falar sobre o envolvimento de Toffoli com o negócio. E dizem que o ministro manteve-se como investidor e, depois, como sócio formal do empreendimento, mas de forma sigilosa e fora de registros públicos, para evitar que houvesse cobertura da imprensa sobre sua relação com o resort.

O ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli  Foto: Wilton Junior/Estadão

Em 2025, a participação de todos os sócios, incluindo as de Toffoli e seus parentes, foi comprada pelo advogado Paulo Humberto Barbosa, que presta serviços à JBS e é sócio em uma empresa de participações do genro do irmão mais velho de Joesley e Wesley Batista.

O novo dono do resort é um exemplo de como se tentou blindar Toffoli de ser associado ao resort. Em uma conversa com o Estadão no fim de janeiro, Barbosa, que comprou a parte do ministro no Tayayá, negou que Toffoli fosse dono do resort. “Eu estive com o ministro. Eu o encontrei no réveillon desse ano (de 2025) e o tratei como um condômino comum, como um hóspede comum.” À época, Toffoli ainda não havia admitido publicamente ser sócio do Tayayá, e Barbosa, quando questionado, rechaçava a participação do ministro: “Isso é crendice popular. É uma cidade tão carente, e aí chega um cara, e dizem: nossa! Zero (relação com Toffoli)”, disse.

Questionado pela reportagem depois de Toffoli assumir que foi sócio do Tayayá sobre o motivo de ter negado o vínculo, Barbosa silenciou.

O ministro, o primo e o resort

Em julho de 2000, o empresário Mario Umberto Degani, o Beto, filho do dono de uma loja de material de construção em Marília, no interior de São Paulo, comprou, ao lado do sócio, o advogado Euclides Gava, mais de 100 mil metros quadrados em terras da Fazenda Laranjeira, onde se plantava café no passado. Beto é primo, e Gava, amigo de longa data do então advogado do PT na Câmara Federal, Dias Toffoli — que seria indicado ao STF nove anos depois pelo presidente Lula. Aquela terra comprada por R$ 40 mil, às margens da represa de Chavantes, seria usada para erguer o Tayayá Ribeirão Claro.

O resort começou a ser planejado em 2006, quando foi registrada a incorporação do terreno para sua construção pela DGEP Empreendimentos. Em 2014, tinha cerca de 70 casas, em modalidades tipo studio, suíte e pousada — residências maiores, de 300m². Continuou crescendo nos anos seguintes.

Sócios e empresários envolvidos na construção e projeto do resort relatam que o quarto andar do Tayayá Ribeirão Claro não seria destinado a vendas. Segundo eles, estaria reservado, na verdade, para uso de seus donos, como era o caso de Toffoli e seus familiares. Tinha até mobília diferente, de uma conhecida marca de luxo do mercado imobiliário.

Empréstimo de R$ 20 milhões e casas de luxo

Como mostrou o Estadão, a incorporadora DGEP contraiu o empréstimo de R$ 20 milhões junto ao Bradesco em 2020. Nos bastidores, a história do empréstimo, segundo sócios, passa pela tentativa de reservar uma área do resort apenas para sócios, como era o caso do ministro e sua família.

Pessoas ligadas ao resort relatam que, com as vendas longe do ideal e um andar inteiro sem ser negociado, o caixa começou a apertar e foi necessário contrair o empréstimo. Até mesmo na matrícula do imóvel, os sócios registraram que somente os apartamentos do quarto andar não poderiam ser dados em garantia ao banco. Depois, os sócios desistiram da ideia e os apartamentos do quarto andar acabaram postos à venda a cotistas.

Após o financiamento, o resort terminou seu prédio principal, o hotel à beira da represa, e construiu imóveis que não estavam previstos originalmente em seu projeto. Em um morro atrás do resort, com vista para toda a margem da represa, foram construídas, a partir de 2022, casas de luxo de 200 metros quadrados, com jardim, piscina e quatro vagas de garagem.

As casas, batizadas de “Ecoview”, custam R$ 9,7 milhões e são vendidas em cotas de multipropriedade — em que os donos possuem períodos de uso de um mesmo imóvel. No caso do Tayayá, as casas estão divididas em 13 cotas que dão o direito a 4 semanas por ano de uso pelos proprietários. Cada uma é vendida por R$ 750 mil.

À diferença do restante do resort, quatro casas Ecoview nunca foram postas à venda e continuaram exclusivas dos sócios. A reportagem identificou pelo menos uma casa Ecoview cujas 13 matrículas de suas cotas continuam em nome da incorporadora fundada por Beto e Gava e que teve o ministro do STF como sócio até 2025. É em uma delas que ele fica quando vai ao resort. Questionado sobre as casas, Toffoli não respondeu se o imóvel é seu ou não, apenas declarou por meio de sua assessoria de imprensa que “todo o patrimônio está devidamente declarado à Receita Federal do Brasil”.

Eventos sem foto e o papel dos irmãos

No papel, Toffoli só passou mesmo a ser sócio do resort em 2020, quando sua empresa, a Maridt, se tornou sócia da incorporadora e da administradora do Tayayá. Mas dois empresários que participaram das vendas e do projeto do resort relataram ao Estadão ter feito tratativas diretamente com o ministro desde 2015 sobre o empreendimento.

Um deles exibiu à reportagem mensagens enviadas a Toffoli sobre o Tayayá. Por ser uma sociedade anônima, a Maridt não tem Toffoli em seus registros públicos. Seu nome está apenas no livro de acionistas, que fica em posse da própria empresa. Ela tem como dirigentes seus irmãos, o engenheiro José Eugênio Dias Toffoli e o padre José Carlos Dias Toffoli. Somente eles assinam registros públicos em nome das empresas.

Além do relato dos sócios, outro rastro da atuação de Toffoli na cidade está em uma homenagem na Câmara Municipal de Ribeirão Claro. Em 2017, quatro anos antes de entrar para a sociedade no papel, ele recebeu o título de cidadão honorário das mãos de vereadores da cidade. Na justificativa da homenagem, a autora do pedido, uma vereadora emedebista, disse que a homenagem se devia à “constante atenção dispensada” pelo ministro “ao município, visando ao desenvolvimento e ao incremento turístico” da região.

Não foi só nos registros públicos de empresas que o ministro ficou escondido. Toffoli também ficou ausente de qualquer imagem que o associasse ao Tayayá até fevereiro de 2026, quando admitiu ser sócio do empreendimento, em meio a questionamentos no caso Master. Em eventos com sócios, fotógrafos e organizadores afirmam ao Estadão que havia orientação expressa para que câmeras jamais clicassem o ministro. O objetivo, segundo eles, seria evitar a exposição pública de Toffoli em questões relacionadas ao resort. O ministro afirmou que “nunca deu qualquer orientação para que não fosse fotografado em eventos”.

Um desses eventos restritos aconteceu em 2023. Naquele mês, um encontro da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) foi sediado no Tayayá Ribeirão Claro. A 100 quilômetros dali, em Bandeirantes, o empresário Patrick Ferro estava construindo o resort Morro dos Anjos. Toffoli, o presidente da AMB, Frederico Mendes Júnior, o apresentador Ratinho e Ferro confraternizaram no resort ainda em construção.

Ferro, Ratinho e Toffoli, como mostrou o Estadão, são sócios em outro Tayayá, o Porto Rico, que fica em São Pedro, na divisa do Paraná com o Mato Grosso do Sul. No mesmo resort Morro dos Anjos, em novembro de 2023, Toffoli compareceu a um show da cantora Ivete Sangalo, junto de uma equipe de segurança destacada para escoltá-lo. Os agentes ganharam diárias do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região para acompanhar o ministro.

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