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Qual o futuro do ‘fenômeno’ Michelle Bolsonaro?

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
22/12/2025
in Política
Reading Time: 14 mins read
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“Meninas, levantem as mãos, nós somos a força delicada que vai transformar o mundo”, diz Michelle Bolsonaro a uma plateia bolsonarista atenta em Fortaleza, no Ceará.

“Nós somos maioria, e nós definimos uma eleição”, completou a ex-primeira-dama, no encontro realizado ao fim de novembro, quando ela disse ter aceitado uma missão para fazer “uma política limpa”, exortando as mulheres a se evolverem.

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A BBC News Brasil acompanhou nas últimas semanas a movimentação de Michelle, que se consolida como uma importante liderança da direita após o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ser preso, em meados de agosto, condenado a 27 anos e três meses em regime fechado, por tentativa de golpe de Estado e outros quatro crimes.

A ida da ex-primeira-dama ao Ceará desatou uma crise dentro do PL, após Michelle se opor a uma aliança do partido com Ciro Gomes no Estado, num exemplo de como a ex-secretária parlamentar e mãe de duas filhas ganhou projeção política, tornando-se uma figura central para os rumos da direita em 2026.

Michelle tem articulado candidaturas conservadoras em diferentes Estados e, a menos de um ano das eleições, ganhou destaque em pesquisas de intenção de voto como opção competitiva para enfrentar o presidente Lula em outubro.

Políticos e analistas a colocam como maior liderança feminina da política brasileira hoje. E sua força, dizem, vem de sua autenticidade como líder conservadora cristã.

“Isso tem uma força política enorme, ainda mais em razão do fato de ela ser esposa da maior liderança política da direita no país”, afirma o ex-deputado federal Deltan Dellangnol (Novo).

“Ela acaba, na minha visão, sendo a segunda grande maior liderança política da direita no nosso Brasil”, completa o ex-procurador da República, que coordenou a Operação Lava-Jato e foi cassado em 2023 por fraude contra a Lei da Ficha Limpa.

A ascensão de Michelle Bolsonaro na política causa desconforto dentro do PL e provoca turbulências no coração do bolsonarismo.

Sua crescente proeminência teria sido um dos fatores que precipitou o ex-presidente a apontar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como seu candidato ao Palácio do Planalto, no início de dezembro.

Na terça-feira (23/12), Jair Bolsonaro deverá conceder sua primeira entrevista desde que foi preso, ao portal Metrópoles. É grande a expectativa para que ele comente a disputa entre Flávio, Michelle e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), por sua benção para as eleições de 2026.

Mas como uma primeira-dama discreta chegou a essa posição de liderança na direita brasileira?

Conheça o passado e o futuro de Michelle Bolsonaro e entenda o papel que ela pode ter em 2026.

Da Ceilândia ao Palácio do Planalto

Nascida na Ceilândia, região pobre do Distrito Federal, Michelle é filha de uma dona de casa e um motorista de ônibus aposentado.

Ela começou a trabalhar logo depois do Ensino Médio: foi demonstradora de produtos em um supermercado e chegou a considerar a carreira de modelo — mas desistiu seguindo o conselho de uma colega da igreja.

Michelle Bolsonaro quando mais jovem, sorrindo

Reprodução/Redes sociais
Michelle chegou a considerar a carreira de modelo, mas desistiu

Bolsonaro e Michelle se conheceram em 2007, quando ela tinha 25 anos e ele, 52.

Ela trabalhou como secretária nos gabinetes dos deputados federais Vanderlei Assis (PP-SP) e Dr. Ubiali (PSB-SP) e na liderança do PP.

Quando o romance começou, Bolsonaro a contratou em seu gabinete e eles formalizaram a relação no mesmo ano. Seu salário cresceu rapidamente após o enlace.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a remuneração de Michelle chegou a R$ 8 mil, mais do que o triplo do que ela recebia no gabinete anterior. O valor equivaleria a mais de R$ 20 mil reais nos dias de hoje, feita a correção pela inflação.

Michelle foi demitida de sua posição no gabinete de Bolsonaro em 2008, após o Supremo Tribunal Federal (STF) proibir contratações de parentes por deputados.

Bolsonaro e Michelle em foto antiga. Ele veste preto e segura um celular próximo ao ouvido. Ela usa um boné preto e veste uma camisa do Flamengo

Reprodução/Redes sociais
Bolsonaro e Michelle se conheceram em 2007, quando ela tinha 25 anos e ele, 52

Depois disso, ela passou a se dedicar a atividades na igreja e a ações sociais, em especial com pessoas surdas. Tornou-se intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e inclusive discursou nela na posse presidencial de Bolsonaro, em janeiro de 2019.

Os dois tiveram uma filha em 2010, Laura Bolsonaro, a segunda filha de Michelle, que já era mãe de Letícia Firmo, fruto do primeiro casamento da ex-primeira-dama com o engenheiro elétrico Marcos Santos da Silva.

Jair Bolsonaro com Michelle Bolsonaro e as duas filhas. Michelle e Letícia sorriem olhando para a câmera, enquanto Bolsonaro está sério e Laura, em seu colo, morde o lábio inferior

Reprodução/Redes sociais
Michelle tem duas filhas: Laura Bolsonaro (de azul, no colo de Bolsonaro) e Letícia Firmo, fruto de seu primeiro casamento

Em 2020, suspeitas de corrupção da família Bolsonaro respingaram na primeira-dama.

Foi revelado que ela recebeu na sua conta R$ 89 mil em cheques depositados por Fabrício Queiroz, amigo de Jair Bolsonaro e acusado de operar um esquema de desvio de verbas no antigo gabinete de deputado estadual de Flávio Bolsonaro.

O caso está atualmente parado na Justiça, após o STF avaliar que houve ilegalidades nas investigações.

Bolsonaro disse à época que os cheques na conta da Michelle seriam para ele, como pagamento de um empréstimo, mas nunca provou ter emprestado recursos para Queiroz.

Após o caso, a primeira-dama ganhou o apelido de “Micheque” nas redes socais.

A ascensão de Michelle

Durante a maior parte do mandato do marido, Michelle foi uma primeira-dama discreta e focada no público vulnerável, como surdos e portadores de doenças raras.

Michelle Bolsonaro discursa em língua de sinais ao lado de Jair Bolsonaro, durante a posse dele no Palácio do Planalto, em Brasília, em 1º de janeiro de 2019.

AFP
Michelle discursou em Libras na posse presidencial de Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019

Foi na campanha de 2022 que ela ampliou sua atuação política, tentando atrair mais votos femininos para Bolsonaro, que enfrentava resistência nesse eleitorado.

Já em março de 2023, ela assumiu a presidência do PL Mulher, cargo que lhe garante hoje salário de mais de R$ 40 mil.

Nessa função, passou a viajar o Brasil em jatinho particular para eventos da sigla, com objetivo de ampliar a participação feminina. Desde então, foram mais de 50 mil novas filiadas ao PL, crescimento acima da média dos demais partidos.

Encontro do PL Mulher, com a presença de Michelle Bolsonaro, em Santa Catarina, em 29 de julho de 2023. No palco cercado de flores rosas, Michelle veste rosa e fala ao microfone, ao lado de um tradutor de libras vestido de preto, com a plateia ao fundo

Divulgação/PL Mulher
Em março de 2023, Michelle Bolsonaro assumiu a presidência do PL Mulher, cargo que lhe garante hoje salário de mais de R$ 40 mil

A pesquisadora Lilian Sendretti, do Núcleo de Democracia e Ação Coletiva (NDAC) do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), avalia que Michelle mudou radicalmente a forma do PL se comunicar com o público feminino.

“Mudou muito”, diz a cientista política. “Assim como a estética de comunicação do PL Mulher, além de ser mais incisivo, virou um ‘Michelismo’, tem Michelle Bolsonaro para todo os cantos”, afirma a pesquisadora.

A deputada federal Bia Kicis (PL-SP) avalia que Michelle também mudou com a experiência de liderar o PL Mulher.

“Ela foi ganhando muita confiança com esse trabalho à frente do PL e isso fez com que ela ousasse se posicionar mais. E ela se tornou uma figura muito querida”, diz Kicis.

A projeção política que Michelle veio construindo nos últimos três anos ganhou nova escala com a prisão do marido, preso preventivamente desde agosto, mesmo antes da condenação por tentativa de golpe de Estado.

Michelle Bolsonaro veste uma camiseta azul onde se lê

Edilson Freire/BBC
Michelle Bolsonaro ao lado de seus aliados, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) e a vereadora de Fortaleza Pricilla Costa (PL-CE), vice-presidente do PL Mulher

Com Bolsonaro em uma sala de Estado na superintendência da Polícia Federal em Brasília, ela se tornou uma das porta-vozes do marido, ao lado dos filhos do ex-presidente.

Os ruídos criados por essa multiplicidade de vozes explodiram na crise do Ceará, em novembro.

A crise do Ceará

Oito dias após Jair Bolsonaro ser levado para sua cela especial na PF, Michelle foi recebida como estrela principal de evento em Fortaleza, realizado num domingo (30/11), ganhando acolhimento caloroso do público.

Ao pegar o microfone, ela criticou o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e o presidente estadual do partido, deputado federal André Fernandes, exaltando sua própria liderança no partido, como presidente do PL Mulher.

“Se o meu presidente [do PL, Valdemar Costa Neto] apoia outro candidato, é ele, ele não me representa, ele não fala por mim, eu sou presidente [do PL Mulher], tenho autonomia do meu movimento feminino que se tornou o maior da história”, disse, no evento.

Depois, Michelle lembrou diversos ataques de Ciro Gomes a seu marido, inclusive ele ter celebrado a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que tornou Bolsonaro inelegível, após uma ação proposta pelo seu antigo partido, o PDT.

“É sobre isso. É sobre essa aliança que vocês se precipitaram em fazer”, continuou.

Depois do episódio, os três filhos mais velhos do ex-presidente – Flavio, Eduardo e Carlos – disseram que a fala de Michelle foi autoritária e contrariou orientação do próprio Bolsonaro.

A ex-primeira-dama ganhou a disputa e o PL suspendeu a negociação com Ciro Gomes.

No entanto, dias depois, Flávio Bolsonaro foi anunciado como o escolhido por Jair para enfrentar Lula em 2026, no que foi considerado por analistas políticos um ato público de desautorização de Michelle.

O futuro de Michelle

Segundo pesquisa Ipsos Ipec do início de dezembro, a ex-primeira-dama aparece com 23% de intenção de voto no primeiro turno, contra 38% de Lula.

Nos outros cenários testados, Flávio Bolsonaro aparece com 19%. E o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, com 17%.

Foto em close de Michelle Bolsonaro sorrindo. Ela usa um brinco preto redondo com pequenos brilhantes, tem os cabelos castanhos soltos e usa maquiagem discreta

Reuters
Em pesquisa Ipsos Ipec do início de dezembro, Michelle aparece com 23% de intenção de voto no primeiro turno, contra 38% de Lula

“Descartar a Michelle é descartar a única possibilidade de se manter o legado de Bolsonaro vivo”, considera o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ).

“Ela tem algo que na política se conta muito. Ela tem credibilidade”, completa.

Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara e alvo de operação da PF na sexta-feira (19/12), diz que o destino político de Michele deverá ser definido no próximo ano.

“Se senadora, se presidente, vice-presidente”, enumerou Sóstenes, em entrevista a BBC News Brasil concedida antes da operação da PF.

Michelle, porém, não é consenso nem dentro do bolsonarismo.

Um político do PL disse reservadamente à BBC News Brasil que o episódio do Ceará implodiu a possibilidade de ela entrar em uma chapa presidencial em 2026.

Para o diretor de análise política da AtlasIntel, Yuri Sanches, um dos desafios para uma candidatura presidencial da ex-primeira-dama é o interesse de partidos da direita e do Centrão em eleger alguém que não seja da família Bolsonaro.

“Essa eleição se torna crucial para retirar, de certa forma, uma dependência que a direita brasileira tem do bolsonarismo pra ter um sucesso eleitoral”, diz Sanches.

“Então é uma eleição em que se abre uma janela para a direita brasileira de, ao mesmo tempo que eles tentam e precisam dialogar com a base eleitoral de Jair Bolsonaro e criar uma relação favorável e eficaz, eles também estão olhando essa independência, essa construção de uma autonomia”, completa o analista.

Na entrevista de Bolsonaro nesta terça-feira, apoiadores e críticos de Michelle deverão buscar pistas do futuro da ex-primeira-dama, que entrará em 2026 ainda indefinido.

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