E se os Estados Unidos invadirem a Venezuela?
Disparidade militar entre EUA e Venezuela é abissal: enquanto Washington tem as Forças Armadas mais poderosas do mundo, Caracas ocupa apenas a 50ª posição. Crédito: Amanda Botelho e Gabriella Lodi/Estadão
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou a pressão sobre o ditador venezuelano Nicolás Maduro, classificando-o como líder de uma organização terrorista, mobilizando navios de guerra no Caribe, ordenando o fechamento do espaço aéreo do país sul-americano e sugerindo ataques iminentes à nação.

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, gesticula para apoiadores no Palácio de Miraflores, em Caracas Foto: Juan Barreto/AFP
No mês passado, ao ser questionado se os dias de Maduro como líder da Venezuela estariam contados, Trump respondeu: “Eu diria que sim”.
O The New York Times informou que o Pentágono elaborou planos para possíveis ações militares na Venezuela, incluindo o envio de forças de Operações Especiais para tentar capturar ou matar Maduro.
Pessoas próximas ao regime afirmam que o desgaste de resistir à pressão de Trump debilitou o ditador física e emocionalmente, levando-o a reforçar sua segurança pessoal. Seus assessores sugeriram aos EUA que ele consideraria deixar o cargo em 2027, mas o governo Trump pressionou por uma renúncia imediata.
Caso Maduro deixe o poder, seu sucessor será determinado pelas circunstâncias da saída. Uma renúncia voluntária, um golpe interno ou uma intervenção militar externa resultariam em nomes diferentes.

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, participa de uma coletiva de imprensa em Caracas, Venezuela Foto: Federico Parra/AFP
A moderada: Delcy Rodríguez, número dois do regime
De acordo com a Constituição venezuelana, Delcy Rodríguez seria a primeira na linha de sucessão caso Maduro renunciasse ou ficasse incapacitado. Como presidente interina, a atual vice-presidente e ministra do Petróleo seria obrigada a convocar novas eleições, embora a data do pleito dependesse do momento da saída de Maduro.
Considerada relativamente moderada, Rodríguez é a arquiteta de uma reforma econômica pró-mercado que estabilizou a Venezuela após um longo período de colapso. A privatização de ativos estatais e uma política fiscal conservadora prepararam Maduro para resistir melhor a esta rodada de sanções econômicas de Trump.
Com formação parcial na França, Rodríguez cultivou laços com elites econômicas locais, investidores e diplomatas estrangeiros, projetando-se como uma tecnocrata cosmopolita em uma ditadura militarista e predominantemente masculina.
Sua pretensão à presidência, contudo, é enfraquecida pela fraude eleitoral de Maduro. A oposição argumenta que o ditador e todos os seus nomeados para o Executivo são usurpadores.

A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodriguez, discursa no Congresso venezuelano, em Caracas Foto: Pedro Mattey/AFP
O linha-dura: Diosdado Cabello, ministro do Interior
Principal rival interno de Maduro, Diosdado Cabello é apontado por grupos de direitos humanos como o pilar do aparato de repressão do país e a voz da facção linha-dura que pretende preservar o regime a qualquer custo.
Tenente aposentado e próximo ao falecido Hugo Chávez, Cabello tem sido, até agora, um dos maiores beneficiários políticos da pressão de Trump. A ameaça de invasão enfraqueceu seus rivais internos mais moderados, que defendiam uma reaproximação diplomática com os EUA.
A beligerância de Washington serviu como um palanque ideal para o estilo agressivo de Cabello. Ele utiliza suas frequentes aparições públicas e seu programa de televisão para atacar opositores e mobilizar os fiéis do partido governista.

O ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, participa de uma coletiva de imprensa em Caracas Foto: Pedro Mattey/AFP
Como ministro do Interior, Cabello reforçou o controle sobre as forças de segurança no último ano, instalando aliados em cargos estratégicos e supervisionando prisões sistemáticas de simpatizantes da oposição.
Suas táticas brutais, no entanto, significam que ele é o funcionário de alto escalão com mais a perder em uma transição política. Assim como Maduro, ele enfrenta acusações de tráfico de drogas nos EUA, que oferecem uma recompensa de US$ 25 milhões (R$ 133,5 milhões) por sua captura.
A Nobel: María Corina Machado, líder da oposição
Política conservadora de longa trajetória, María Corina Machado liderou a campanha popular que comprovou uma vitória esmagadora na eleição presidencial do ano passado — resultado amplamente reconhecido pela comunidade internacional. O feito lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz deste ano.
Após a votação, uma onda de repressão forçou-a a passar à clandestinidade na Venezuela, mas ela continua denunciando a usurpação de Maduro e as violações de direitos humanos por meio de pronunciamentos em vídeo.
Machado descarta qualquer negociação com o regime e defende a estratégia de pressão máxima de Trump. Sua coragem e postura inabalável a tornaram a figura política mais popular do país, segundo pesquisas. No entanto, sua recusa em transigir a torna indesejada pelas elites governantes, o que complica seu caminho em uma eventual transição pactuada.

A líder da oposição na Venezuela, María Corina Machado, discursa para apoiadores em Caracas Foto: Ariana Cubillos/AP
O eleito: Edmundo González, diplomata aposentado
Edmundo González era um diplomata aposentado pouco conhecido até se tornar o improvável candidato da oposição. Ele substituiu María Corina, que venceu as primárias, mas foi impedida pela ditadura de concorrer.
Impedido de assumir o cargo após o pleito, González partiu para o exílio na Espanha, deixando o protagonismo para Machado. Em declarações ocasionais, adotou um tom mais conciliador que sua mentora política.
“Seria contrário aos meus princípios e à minha trajetória defender qualquer tipo de violência, muito menos um golpe de Estado”, escreveu ele na revista The Economist no ano passado.
Embora especialistas afirmem que sua vitória eleitoral lhe confere legitimidade legal para a presidência, suas conexões políticas frágeis dificultariam sua permanência no poder durante o período de instabilidade que se seguiria a uma transição.

Edmundo González Urrutia posa para uma foto em sua casa em Caracas Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
O operador: Jorge Rodríguez, presidente do Congresso
Irmão mais velho de Delcy Rodríguez e principal estrategista político de Maduro, Jorge Rodríguez tem representado o regime em negociações com os EUA há anos.
Sua reivindicação ao poder baseia-se em seu cargo de presidente do Congresso — o partido governista conquistou a maioria nas legislativas de maio, após concorrer praticamente sem oposição.
Como chefe de um órgão eleito, Rodríguez poderia pleitear legitimidade em uma transição, segundo alguns constitucionalistas. Outros discordam, argumentando que o pleito parlamentar não foi livre nem justo. Apesar de ser um operador habilidoso, ele carece de apoio popular e sua posição interna foi desgastada por ter insistido na eleição presidencial mesmo quando as pesquisas indicavam uma derrota acachapante para Maduro.

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, gesticula durante uma sessão ordinária da Assembleia Nacional no Palácio Legislativo Federal em Caracas, em 2 de dezembro de 2025 Foto: Pedro Mattey/AFP
O general: Vladimir Padrino López, ministro da Defesa
Oficial de mais alta patente da Venezuela, o general Vladimir Padrino López tem a missão de manter a lealdade das diversas facções das Forças Armadas.
Embora tenha feito referências pró-democracia e tenha sido citado em reportagens sobre uma tentativa fracassada de golpe em 2019, sua lealdade final permanece alvo de especulação.

O ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino, discursa antes de um exercício militar da Milicia Bolivariana Nacional, em Caracas Foto: Pedro Mattey/AFP
Publicamente, Padrino López defende Maduro com veemência, e as unidades sob seu comando reprimiram protestos violentamente ao longo dos anos. Ele não possui um caminho formal para a presidência, mas o papel central dos militares na política venezuelana faz dele um ator decisivo em qualquer cenário de transição.
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