Pressão política por corte de juros no meio da guerra pode atrapalhar trabalho do BC
Autoridade monetária está calada e aconselha-se que os economistas e políticos do PT façam o mesmo. Crédito: Raquel Landin | Estadão
Grandes empresas brasileiras, como Raízen e Grupo Pão de Açúcar, enfrentam crises devido a juros altos e má gestão, levando a pedidos de recuperação. Desde 2022, a Selic elevada impacta o custo de financiamento, afetando empresas endividadas. Renato Donatti, da Fitch, e Patricia Maniero, da Moodys, destacam os juros como fator crucial. Em 2024, houve 2.146 pedidos de recuperação judicial. O Copom pode iniciar cortes na Selic em março, mas incertezas persistem devido à alta do petróleo.
Juros elevados por um período prolongado, somados a problemas de gestão em alguns casos e de governança em outros, estão por trás das crises que atingem grandes empresas brasileiras com dívidas bilionárias. Além da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar – que pediram recuperação extrajudicial na terça-feira, 10 –, companhias como Ambipar, CSN, Intercement e Braskem também estão enfrentando uma fase turbulenta, o que tem exigido medidas adicionais para contornar a situação, como venda de ativos, negociação com novos sócios e reestruturação de débitos.
“Do segundo semestre do ano passado para cá, não tem sido fácil para as empresas, por uma combinação de fatores. Mas o juro é o principal deles. Só que juro não machuca quem não está endividado”, diz Renato Donatti, diretor de rating de empresas da agência de classificação de risco Fitch.
Na visão de Donatti, a taxa de juro é o denominador comum desses casos. Desde junho do ano passado, a taxa básica de juros (a Selic) está em 15% – no maior patamar em quase duas décadas. Para trazer a inflação para a meta de 3%, o Comitê de Política Monetária (Copom) endureceu a condução da política monetária, o que impactou diretamente o custo de financiamento das companhias. Isso afetou, principalmente, empresas que fizeram grandes investimentos quando o juro estava baixo com premissas que não incluíam uma Selic de 15%.

Raízen entrou com pedido de recuperação extrajudicial na terça-feira, 10 Foto: Claudio Coradini/Estadão
Donatti destaca que a trajetória da Selic não só a partir de junho, mas desde 2022 tem afetado as empresas. Nos últimos quatro anos, a média da Selic ficou em 13%, e as projeções indicam que ela não cairá para menos de 10% até o fim de 2027. “É muito difícil para uma empresa aguentar a pressão de uma taxa de juro dessa por seis ou sete anos.”
Segundo cálculos da Fitch, empresas brasileiras que hoje têm uma dívida equivalente a três vezes sua geração de caixa operacional anual gastam 50% de sua geração de caixa pagando juros de dívida. Com os 50% restantes, ainda é preciso arcar com custos como impostos e capital de giro.
A diretora da agência de classificação de risco Moodys Patricia Maniero também destaca o juro como principal explicação para as crises. Ela pondera, entretanto, que há um grupo de companhias mais cautelosas – como as do setor de locação de veículos – que estão avançando apesar do juro elevado. “Tem empresas que reavaliaram sua estratégia financeira, ajustaram custos, repensaram a alocação de capital, e estão conseguindo navegar.”
Para o sócio-gestor do escritório de advocacia Pinheiro Neto, Fernando Alves Meira, crises no setor corporativo brasileiro não são uma novidade, mas, desta vez, o volume das dívidas chamam atenção. “Quando você vê o tamanho dessas empresas, é muito impactante”, diz. “O que frustra é que empresas não aprendem que têm de ser prudentes. Grupos que deveriam ser os mais fortes, com mais condições de se defender em um cenário adverso, estão com muita dificuldade.”
O tamanho do problema
Um levantamento realizado pela NEOT – uma plataforma que consolida os casos de recuperação judicial e insolvência – ajuda a dimensionar o tamanho da dificuldade das companhias brasileiras. No ano passado, foram 1.987 pedidos de recuperação judicial e 112 de recuperação extrajudicial.
Em 2024, foram 2.146 pedidos de recuperação judicial e 95 de extrajudicial.
“O aumento da taxa de juros dificulta o acesso ao crédito no mercado bancário habitual”, afirma Júlio Moretti, CEO da NEOT. “E, para as grandes empresas, esse não é o maior dos problemas, mas torna muito mais cara a captação própria por meio de debêntures.”
Segundo Max Mustrangi, CEO da Excellance e especialista em recuperação judicial, a situação financeira das empresas foi corroída por dentro, após anos de juros elevados, crédito seletivo e margens comprimidas, em meio a um ambiente econômico “aparentemente estável”. “Se em 2016 a crise chegou de fora para dentro, agora ela vem de dentro para fora.”
Em 2016, destaca Mustrangi, a crise das companhias resultou de uma recessão profunda que paralisou a economia e desmontou cadeias inteiras de investimento.
O alívio virá?
A grande dúvida é se o alívio dos juros vai mesmo acontecer.
No encontro de janeiro, o Copom manteve a Selic em 15%, mas indicou que o ciclo de corte poderia começar no encontro de março, que ocorre na semana que vem.
A ampla expectativa era de um corte de 0,50 ponto porcentual, mas a guerra no Irã e a consequente alta do preço do petróleo trouxeram dúvidas em relação aos próximos passos do Banco Central.
“A gente acha que começa (o corte de juros) em março, e o Banco Central tem espaço para conduzir um ciclo de queda”, afirma Tadeu Arantes, head de alocação da Ghia Multi Family Office. “Na nossa cabeça, o ciclo de corte é algo entre 2,5 pontos porcentuais e 3 pontos porcentuais, obviamente, se o cenário continuar conforme esperado, com inflação convergindo para a meta e o mercado de trabalho desacelerando um pouco.”
No último relatório Focus, do Banco Central, os analistas consultados estimam que a taxa de juros deve encerrar o ano ao redor de 12%. Para 2027, a expectativa é a de que os juros recuem para 10,50%. / Colaborou Márcia De Chiara
Discover more from FATONEWS :
Subscribe to get the latest posts sent to your email.

























