A denúncia do procurador americano Jay Clayton contra o ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro, apresentada neste fim de semana à Corte do Sul de Nova York, expõe supostas evidências da conexão do líder venezuelano, de seus familiares e de autoridades do regime chavista com o narcotráfico. Entre as principais provas, estão informações obtidas a partir da delação de um ex-aliado de Maduro.
Os fatos narrados vão desde o período em que Maduro ainda era parlamentar, no início dos anos 2000, até quando já era presidente. Em seu julgamento, o líder venezuelano afirmou ser inocente.
A denúncia de 25 páginas apresentada à Justiça americana acusa Maduro, sua esposa Cilia, seu filho Nicolás Ernesto Maduro Guerra (o Nicolasito), além de autoridades do regime venezuelano, como o atual ministro do Interior, Diosdado Cabello, de conspiração para o narcoterrorismo e de uso de armas para proteger operações de tráfico.
O documento afirma que, desde o início do regime chavista, Maduro, Cabello e o ex-ministro do Interior Ramón Rodríguez Chacín, associaram-se a membros dos grupos guerrilheiros colombianos Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e Exército de Libertação Nacional (ELN) para apoiar o tráfico de cocaína. Também estariam envolvidos grupos criminosos no México, como o cartel de Sinaloa e o grupo Los Zetas, além do líder da facção venezuelana Tren de Aragua, Hector Guerrero Flores.
A denúncia do procurador Jay Clayton diz que Cabello recebeu dinheiro proveniente do tráfico de drogas no fim de 2024 e que, no ano passado, um representante de Cabello teria discutido com traficantes colombianos “planos para o tráfico contínuo de cocaína por meio da Venezuela”.
O documento contém uma série de informações genéricas e deixa de citar nomes de informantes e testemunhas dos casos. Parte dos dados foi fornecida pelo ex-diretor da agência militar de inteligência da Venezuela Hugo Armando Carvajal Barrios, ex-aliado de Maduro que assinou um acordo de delação premiada com autoridades americanas.
A denúncia afirma que, entre 2006 e 2008, Maduro teria fornecido passaportes diplomáticos a narcotraficantes, quando era chanceler do governo de Hugo Chávez. Não cita, porém, os nomes dos beneficiados. Maduro também é acusado de facilitar a cobertura, por parte da diplomacia venezuelana, a aviões usados por operadores que buscavam repatriar ativos do narcotráfico do México para a Venezuela.
Maduro teria “facilitado o movimento de aviões particulares sob cobertura diplomática para garantir que os voos não fossem alvo do escrutínio das autoridades policiais ou militares”, diz a denúncia.
Nessas ocasiões, o ministro Maduro “ligava para a Embaixada da Venezuela no México para avisar que uma missão diplomática chegaria em um avião particular. Então, enquanto os traficantes se encontravam com o embaixador venezuelano no México sob os auspícios de uma missão diplomática (…), o avião era carregado com o dinheiro proveniente do narcotráfico. O avião, então, retornava à Venezuela sob cobertura diplomática”, afirma o procurador americano.
O grupo supostamente formado por Maduro, sua esposa, Cilia Flores, seu filho Nicolás Ernesto e o ex-ministro do Interior da Venezuela Ramón Rodríguez Chacín teria colaborado com traficantes para processar cocaína na Venezuela e enviar a droga aos Estados Unidos, por meio de barcos e aviões.
A denúncia estima que a organização criminosa teria enviado entre 200 e 250 toneladas de cocaína aos EUA por ano, tendo usado pontos de transbordo em Honduras, Guatemala e México para fazer a droga entrar em solo americano.
A denúncia afirma que, nesses países, havia o pagamento regular de propinas a políticos para conseguir transportar a droga, mas não menciona quais os receptores dos recursos.
“Os carregamentos marítimos (com cocaína) eram enviados para o norte a partir da costa da Venezuela usando lanchas rápidas, barcos de pesca e navios porta contêineres. Os carregamentos aéreos eram geralmente despachados a partir de pistas de pouso clandestinas de terra ou grama, ou de aeroportos comerciais controlados por funcionários do governo ou militares corruptos”, diz o documento.
De acordo com o procurador Jay Clayton, o esquema funciona da seguinte maneira: as Farc e o ELN controlam a produção de cocaína em regiões montanhosas da Colômbia. O cartel de Sinaloa e o grupo Los Zetas, no México, controlam rotas de transporte ilegal de drogas pela América Central e são responsáveis por atravessar a droga para os Estados Unidos através da fronteira com o México.
A facção venezuelana Tren de Aragua “controla uma rede criminosa que colaborava com o transporte de cocaína dentro da Venezuela e na costa venezuelana” e oficiais do regime chavista protegem os carregamentos em sua passagem pelo território venezuelano.
Esposa teria participado do esquema
O documento cita que a esposa de Maduro teria comparecido, em 2007, a um encontro no qual o marido aceitou “centenas de milhares de dólares em propinas” em troca de arranjar um encontro entre um “traficante de larga escala” e o então diretor do Escritório Antidrogas da Venezuela, general Néstor Reverol Torres. Em seguida, o mesmo traficante, cujo nome não foi revelado na denúncia, iniciou pagamentos mensais de propinas a Reverol Torres, de aproximadamente US$ 100 mil por cada avião carregado de cocaína que conseguisse passar pelo país. Uma parte dessas propinas, segundo a denúncia, era destinada à mulher de Maduro.
Considerado fugitivo pela Justiça americana desde 2015, Reverol Torres foi ministro da Justiça (2016 a 2020) e da Energia Elétrica (2020 a 2024) em governos de Maduro.
De acordo com a denúncia, ao menos de 2004 a 2015, Maduro e sua esposa teriam atuado em conjunto para traficar, “com a ajuda de escoltas armadas de militares”, cocaína que havia sido previamente apreendida pelas autoridades da Venezuela. Durante esse período, ambos “mantiveram suas próprias gangues patrocinadas pelo Estado, conhecidas como colectivos, para facilitar e proteger sua operação de tráfico de drogas, tendo inclusive ordenado o assassinato de um chefão do tráfico de drogas local em Caracas”.
O documento também menciona que, entre 2003 e 2011, o sindicato do crime mexicano Los Zetas, atuou em sociedade com organizações criminosas da Colômbia para despachar cocaína por meio de contêineres de portos da Venezuela para o México, em remessas que poderiam a chegar a 20 toneladas cada. A atividade recebia a proteção de um grupo de militares venezuelanos apelidado de “os generais”.
A parte mais detalhada da denúncia cita informações fornecidas pelo ex-diretor da agência militar de inteligência da Venezuela Hugo Armando Carvajal Barrios, apelidado de El Pollo.
Identificado como aliado próximo de Maduro e Diosdado Cabello, Carvajal rompeu com o regime de Maduro e exilou-se na Espanha em 2019, onde foi preso. O militar foi extraditado em seguida para os Estados Unidos, onde é acusado de envolvimento com o narcotráfico. Em junho de 2025, Carvajal declarou-se culpado e assinou um acordo de delação premiada.
A denúncia diz que, em 2006, o atual número dois do regime venezuelano, Diosdado Cabello, teria coordenado um despacho de mais de 5,5 toneladas de cocaína da Venezuela para o México, com destino final aos Estados Unidos, em conjunto com Carvajal, mas não cita Maduro.
A carga de droga teria sido transportada por cinco vans a um hangar reservado ao presidente da Venezuela (à época, Hugo Chávez) no aeroporto de Maiquetía, o principal do país. No aeroporto, diz a denúncia, “membros da Guarda Nacional da Venezuela carregaram o avião com a cocaína”, usando um plano de voo que fora aprovado por um capitão da Guarda, Vassyly Villaroel Ramírez, em troca de propinas.
A carga foi apreendida no aeroporto de Campeche, no México. Villaroel Ramírez teria dito aos traficantes venezuelanos que precisavam pagar suborno a Diosdado Cabello para garantir que quem os havia auxiliado no carregamento não fosse preso. O capitão Carnaval Barrios teria, então, arranjado um encontro de Cabello com os traficantes. Depois, o político teria recebido US$ 2,5 milhões em propinas através de um familiar.
Outro episódio com a participação do delator, ocorrido em 2013, envolver diretamente Maduro. Em setembro daquele ano, oficiais do governo venezuelano, coordenados por Carvajal e Cabello, enviaram uma carga de 1,3 tonelada de cocaína do aeroporto de Miquetía para o aeroporto Charles De Gaulle, em Paris.
A carga, porém, foi apreendida pelas autoridades francesas. De acordo com a denúncia, Maduro teria convocado uma reunião com Diosdado Cabello e Carvajal Barrios em que teria dito que os dois “não deveriam ter usado o aeroporto de Maiquetía para o tráfico de drogas depois da apreensão de 2006 no México, e que, em vez disso, deveriam usar outros locais e rotas bem estabelecidos para despachar cocaína”.
Envolvimento do filho e de sobrinhos de Maduro
Citando informações fornecidas por um capitão da Guarda Nacional da Venezuela, cujo nome foi preservado, a denúncia afirma que, entre 2014 e 2015, o deputado Nicolás Ernesto Maduro Guerra, filho de Maduro, visitou a ilha de Margarita duas vezes por mês, chegando em um avião Falcon 900 pertencente à petroleira estatal PDVSA.
O avião era “carregado, às vezes com a ajuda de sargentos armados, com largos pacotes embalados com fita adesiva que o capitão entendeu serem drogas”. Ao menos em uma dessas ocasiões, o próprio Nicolasito, como é conhecido,presenciou o carregamento da aeronave e teria afirmado que “o avião poderia ir aonde quisesse, inclusive os Estados Unidos”.
A denúncia cita o envolvimento de Efrain Campos Flores e Franqui Francisco Flores de Freitas, sobrinhos de Nicolás Maduro, com o tráfico de drogas. Ambos foram presos em novembro de 2015 em uma operação da DEA, a agência americana de combate ao narcotráfico, em Porto Príncipe. Na ocasião, ambos foram acusados de transportar cerca de 800 quilos de cocaína que teriam os EUA como destino final.
A denúncia contra Maduro cita uma conversa gravada por fontes da DEA com os dois sobrinhos do ditador em que ambos aparecem combinando “o despacho de carregamentos de centenas de quilos de cocaína do ‘hangar presidencial’ de Maduro Moro no aeroporto de Maiquetía”.
“Durante encontros gravados com as fontes, Campos Flores e Flores de Freitas explicaram que estavam em ‘guerra’ com os Estados Unidos, descreveram o Cartel de los Soles, discutiram a conexão com um ‘comandante das Farc’ que era ‘supostamente do alto escalão’, e indicaram que eles buscavam levantar US$ 20 milhões em receitas (vindas do tráfico) de drogas para financiar uma campanha de (Cilia) Flores de Maduro” relativa à eleição para a Assembleia Nacional em 2015. À época, o regime havia perdido a maioria no Congresso para a oposição.
Ainda segundo a denúncia, Nicolasito “trabalhou para enviar centenas de quilos de cocaína da Venezuela para Miami” em 2017. Segundo o documento, o filho de Maduro “falou com seus sócios no tráfico de drogas sobre (…) enviar cocaína de baixa qualidade para Nova York porque esta não poderia ser vendida em Miami, tendo arranjado um carregamento de 500 quilos de cocaína para ser descarregada de um contêiner próximo a Miami” para portos de Nova York.
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