Uma revisão publicada na revista Nature Medicine com as evidências mais recentes sobre o Alzheimer aponta que biomarcadores sanguíneos podem sinalizar o processo patológico desse tipo de demência muito antes de sua manifestação clínica.
Na prática, trata-se da possibilidade de identificar alterações biológicas associadas ao Alzheimer até duas décadas antes do surgimento dos primeiros sintomas.

Presença de biomarcadores não se traduz em diagnóstico positivo para Alzheimer. Foto: Vitalii Vodolazskyi/Adobe Stock
O levantamento, que considerou grupos de alto risco genético, aponta que esse é um caminho possível graças a alterações observadas em biomarcadores como o p-tau217.
“Numa perspectiva terapêutica, esses biomarcadores sanguíneos podem melhorar a triagem e o encaminhamento para confirmação (por meio do PET amiloide ou líquor)”, avalia o neurologista Eli Faria Evaristo, do Hospital Sírio-Libanês.
Diagnóstico antecipado?
Especialistas ouvidos pelo Estadão alertam para o fato de que detectar a biologia do Alzheimer mais cedo não significa, automaticamente, antecipar o diagnóstico clínico.
Defendendo essa cautela está Helio Magarinos Torres Filho, patologista clínico e diretor do Richet Medicina & Diagnóstico, que atuou na etapa de análises laboratoriais da pesquisa.
Para ele, o ganho está em “abrir uma janela para identificar o processo patológico mais cedo, acompanhar a progressão e, em contextos clínicos bem definidos, apoiar a investigação diagnóstica”.
Outro ponto que enfraquece a ideia de antecipação de diagnóstico é destacado por Evaristo. Segundo ele, não há recomendação para utilizar biomarcadores como triagem em indivíduos assintomáticos.
“Antecipar um diagnóstico de doença de Alzheimer em uma pessoa cognitivamente intacta pode gerar ansiedade, estigma, discriminação e dilemas de privacidade”, pondera.
O neurologista ressalta que ensaios clínicos estão em andamento para avaliar se intervenções muito precoces podem prevenir o desenvolvimento da demência e alerta que não há, até agora, evidência robusta de benefício nesse cenário.
Quem pode se beneficiar?
Hoje, os especialistas dizem que o maior ganho seria para indivíduos que já apresentam queixa cognitiva – como falhas de memória persistentes ou sinais de comprometimento cognitivo leve – e precisam de maior precisão diagnóstica.
“Nesse momento, os biomarcadores fazem mais sentido quando há uma suspeita clínica”, explica Evaristo.
Segundo o neurologista, nesse contexto, o exame pode funcionar como uma triagem inicial. Se o resultado for negativo, pode ajudar a afastar o Alzheimer como causa provável; se for positivo, pode demandar confirmação por métodos como PET cerebral ou análise do líquor.
Já para pessoas totalmente assintomáticas, eles reforçam que a recomendação é manter a cautela, pois não há evidência de que tratar alguém sem sintomas, apenas com base em biomarcadores positivos, previna o desenvolvimento da demência.
Presença de biomarcadores x uso de remédios
Evaristo também chama atenção para o fato de que o biomarcador não pode substituir o raciocínio clínico. Ele destaca que o exame precisa ser interpretado junto com a história do paciente, a avaliação cognitiva e a presença ou não de sintomas.
No caso dos medicamentos hoje aprovados, como lecanemabe e donanemabe, cabe ressaltar que são indicados apenas para fases iniciais sintomáticas, como comprometimento cognitivo leve ou demência leve por Alzheimer.
Além disso, essas medicações exigem critérios rigorosos de elegibilidade e acompanhamento com exames de imagem, já que podem causar efeitos adversos como inflamação ou pequenos sangramentos cerebrais.
“Mesmo que ainda não tenhamos cura (para o Alzheimer), um biomarcador positivo pode ajudar a planejar o cuidado e organizar o seguimento, mas não deve ser interpretado isoladamente como indicação automática de tratamento”, explica Torres Filho.
Biomarcador positivo não é sentença
Para os especialistas, um dos principais riscos é interpretar a presença de biomarcadores positivos como uma certeza de que a doença se desenvolverá em algum momento da vida.
Segundo o patologista clínico, eles indicam maior probabilidade de doença compatível com Alzheimer, “mas não equivale a dizer que aquela pessoa vai evoluir para demência”.
O geriatra Leonardo Oliva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), ressalta que existem pessoas que envelhecem, apresentam biomarcadores positivos e nunca desenvolvem demência.
Para ele, uma das possibilidades é que, no futuro, pessoas com esses biomarcadores acompanhem mais de perto os fatores de risco modificáveis já conhecidos pela ciência.
“Hoje é muito bem estabelecido que existem fatores de risco preveníveis para a doença de Alzheimer, incluindo o bom controle da pressão, do diabetes, do colesterol, a correção de déficit auditivo e visual”, lista.
Ele acrescenta ainda aspectos como evitar o tabagismo e a bebida alcoólica, além de controlar o estresse e o sono. “São fatores que a gente lista como potencialmente preveníveis da doença de Alzheimer, que podem chegar a uma capacidade de prevenir mais do que a metade dos casos de demência.”
Acesso e padronização
Torres Filho diz que, no Brasil, alguns laboratórios já realizam dosagem de p-tau, embora parte das análises ainda seja feita no exterior.
Para ele, o que falta é a ampliação segura do acesso através de padronização técnica, validação em populações brasileiras e definição clara de critérios de indicação.
“Sem diretrizes sobre quem testar, quando testar e como interpretar, cresce o risco de uso inadequado, inclusive em pessoas assintomáticas”, alerta.
Superados esses entraves, ele diz que o Brasil entra na etapa de incorporação e cobertura. “Para chegar de forma ampla, é necessário um caminho claro para registro formal na Anvisa, além das discussões sobre incorporação e financiamento nos diferentes sistemas de saúde”, finaliza.
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