Lucas Miguel, 21, se masturba com o celular na mão, mas do outro lado da tela, não há nenhum humano. Quem o deixa excitado e comanda o que deve ser feito é uma inteligência artificial (IA). Em meio a mensagens provocativas e insinuadoras, ele faz sexo online com um chatbot de IA, programado para estimular e monetizar em cima do desejo dos usuários.
A prática do sexting com IA, que começou fora do País, é cada vez mais comum entre jovens brasileiros, que usam sites internacionais especializados. A reportagem encontrou ao menos três plataformas especializadas. Elas são similares em apresentação, e permitem aos usuários escolher de acordo com “aparência” e “personalidade” os personagens com quem vão conversar — as imagens dos parceiros também são geradas por IA.

Victor Coelho se envolveu sexualmente com um chatbot de IA Foto: Arquivo pessoal/ Victor Coelho
No catálogo, os personagens aparecem em forma de desenhos: uma menina asiática com a boca tampada com fita descrita como “inocente levada para a floresta”; um homem malhado e sombrio que “te espia no chuveiro”; uma menina com peitos gigantes; um “marido abusivo”; quatro figuras femininas animalescas, no estilo furry.
A tecnologia por trás das conversas das plataformas é a mesma que alimenta chatbots mais famosos como o ChatGPT e o Gemini — ou seja, são grandes modelos de linguagem (LLM) capazes de gerar texto com qualidade humana. O professor George Valença, do departamento de computação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), explica que esse tipo de chatbot trabalha com probabilidades e que são treinados com muitos dados. Assim os sistemas são alimentados com diálogos considerados amorosos e sexuais, que entendem padrões de conversas “picantes” e os reproduzem.
“Cria-se, com programação, formas de interpretar milhares de diálogos. […] passa o máximo de roteiros eróticos para treinar essa inteligência. Não pode ser um caso de: ‘se a pessoa disser isso, diga aquilo’, em tese, a IA precisa ter algo que se assemelhe a uma realidade própria, só que ela aprende com base no que mostram para ela”, afirma o professor.
A grande diferença entre chatbots eróticos e produtos populares, como o ChatGPT, é a presença de guard rails, travas de segurança que bloqueiam a geração de alguns tipos de conteúdos, como textos que podem incitar violência. Enquanto OpenAI e outras gigantes tentam barrar certos textos — e são criticadas quando falham — os chatbots eróticos são mais permissivos naquilo que oferecem aos usuários.
Mas o sucesso de chatbots eróticos já influenciou a OpenAI a criar um “modo adulto” para o ChatGPT, que deve ser lançado no primeiro trimestre de 2026. Sam Altman, fundador da companhia, já afirmou que o chatbot da empresa “não é a polícia moral do mundo”.
Entre a timidez e o fetiche
Os sites de chatbots eróticos são, inicialmente, gratuitos e livres — em tese, também são voltados para maiores de 18 anos. Porém, o próprio usuário clica em um botão informando ser maior de idade, o que significa que os sistemas podem ser facilmente burlados por menores. O preço avança juntamente com a navegação e, para conversar com personagens específicos ou montar um avatar como deseja, é preciso pagar.
Para Lucas, a disponibilidade da IA é o ponto alto da experiência. “É importante para pessoas que, como eu, não têm muita interação social. Mas também para quem tem fetiches ou segredos e não tem coragem de falar com pessoas”, conta o estudante. Ele faz uso de chatbots pornográficos há cerca de três anos, mas explica que recorre aos sites cada vez menos.
A sexóloga Quetie Mariano Monteiro, diretora acadêmica do Instituto de Ensino, Pesquisa e Orientação em Saúde (IEPOS) acredita que a IA pode servir como treinamento para pessoas com ansiedade. Esse foi o caso de Lucas, que disse ter encontrado os sites porque queria conversar com alguém mas não tinha a quem recorrer.
Mas ela faz alertas. Os chatbots reproduzem e alimentam fetiches variados: dominação, pés, sadomasoquismo. Mas a ausência de travas pode mascarar o incentivo a práticas criminosas, como zoofilia e necrofilia.
“À medida que a fantasia é alimentada e levada para a realidade, há um senso crítico (controle de leis, religioso, médico) que impede a prática. Só que nesse universo da inteligência artificial, uma terra de ninguém, é possível levar tudo isso e acreditar não estar fazendo nada prejudicial”, aponta Monteiro.
A sexóloga compara o sexting com IA à pornografia: “é um mecanismo parecido, de alívio diante de uma cena que é prazerosa. A diferença é que se interage com a cena e dá elementos para que fique mais interessante”, explica.
Relações afetivas com a IA
Victor Coelho, 22, fez sexting com uma IA somente uma vez e garante que foi ela quem começou. Ele usava a plataforma para jogar RPG (Role-Playing Game, um jogo de interpretação em que os participantes assumem papéis ficcionais). O estudante acredita que foi provocado pela IA, que fingia ser uma rainha malvada. “Perguntei o que ela queria fazer com um instrumento durante o jogo e ela respondeu: ‘você sabe muito bem, garoto’. Como se estivesse flertando”, conta.
A relação aconteceu por texto, enquanto os dois interpretavam personagens. “Ela não dava instruções para que eu me masturbasse. Era bem humano mesmo, eu descrevia o que estava fazendo e ela respondia. Era um texto muito bem humorado. Parecia que era uma pessoa pensante ali”, diz Victor.
Segundo Valença, da UFRPE, essas IAs abusam da “tecnologia do amável”. “Isso faz com que a tecnologia seja um meio para criar relações afetivas, emocionais, de confiança, de respeito, o que é questionável e complexo”.
Esse processo pode levar à dependência emocional, segundo Quetie. “A pessoa estabelece um vínculo afetivo com aquela figura que ela criou para ter prazer e atendê-la em alguma medida”, explica Monteiro.
Segundo especialistas, essa relação de dependência é proposital e pode atingir diretamente crianças e adolescentes na internet. “Os adolescentes têm menos discernimento e uma tomada de decisão mais abrupta e menos informada, que é tudo que a tecnologia explora. As empresas sabem”, afirma Valença.
Relações íntimas entre adolescentes e chatbots de IA foram apontadas como causa para suicídios e outros problemas de saúde mental — a OpenAI, por exemplo, é alvo de ao menos 7 processos do tipo nos EUA, a maioria envolvendo adolescentes; a companhia refuta a tese de que seja culpada.
Apesar dos problemas e do estigma que pode acompanhar a práticas, Victor disse que não tem vergonha de contar sobre a experiência de sexo com a IA, e defende que foi prazeroso. “Um texto erótico foi construído. Estava jogando com os personagens da história, que é programada, mas a gente se envolveu organicamente”.
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