Acareação reforça suspeitas de irregularidades em negócio do Banco Master com BRB
Ex-presidente do banco admitiu que valores investidos em carteiras de crédito consignado falsificados ainda não foram recuperados. Crédito: Aguirre Talento/Estadão
BRASÍLIA – A resposta do Banco Central (BC) a pedido de explicações feito pelo Tribunal de Contas da União (TCU) oferece um histórico de “graves irregularidades” praticadas pelo Banco Master com seu “modelo de negócios atípico e complexo” e relata três comunicações ao Ministério Público Federal (MPF) de indícios de crimes cometidos pela empresa do banqueiro Daniel Vorcaro.
Procurado, o Master não se manifestou.

Resposta enviada pelo Banco Central ao TCU cita ‘graves irregularidades’ no banco de Vorcaro e diz que liquidação era medida adequada após esgotamento de alternativas Foto: Werther Santana/Estadão
1. Créditos inexistentes
O primeiro relato de crime é de julho de 2025. Segundo o Banco Central, foi constatada no primeiro semestre a cessão de créditos inexistentes ao Banco de Brasília (BRB) adquiridos pelo Banco Master de empresa terceira. Essa transferência de créditos falsos configura crime contra o Sistema Financeiro Nacional.
As investigações feitas pela Polícia Federal e pelo MPF avançaram e apontaram R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes, além de apresentação de documentos falsos ao Banco Central como tentativa de justificar o negócio.
As consequências negativas dessa operação para o balanço do BRB ainda estão em avaliação pela área de supervisão do Banco Central. O depoimento do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa indicou que o banco ainda não recuperou R$ 2 bilhões apostados no Master, como mostrou o Estadão.
O banco do governo do Distrito Federal anunciou uma oferta de compra do Master em março de 2025, mas a aquisição foi reprovada pelo Banco Central após cinco meses de análise. A compra era vista por especialistas como uma forma de socorrer o Master, que enfrentava dificuldades, por meio de um banco público.
2. Fundos ligados ao PCC
O segundo relato de crime ao MPF é de 17 de novembro de 2025, véspera da decretação da liquidação do Master pela autoridade monetária.
A suspeita estava relacionada a R$ 11,5 bilhões em operações que “revelaram inadequado gerenciamento de capital e risco, com negócios sem garantia, liquidez e diversificação, agravando a crise e justificando processos administrativos sancionadores”.
O documento enviado ao TCU não detalha quais seriam essas operações, mas pessoas a par das apurações disseram à reportagem que a fraude tem relação com fundos ligados à gestora Reag Capital Holding, alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal na Operação Carbono Oculto, que investiga o uso de fundos e gestoras para lavagem de dinheiro pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).
Procurada, a Reag afirmou que “não existe, em nenhuma das milhares de páginas produzidas e encaminhadas à Justiça pelo Ministério Público, pela Receita Federal ou pela Polícia Federal, qualquer menção que estabeleça conexão entre a Reag e o PCC”. “Essa associação não consta de nenhum documento oficial, de nenhuma denúncia, relatório de análise ou manifestação das autoridades competentes”, diz a nota.
As operações bilionárias ocorreram entre julho de 2023 e julho de 2024 e teriam funcionado por meio de uma longa cadeia de intermediários, da seguinte forma: o Master captava recursos no mercado e os emprestava para empresas supostamente ligadas ao grupo.
Essas empresas colocavam os recursos em um fundo de investimento. Esse fundo comprava ativos de baixa liquidez, que estavam sobrevalorizados – ou seja, com valor muito acima do valor real, de mercado. O vendedor desses ativos redistribuía esse “lucro” para outros fundos ligados à Reag.
3. Reciclagem de recursos
A terceira comunicação de crime é do dia 25 de novembro de 2025, sete dias após a liquidação. O BC detectou indícios de gestão fraudulenta, operações sem lastro e de uso de artifícios destinados a criar aparência de legalidade para operações desprovidas de substância econômica.
O documento salienta que as evidências colhidas sugerem que recursos do Master foram “reciclados por meio de uma cadeia de fundos e sociedades interpostas”. O objetivo seria dar aparência formal a transações com a mesma origem e o mesmo beneficiário final.
“Tal dinâmica, além de violar princípios de transparência e segregação fiduciária, pode configurar fraude na gestão e simulação de operações financeiras, nos termos da legislação penal aplicável”, frisou o BC ao TCU.
‘Esgotamento de alternativas’
O documento, enviado no formato de nota técnica ao ministro Jhonatan de Jesus, responsável pelo processo do Master no TCU, trouxe o que chamou de “esclarecimentos sobre pontos levantados pelo relator”.
“Tais circunstâncias evidenciaram a caracterização de graves irregularidades por parte do Banco Master, que atraíram a necessidade de medidas saneadoras pela autoridade de resolução do País. A instituição financeira, embora instada, em diversas oportunidades, a regularizar o grave quadro em que se encontrava, não logrou adotar medidas eficazes para assegurar seu soerguimento econômico-financeiro”, frisou.
A nota técnica é assinada pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino Santos, e pelo diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, Renato Dias de Brito Gomes, indicando que o BC estava unido em suas decisões, que foram aprovadas de forma unânime pela diretoria colegiada.
De Jesus cobrou explicações ao Banco Central ao apontar possível “precipitação” da autoridade monetária na liquidação do Master. O relator é um ministro oriundo do Centrão da Câmara, e a maneira como ele tem atuado no caso é vista, como mostrou o Estadão, como forma de alimentar um instrumento de pressão que pode, no futuro, reverter a liquidação do banco de Vorcaro.
Na resposta, o Banco Central salientou que adotou uma série de medidas antes da liquidação do Master, como intensificação do monitoramento, lavratura de termo de compromisso para recomposição imediata da liquidez e autorização de assistência via Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
“Diante do esgotamento de todas as alternativas de solução de mercado, a identificação de crítica situação econômico-financeira, que impediria a instituição de honrar suas obrigações, e a verificação de irregularidades graves – com indícios de crimes que afetavam o valor dos ativos do conglomerado e comprometiam sua solvência –, a liquidação foi decretada como medida indispensável para a proteção do sistema financeiro e da poupança popular”, disse.
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