EUA, Irã e Israel: um comparativo do poderio militar dos três países
Estados Unidos mantém bases no Oriente Médio e apoio a israelenses, enquanto Irã tenta se sustentar como potência regional. Crédito: João Abel (roteiro e edição) | Lucas Ghitelar (fotografia e som) | AFP News (imagens de apoio)
O grande ataque contra o Irã, lançado pelos Estados Unidos e Israel, já desencadeou ataques retaliatórios em todo o Oriente Médio. Um conflito regional mais amplo parece cada vez mais provável, com consequências nefastas e não intencionais, como a queda de três aviões de guerra americanos por “fogo amigo” no Kuwait. Então, por que o presidente dos EUA, Donald Trump – um autoproclamado pacificador – iniciou uma guerra estrangeira?
A justificativa oficial é difícil de acreditar. A alegação do governo Trump de que o Irã estava construindo uma arma nuclear não foi comprovada. Tampouco pode ser conciliada com as repetidas afirmações do governo de que destruiu o programa de armas nucleares do Irã em ataques aéreos em junho passado.
A insistência de Trump de que a República Islâmica deve ser substituída por um regime democrático – ou pelo menos favorável aos EUA – é igualmente bizarra, visto que a firme oposição a envolvimentos militares estrangeiros e guerras de mudança de regime era supostamente um princípio fundamental do movimento MAGA de Trump.
Vejo duas razões plausíveis para sua decisão, nenhuma das quais é legítima: destruir a democracia americana ou enriquecer-se. É claro que as guerras no exterior são frequentemente motivadas por questões políticas internas e, na maioria das vezes, o autoritarismo político e a corrupção pessoal não são mutuamente excludentes. Parece ser esse o caso aqui.

Trump participa de evento na Casa Branca Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP
Conflitos internacionais podem minar e desfazer democracias, seja forçando a população a se unir em torno do líder (com os oponentes retratados como traidores), seja criando condições favoráveis ao partido no poder antes das eleições. Os governos de direita nos EUA e em Israel estão seguindo esse modelo autoritário totalmente previsível.
A inverossímil justificativas oficiais para a decisão de iniciar outra guerra no Oriente Médio aponta para a segunda explicação possível: corrupção. Quem se beneficiaria diretamente com a mudança de regime no Irã? Na medida em que a política externa esteve envolvida na decisão dos EUA, suspeito que tenha sido a dos aliados mais próximos do governo Trump na região.
A política do Oriente Médio tem sido moldada há muito tempo pela rivalidade entre Irã e Israel, bem como entre o Irã e os Estados árabes do Golfo, especialmente a Arábia Saudita. Dado que essa característica estrutural é muito mais duradoura do que as declarações vacilantes e contraditórias de Trump, é um ponto de partida melhor para rastrear os objetivos do governo. E esses objetivos parecem ser promover interesses políticos pessoais – ou melhor, obter ganhos pessoais.
As monarquias do Golfo que se opõem ao poder iraniano têm presenteado Trump e sua família com bons negócios. Os Emirados Árabes Unidos investiram em um empreendimento de criptomoedas da família Trump. A Organização Trump lucrou consideravelmente com negócios com a Arábia Saudita.

E, às vezes, monarcas do Golfo cortejaram Trump diretamente, como quando os catarianos lhe deram um jato de luxo. A lista é muito longa, e agora o governo dos EUA está usando a força militar contra um inimigo comum dos países que enriqueceram Trump e sua família. Esse contexto deve ser incluído em todas as reportagens sobre a guerra. A corrupção descarada e estupefaciente deste governo levanta a questão de se as Forças Armadas dos EUA agora estão a serviço de um mercenário.
Certamente, meu objetivo não é defender a República Islâmica, um regime brutal que vem praticando o assassinato em massa de manifestantes pacíficos desde o início do ano. A dimensão desse massacre ainda não foi totalmente compreendida. Mas existem maneiras mais eficazes de combater o sistema político autoritário e corrupto do Irã.
O governo dos EUA poderia lançar uma campanha paciente de pressão e sanções, juntamente com apoio à oposição e propostas para ajudar a resolver a crise hídrica do país, um problema ecológico crescente que tem contribuído para a agitação social. Infelizmente, o governo Trump jamais poderia oferecer uma estratégia tão abrangente e competente. Tudo o que ele pode oferecer é militarismo, autoritarismo e corrupção.
Os americanos serão instruídos a não questionar a guerra em curso. Mas é justamente neste momento que as perguntas devem ser feitas, principalmente considerando o que sabemos sobre o governo Trump. Há ampla evidência de que o ataque ao Irã pode muito bem ter como objetivo minar a democracia americana, enriquecer o presidente ou ambos. Embora não haja provas irrefutáveis para comprovar essas suposições, elas sugerem linhas de investigação produtivas a serem seguidas à medida que a guerra avança e mais informações sobre suas origens são reveladas.
A guerra não apaga os erros de um governo nem obriga os cidadãos a acreditarem nas justificativas absurdas de seus líderes. Pelo contrário, a guerra representa a melhor oportunidade para descobrir os verdadeiros motivos dos líderes.
Timothy Snyder, primeiro titular da Cátedra de História Moderna Europeia na Escola Munk de Assuntos Globais e Políticas Públicas da Universidade de Toronto e membro permanente do Instituto de Ciências Humanas em Viena, é autor ou editor de 20 livros.
Copyright: Project Syndicate, 2026.
www.project-syndicate.org
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