A guerra do presidente americano, Donald Trump, contra o Irã e a queda do líder supremo Ali Khamenei — possivelmente o autocrata mais implacável do mundo nos últimos tempos — podem ser boas notícias para o mundo a longo prazo. Mas, a curto prazo, é um enorme presente para a nova ditadora da Venezuela, Delcy Rodríguez.
Há três razões principais pelas quais Rodríguez, que assumiu o poder após a captura de Nicolás Maduro pelas forças americanas em 3 de janeiro, se beneficiará da guerra dos EUA contra o Irã. Esses fatores provavelmente a ajudarão a consolidar o poder e, potencialmente, adiar qualquer retorno à democracia na Venezuela.

Delcy Rodríguez assumiu a presidência da Venezuela após a captura de Nicolás Maduro, em janeiro deste ano Foto: FEDERICO PARRA/AFP
Primeiro, a Venezuela será uma das principais beneficiárias da alta mundial dos preços do petróleo, desencadeada pela guerra de Trump. Os preços do petróleo subiram 15%, para cerca de US$ 82 o barril, nos cinco dias seguintes ao ataque americano ao Irã em 28 de fevereiro. Há um consenso entre os economistas de que, se o conflito durar mais de um mês, o petróleo chegará a US$ 100 o barril ou mais. (No início da semana, já deu sinais de que isso pode acontecer).
Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, os preços mundiais do petróleo atingiram US$ 124 por barril. Mesmo que as refinarias de petróleo da Venezuela estejam em ruínas, o país possui as maiores reservas do mundo. Se os preços dispararem, a receita de exportação do regime acompanhará. Alejandro Werner, ex-chefe do departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional, disse-me que, além de receber mais dólares por suas exportações de petróleo, a Venezuela provavelmente receberá mais investimentos da indústria petrolífera se a guerra entre EUA e Irã se prolongar por mais de um mês.
“Em um novo cenário onde as exportações de petróleo do Oriente Médio diminuem ou se tornam instáveis, algumas empresas que hesitavam em investir na Venezuela até que houvesse um retorno à democracia agora dirão: ‘pode valer a pena correr o risco na Venezuela’”, disse Werner.
Em segundo lugar, a guerra de Trump com o Irã pode forçá-lo a desviar mais recursos militares dos EUA do Caribe para o Oriente Médio. Isso aliviaria a pressão militar sobre a ditadura venezuelana para que esta seguisse as ordens de Washington. A Marinha dos EUA já havia transferido o gigantesco porta-aviões USS Gerald Ford da costa da Venezuela para o Oriente Médio pouco antes da guerra com o Irã. Se o conflito se prolongar, espera-se que mais tropas americanas sigam o mesmo caminho, reduzindo a presença militar dos EUA na costa da Venezuela e de Cuba.
Em terceiro lugar, Trump já mudou seu objetivo de “mudança de regime” em Teerã para a destruição das capacidades nucleares do Irã. Em diversas entrevistas, ele agora cita a Venezuela pós-Maduro como um modelo para o que ele acredita ser um bom resultado no Irã. Isso significa que a principal prioridade de Trump na Venezuela pode não ser a democracia — na verdade, ele nem sequer mencionou a palavra democracia em sua primeira coletiva de imprensa após a captura de Maduro — mas sim a estabilidade.
Na visão de Trump, manter Rodríguez no poder para garantir um fluxo contínuo das exportações de petróleo venezuelano para os Estados Unidos pode ser melhor do que convocar eleições livres na Venezuela e arriscar uma turbulência política no país.
Imdat Oner, ex-diplomata turco na Venezuela, considera este um “momento complexo” para a oposição venezuelana. “Trump retrata a Venezuela como uma vitória de política externa no exterior, então ele prefere a estabilidade à mudança democrática”, escreveu Oner no X. “Para Washington, manter Delcy no poder por mais tempo pode ser visto como uma estratégia útil para projetar uma imagem de sucesso.”
De fato, Trump elogiou repetidamente Rodríguez nas últimas semanas e citou a captura de Maduro como um grande sucesso, mesmo que o regime repressivo da Venezuela permaneça no poder.
Uma revolta popular venezuelana contra Rodríguez neste momento poderia minar a narrativa de Trump de declarar vitória no Irã, mesmo que o regime iraniano permaneça no poder. Mesmo antes da guerra com o Irã, eu temia que a falta de princípios democráticos de Trump o tornasse relutante em iniciar um processo gradual de transição para a democracia na Venezuela, principalmente por receio de que qualquer potencial surto de violência política pudesse custar votos ao seu partido nas eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro.
Eu não estava errado. Já se passaram mais de dois meses desde a prisão de Maduro, e o governo Trump ainda não divulgou um cronograma para a nomeação de novas autoridades eleitorais, a libertação de todos os presos políticos, a liberdade de imprensa, a legalização de líderes da oposição banidos e eleições livres. Espero estar enganado, mas agora que ele está em guerra com o Irã, estou ainda mais convencido de que Trump não terá pressa em iniciar um processo para restaurar a democracia na Venezuela. Quanto mais essa guerra se arrastar, mais radiante será o sorriso de Delcy Rodríguez.
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