Qual o papel da IA nas empresas?
A inteligência artificial deixou de ser apenas um suporte e está se tornando o próprio desenho da empresa. Crédito: Edição de vídeo: Anderson Russo
O novo data center da Bytedance, dona do TikTok, será o maior do gênero no Brasil e também da América Latina. Construído pela Omnia, empresa do grupo Pátria Investimentos, o data center está sendo erguido no Complexo do Pecém, próximo a Fortaleza (CE), e terá investimento total previsto de R$ 200 bilhões em cerca de duas décadas.
De acordo com Bytedance, Omnia e Casa dos Ventos (que fornecerá energia para o empreendimento), 100% do abastecimento de energia elétrica para o data center virá de energia eólica.
A fase inicial do projeto, locado unicamente pelo TikTok, terá 200 MW (megawatts) de capacidade de processamento de TI, com consumo elétrico total estimado em 300 MW, uma vez que é necessário energia adicional para sistemas de refrigeração, climatização e infraestrutura geral.
O data center será composto por dois prédios, cada um com capacidade de 100 MW. Nesta primeira fase do projeto, a Omnia investe cerca de US$ 2 bilhões (R$ 10,5 bilhões, em conversão direta) para construir os prédios.
O investimento de R$ 200 bilhões, que equivale a 1,57% do PIB do Brasil em 2025, não será feito de uma só vez. Em vez disso, será diluído ao longo do tempo. O montante inclui R$ 108 bilhões que serão aplicados em aparelhos de alta tecnologia até 2035, assim como investimentos de aprimoramento tecnológico também na década de 2040.

Novo data center do TikTok ficará na região do Terminal Portuário do Pecém, no Ceará
Foto: Tasso Marcelo/Estadão
Durante a construção, a estimativa é de que o empreendimento gere cerca de 4 mil empregos diretos e indiretos. Depois, o data center empregará aproximadamente 500 pessoas. As obras já iniciaram, com a primeira entrega operacional prevista para o terceiro trimestre de 2027 e a conclusão da capacidade total da primeira fase para o início de 2029.
Para efeito de comparação, a capacidade instalada total de data centers no Brasil atualmente gira em torno de 700 MW a 800 MW. Ou seja, sozinho, o projeto representa cerca de 25% da capacidade atual do País.
O data center será utilizado não apenas para processamento de dados vindos de usuários brasileiros do TikTok, mas de todo o mundo. Por isso, a escolha da localização do projeto foi crucial e tem relação global. O nordeste brasileiro é o principal ponto de conexão de diversos cabos submarinos de internet que ligam o Brasil a outros continentes.
O data center é projetado para ser altamente flexível, podendo suportar desde o processamento comum de vídeos e algoritmos até altas densidades para Inteligência Artificial (IA) e processamento de alto desempenho (HPC). Isso permite que o cliente utilize a carga computacional conforme sua necessidade estratégica evolua.
A localização estratégica do data center no Brasil permitirá que o TikTok tenha latência considerada baixa (tempo entre o envio e recebimento de dados), entre 30 a 65 milissegundos, sendo superior à de centros localizados na Ásia ou no norte da Europa ao oferecer processamento de dados para outros países.

Rodrigo Abreu, sócio do Pátria Investimentos, foi presidente da operadora Oi Foto: Divulgação/Pátria Investimentos
Rodrigo Abreu, CEO da Omnia, afirma que o impacto ambiental do data center é baixo e que o projeto foi concebido com circuito fechado de reutilização de água. “Com isso, o consumo é mínimo para a refrigeração do data center. É da ordem de 3 mil litros de água por dia. É um consumo praticamente residencial, equivale ao consumo de seis ou sete residências no máximo”, afirma Abreu.
Benefício fiscal
Ao se instalar em uma ZPE (Zona de Processamento de Exportação), o TikTok aproveita incentivos fiscais federais que tornam o custo de implementação no Brasil comparável ao de hubs internacionais como Estados Unidos, Índia ou Malásia, de acordo com Abreu, da Omnia. Isso resolve a desvantagem tributária histórica do País para investimentos de capital intensivo em infraestrutura digital.
A ZPE do Ceará suspende a cobrança de impostos federais (II, IPI, PIS/PASEP, COFINS), desde que a finalidade da atividade seja a exportação.
A área foi criada em 2010, com início da operação em 2013, com investimento de R$ 54 milhões do governo do Ceará. A ZPE abrange uma área de 6.182 hectares e tem como objetivo colocar as empresas nacionais em igualdade de condições com seus concorrentes localizados em outros países.
De 2013 a 2023, foram gerados 3 mil empregos na região e 78 milhões de toneladas foram movimentadas, de acordo com a ZPE Ceará.
Fornecimento de energia elétrica
Lucas Araripe, diretor-executivo da Casa dos Ventos, conta que o planejamento para entender o novo complexo de data centers no Ceará envolveu a criação de dois grandes empreendimentos eólicos, que somam um investimento de R$ 9 bilhões.
O primeiro é o Complexo Ibiapaba, no Ceará, que contará com 630 MW de capacidade instalada e será exclusivo para o fornecimento à ByteDance. O segundo é o Complexo Inocêncio, no Piauí. O empreendimento terá capacidade de 828 MW, e uma parcela da energia gerada por ele será destinada ao data center do Pecém.
Segundo Araripe, a energia gerada tem um porcentual adicional ao realmente necessário para evitar impacto nos preços de energia elétrica para a população local.
“Isso é visto como algo crítico nos Estados Unidos. Vários data centers entraram em operação e encareceram a energia. Sempre fomos a favor (da ideia de que se essa) é uma carga que vai ser construída daqui a dois anos, podemos construir novos parques para atender a essa demanda e crescer ao passo que continuamos não competindo com energia existente”, afirma Araripe.
A Casa dos Ventos enfatiza que o projeto não competirá pela energia já existente no mercado para os consumidores comuns. Segundo Araripe, foram construídos novos parques eólicos especificamente para atender a essa nova carga, garantindo que o crescimento da infraestrutura digital impulsione o crescimento da matriz limpa no País.
Foi firmado um contrato de compra de energia (PPA) de longo prazo (cerca de 20 anos) entre a Bytedance e a Casa dos Ventos. Para que a entrega de energia seja constante, a energia gerada é enviada para a rede (grid, no jargão do setor) que pode comprar mais energia ou vender o excedente para garantir que o suprimento contratado chegue sem oscilações ao data center.
Segundo a Bytedance, com o uso da tecnologia chamada PG25, os servidores podem operar em temperaturas mais elevadas sem redução de desempenho. Desse modo, é preciso menos energia para resfriamento.
Resistência ao projeto
A Associação Nacional de Ação Indigenista (Anaí) se manifesta contra a instalação de data centers na região do Porto Pecém, alegando impactos graves para terras indígenas, especialmente para o povo Anacé. Segundo a associação, o empreendimento começou a ser realizado sem a consulta prévia ao povo indígena, conforme prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
“O local onde o data center está sendo instalado já foi desmatado e terraplenado, com severos impactos socioambientais sobre as matas de tabuleiros costeiros, atingindo espécies vegetais e animais, destruindo sítios arqueológicos e produzindo violência material e simbólica sobre o povo indígena, com o aumento do tráfego de caminhões e maquinário nas rodovias que já cortam o território”, informa a Anaí.
O Instituto Terramar também é contrário à construção do data center e questiona a falta de um estudo de impacto ambiental para o projeto como um todo, uma vez que suas aprovações têm sido de forma fracionada. O instituto argumenta também que o alto consumo de água ameaça o aquífero Dunas, que abastece comunidades locais, além de o projeto interferir no modo de vida do povo indígena Anacé.
“Não se pode falar em ‘nuvem’ ou ‘dados’ ignorando o chão de onde essa tecnologia opera. No Pecém, o custo dessa infraestrutura está sendo transferido para os ecossistemas e para os povos indígenas. Exigimos rigor científico e respeito aos direitos humanos, não apenas agilidade corporativa”, diz, em nota, Andréa Camurça, coordenadora de incidência política do Instituto Terramar.
O Instituto Terramar, portanto, defende a suspensão das intervenções até que sejam realizados estudos de impacto cumulativo para garantir o respeito aos direitos das comunidades locais.
Tanto a Omnia quanto a Casa dos Ventos afirmam que seguiram todos os procedimentos de estudos de impacto antes da construção do empreendimento.
Mercado de data centers
Segundo Alison Takano, líder de data centers para a América Latina na consultoria imobiliária CBRE, o mercado de data center no Brasil tem “andado de lado” e a demanda das grandes big techs por esses espaços continuou baixa em 2025. O projeto do TikTok no Ceará foi a única grande exceção a esse cenário de estagnação.
O Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata) era visto como a “luz no fim do túnel” para o mercado brasileiro. Houve grande otimismo com a aprovação na Câmara dos Deputados, mas a votação não seguiu para o Senado antes da Medida Provisória (MP) caducar, o que gerou frustração no setor.
Takano afirma que a falta de aprovação do Redata, somada à instabilidade regulatória (como as discussões sobre a lei de inteligência artificial), prejudica a atração de grandes investidores internacionais.
“O mercado continua ainda na expectativa de que o Brasil ofereça mais segurança para as grandes empresas internacionais colocarem seus investimentos. Enquanto continuar essa discussão infinita, o ambiente brasileiro fica instável, e isso não ajuda em nada a atrair grandes investimentos”, diz.
A CBRE espera que 2026 seja melhor que 2025 devido à demanda represada, mas alerta que o ano será “complexo” e “desafiador” sem os incentivos que a aprovação do Redata traria.
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